A rotatividade no mercado de trabalho no Brasil, por Clemente Ganz Lúcio

Artigo do Brasil Debate

Por Clemente Ganz Lúcio

Rotatividade no mercado de trabalho é a substituição de um empregado por outro no mesmo posto de trabalho. No Brasil, as empresas têm total liberdade para contratar e demitir a qualquer momento, sem precisar apresentar nenhuma explicação ao trabalhador. Basta pagar os custos da rescisão do contrato de trabalho.

No mercado formal de trabalho do país, milhões de vínculos de emprego são rompidos anualmente e novos são estabelecidos. Nos anos 1990, este fenômeno ocorria em um cenário de alto desemprego, precarização das condições de trabalho e redução dos salários pagos aos novos contratados em relação aos pagos aos demitidos. Contudo, há uma década, o desemprego vem se reduzindo, a formalização aumentando, os salários crescendo e, mesmo assim, o fluxo de demissão e contratação continua em ampliação.

Há alguns anos, o DIEESE, em cooperação com o Ministério do Trabalho e Emprego e entidades sindicais, investe no estudo da rotatividade no mercado de trabalho, procurando inclusive formas de intervenção que ajudem a reduzir o problema. Há publicações que tratam dessa temática no site da entidade (www.dieese.org.br). O último trabalho foi recentemente divulgado, com dados de 2013.

Com base nos registros administrativos da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), o fluxo geral de demissões e contratações no mercado formal é analisado, sem observar especificamente o posto de trabalho, como uma maneira de aproximação da mensuração da taxa de rotatividade.

Os registros da Rais indicam que houve crescimento do mercado formal de trabalho no Brasil na última década, que passou de um estoque de 29 milhões de vínculos em 31/12/2002 para quase 49 milhões em 31/12/2013. Portanto, foram 20 milhões de novos empregos com carteira de trabalho. Entretanto, o estoque de postos de trabalho no final do ano não revela o grande fluxo de admissões e demissões que ocorre ao longo do ano. Por exemplo, em 2013, foram mais de 75 milhões de vínculos ativos ao longo do ano, dos quais mais de 26 milhões foram rompidos no mesmo período. Qual é a lógica dessa dinâmica que se repete anualmente?

A taxa de rotatividade do conjunto do mercado formal de trabalho (celetistas + estatutários), em 2013, foi de 54,9%, levemente inferior à taxa de 2012 (55,2%), contudo superior à de 2003 (42,7%). Considerando que os servidores públicos estatutários têm estabilidade no emprego, procedeu-se ao cálculo da rotatividade somente dos trabalhadores contratados no regime celetista (emprego com carteira de trabalho) e submetidos à demissão por iniciativa do empregador. Com este recorte, a taxa fica em 63,7% em 2013, estável diante dos 64,0% de 2012, mas bem superior aos 52,4% de 2003. O crescimento do contingente de ocupados ampliou o ritmo frenético de contratações e demissões dos trabalhadores celetistas.

As demissões ocorrem predominantemente para os trabalhadores com menos de 1 ano de vínculo e representam 66% dos desligamentos. Quase metade (31%) dos desligados tinha até três meses de vínculo, ou seja, estava no período caracterizado pela legislação como contrato de experiência. As ocupações em que mais rodam trabalhadores são aquelas vinculadas ao apoio na produção e nos serviços: assistentes, auxiliares, serventes e ajudantes.

A demissão, rompimento do vínculo que decorre de iniciativa patronal, representou 68% dos desligamentos em 2013 (era 78% em 2003). Com o mercado de trabalho aquecido e queda no desemprego, observa-se o aumento do desligamento a pedido do trabalhador, de 16%, em 2003, para 25%, em 2013. Transferências representaram 6,5%, falecimentos, 0,3%, e aposentadorias, 0,1% (2013) dos rompimentos dos vínculos de emprego.

Ao subtrair da taxa de rotatividade total (63,7%) os desligamentos a pedido do trabalhador, as transferências, as mortes e aposentadorias, chega-se à taxa de rotatividade decorrente da demissão por iniciativa patronal, que atingiu 43,4%, em 2013, e ficou levemente superior aos 40,9% de 2003. Portanto, mesmo em um mercado de trabalho mais competitivo, no qual as empresas reclamam da falta de mão de obra, o ritmo de demissão por inciativa patronal cresce.

Há muita diferença na taxa de rotatividade entre os setores, conforme indica o Quadro 1.

Em 2013, o número de estabelecimentos foi estimado em 3,9 milhões, dos quais 6% foram responsáveis por mais de 63% das demissões. É importante esclarecer que uma empresa pode ter vários estabelecimentos – por exemplo: um banco tem uma rede de agências e cada agência bancária é considerada um estabelecimento.

Em torno de 58% dos estabelecimentos do país operam com taxa de rotatividade acima da média. Ao mesmo tempo, 18,6 mil estabelecimentos, o que representa 0,5%, são responsáveis por 34% dos desligamentos.

