Viking bom é viking que morre como um Tupi?

A série de televisão Vikings tem feito sucesso ao redor do mundo e no Brasil https://pt.wikipedia.org/wiki/Vikings_(s%C3%A9rie_de_televis%C3%A3o). Na segundo volume da quarta temporada o personagem Ragnar Lothbrok morre. Tendo caído em desgraça na sua terra, Ragnar consegue organizar um novo ataque à Wessex (Inglaterra). Durante a viagem o barco afunda, mas ele e o filho sobrevivem.

Após matarem os demais sobreviventes a noite, Ragnar e o filho Ivar se entregam ao Rei Ecbert. O rei de Wessex entrega o rei dos vikings para o rei da Nortúmbria. Aelle tortura Ragnar e o joga num poço cheio de serpentes venenosas. Antes porém, Ragnar profere um eloquente e corajoso discurso glorificando a própria morte e dizendo que seus filhos irão vingar sua morte.

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Essa cena marcante atraiu minha atenção. Há duas versões para a morte de Ragnar Lothbrok (ou Ragnar Lodbrok) https://pt.wikipedia.org/wiki/Ragnar_Cal%C3%A7as_Peludas. Numa delas o personagem histórico ou lendário teria morrido de cólera e dos ferimentos durante o ataque a Paris. Na outra ele foi jogado num poço de serpentes a mando do rei Aella II como ocorre na série de TV. Todavia, não há qualquer registro de que Ragnar tenha dito algo antes de morrer.

O discurso atribuído a Ragnar Lothbrok na cena de sua morte (série de TV) é, portanto,  uma licença poética/cinematográfica que cumpre a mesma finalidade que a arenga heróica atribuída a Che Guevara pouco antes dele ser assassinado a sangue frio (discurso que ele não teria proferido segundo seus inimigos). Todavia, se recuarmos no tempo encontramos um comportamento semelhante ao atribuído a Ragnar Lothbrok entre os Tupis e Tupinambás no momento em que eles eram sacrificados e devorados por seus inimigos no século XVI.

“O massacre constituía a última situação social vivida pelo escravo na comunidade dos captores. Nessa ocasião, ele compartilhava com o senhor os papéis centrais de uma das cerimônias mais importantes na vida religiosa tribal. Ambos se defrontavam socialmente como pessoas de cujas ações dependeriam a efetivação de um ideal ético e a realização de ambições ou aspirações que consubstanciavam, de modo diverso para cada um deles, o próprio destino de um e de outro. Essa relação extrema do senhor com o escravo, de sacrificante para vítima, se desenrolava sob a  forma de luta e garantia a cada contendor determinados sentimentos de auto-suficiência. Enquanto um atuava como ‘bem-aventurado’ a quem cabia vingar os parentes mortos ou satisfazer os desejos dos espiritos, o outro encontrava uma satisfação interior na própria situação vivida, pois interpretava seu comportamento agressivo com uma modalidade de vingança. Explica-se assim porque certas expectativas de comportamento do matador e da vítima possuíam para eles um significado ético. O primeiro encorajava o segundo, estimulando-o a morrer com coragem e dignidade: ‘Feitas estas cerimônias afasta-se algum tanto dele e começa a lhe fazer uma fala a modo de pregação, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, para que o não deshonre, nem digam que matou um homem fraco, efeminado e de pouco ânimo, e que se lembre que dos valentes é morrerem daquela maneira…’ [Gandavo, História, p. 133]. Por sua vez, o escravo esperava ser sacrificado por um guerreiro tão reputado e valoroso quanto ele: ‘Somente uma coisa causa-lhe apreensão, principalmente se se trata de um grande guerreiro: o fato de possivelmente não ter o seu algoz estado ainda na guerra, de não ser como ele um grande e valente guerreiro, um kerembave e tetanatu. Nesse caso, fica desesperado e julga grande afronta e deshonra que lhe fazem. Ms quando o encarregado de matá-lo é um kerembave e tetanato ou tauaíve, não se importa de morrer e encara a morte como uma grande honra’ [Abbeville, pág. 232-233]” (A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, Florestan Fernandes, Editora da USP, São Paulo, 1970, p. 263/264)

Um pouco adiante, após detalhar as cerimônias que precedem o ato supremo, ou seja, a execução da vítima, o grande sociólogo brasileiro acrescenta uma informação extremamente relevante:

“…Levy, cujas observações sobre estas cerimônias não são exatas, acrescenta os seguintes dados sobre o amarramento ritual da mussurana no corpo da vítima: ‘Não se imagine porém que o prisioneiro com isso se deprime. Ao contrário, com audácia e incrível segurança jacta-se das suas proezas passadas e  diz aos que o mantêm agarrado: ‘Também eu, valente que sou, já amarrei e matei vossos maiores’. ‘Cada vez mais feroz, volta-se para ambos os lados exclamando para uns e para outros: ‘Comi teu pai e moquei a teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes os nomes; e fiquem certos de que para vingar minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar’ [Léry, pág. 177].” (A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, Florestan Fernandes, Editora da USP, São Paulo, 1970, p. 282)

“Após o amarramento da mussurana, a vítima faria o seu auto-elogio: ‘Nossos amigos os Maracajás são gente de bem, fortes e potentes na guerra. Eles capturaram e comeram vários dos vossos parentes nossos inimigos, e desses que me tem agora para me fazer morrer. Mas eles vingarão logo minha morte, e vos comerão quando quiserem e a vossos filhos também. Quanto a mim, eu já matei e comi muitos amigos desse maligno Aignan, que me tem prisioneiro. Eu sou forte, eu sou potente. Fui eu que muitas vezes capturei em marcha covardes como vocês, que nada sabem de guerra; e muitas outras palavras eles dizem, que mostram o pouco caso que eles tem da morte, e que o medo dessa não pode em nada abalar sua mais que brutal segurança’ [Thevet, Cosmographie, fol. 945]. Além do diálogo com o sacrificante, a vítima mantinha, antes do massacre, diálogos rituais com outros personagens. Gabriel Soares apanhou parte desta cerimônia, que dizia respeito à participação verbal das mulheres: ‘… onde lhe as velhas dizem que se farte de ver o sol, pois tem o fim tão chegado; ao que o cativo responde com grande coragem, que pois ele tem vingança de sua morte tão certa, que aceita o morrer com muito esforço’ [Gabriel Soares, pág. 398].” (A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, Florestan Fernandes, Editora da USP, São Paulo, 1970, p. 284/285)

A execução de Ragnar Lothbrok na série de televisão segue o mesmo padrão de comportamento referido por Florestan Fernandes. O rei viking é separado dos captores (Aelle e seus soldados): Ragnar está numa gaiola suspensa no ar. Antes de ser massacrado ele desdenha a morte como sendo um prêmio (vou comer e beber com Odin no seu grande salão) e garante ao rei da Nortúmbria que os parentes dele irão vingar seu assassinato.

Não sei onde foi que o roteirista buscou inspiração para escrever a cena comentada. Mas uma coisa é certa: se fosse executado por Tupianambás o viking seria certamente confundido com um Tupi. Ragnar poderia até dizer “hoje vou comer moquém e beber cauim com Tupã”, pois o deus do trovão dos Tupis era o verdadeiro Thor de Pindorama.

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