Qual é mesmo a funcionalidade econômica da rotatividade? Um trabalhador normalmente pede demissão porque o posto de trabalho é ruim (salário, condições de trabalho etc.) ou porque teve uma oportunidade melhor e isso ocorre quando o mercado de trabalho está aquecido. De outro lado, as empresas demitem para contratar um trabalhador com salário menor, quando há muito desemprego. Contudo, quando as empresas precisam de mais força de trabalho e disputam trabalhadores no mercado de trabalho, qual a funcionalidade de demitir e contratar?

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13 Comentários

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Sérgio T.

- 2015-01-13 15:49:16

Minoria dos casos

Nicolas, o fato por você revelado existe, é real, mas minha experiência é na indústria petroquimica e lhe garanto que a maioria das demissões por aqui ocorrem por outros fatores. O principal mesmo é baixar o custo dos salários.

Um abraço.

Frederico69

- 2015-01-13 15:47:05

quem sabe,

é pela falta de mão de obra qualificada, devido ao mercado aquecido. o patrão contrata pois o cara falou que sabia de tudo. quando a realidade aparece, o patrão manda embora na esperança que o próximo seja o cara.

eu

- 2015-01-13 15:14:18

Ficou fantando neste calculo

Ficou fantando neste calculo o seguro desemprego, que pode render ainda mais.

Ou seja, para que ganha menos o desemprego muitas vezes é mais vantajoso que ficar empregado, já que as dividas são para ontem.

Ricardo CP

- 2015-01-13 14:49:27

E a terceirização?

É preciso levar em conta se porventura não estaria havendo aumento da terceirização (sobretudo em órgãos dos governos), pois é bem sabido que as empresas que prestam serviços terceirizados (por exemplo, serviços de limpeza nos órgãos governamentais) praticam exageradamente a rotatividade. Funciona assim: a empresa "X" vence uma licitação para prestar serviço de limpeza no órgão governamental "A". Assim, faz um contrato de, digamos, dois anos. Quando vai chegando perto do final do contrato, a empresa X começa a não pagar os salários de seus faxineiros, estes começam a fazer greve, o contrato termina e a empresa X fica "queimada", não podendo mais participar de licitações. O que ela faz (seus donos)? Simples, os antigos donos da empresa X criam a empresa Y, que ganha a nova licitação. O que aconteceu com aqueles faxineiros da empresa X? Simples. Foram demitidos, provavelmente receberam seguro-desemprego (provavelmente em processo fraudulento em acordo forçado com a empresa X), e agora são contratados pela empresa Y, para trabalhar no mesmo órgão A, para quem os funcionários concursados (alguns) continuam a dar bom dia, etc, só que agora perguntam: "Ué (uai), seu uniforme mudou?" Resposta: "É, agora somos da empresa Y"... Canso de ver isso...

Lucinei

- 2015-01-13 13:38:43

Faltou o fator MBA.

Faltou o fator MBA.

Horacio Duarte

- 2015-01-13 13:38:32

Sazonal?

Há diferentes fatores. Certamente a sazonalidade é a mais importante. Na construção civil, você tem algumas especializações, por exemplo, armador e carpinteiro, só vão trabalhar durante a construção da estrutura, depois tem o pedreiro, o encanador, que vão fazer outro tipo de serviço, e aí chegamos ao acabamento, pedreiro de acabamento, pintura etc. Nenhum destes fica durante toda a obra, exceto em empresas maiores com uma sequência de projetos que permita a continuidade. No comercio, fim de ano, e agricultura, colheita por exemplo, também tem sua sazonalidade. Basicamente esta rotatividade está relacionada a uma baixa produtividade ou técnicas de uso intensivo de mão de obra de baixa qualificação.

adolpho

- 2015-01-13 13:19:53

Acho que esqueceram também da

Acho que esqueceram também da possibilidade de o cara pedir demissão e ficar à toa, às custas do salário-desemprego...

Nicolas Crabbé

- 2015-01-13 11:39:51

Esqueceram do acordo

O estudo não leva em consideração a prática do acordo entre as partes, onde o empregador concorda em demitir o empregado, para que este possa sacar o FGTS; em contrapartida o empregado concorda em devolver o montante correspondente à multa de 40% do FGTS. Isso é bastante comum.

Uma explicação plausível, que vivenciei na empresa onde trabalhava: os funcionários, sobretudo os de menor qualificação e com salário mais baixo, acertavam com seu supervisor para serem demitidos. Com isso levavam na rescisão (se acontecesse com cerca de um ano de serviço) 1,33 salário de férias, 1 salário de aviso prévio, 1 salário de FGTS, fora 40% de um salário pla multa do Fundo.

Para alguém apertado financeiramente, uma bolada de quase 4 salários pode ajudar bastante, ainda mais que com o mercado de trabalho aquecido, o funcionário demitido não teria nenhuma dificuldade para encontrar outro emprego pagando a mesma coisa ou até um pouquinho a mais.

Em outras palavras, o endividamento, junto com o acordo, pode ser uma explicação para essa alta rotatividade.

eliana paes

- 2015-01-13 11:34:18

desligamento a pedido de trabalhador

acredito que a estimativa de demissões a pedido do trabalhador esteja muito subestimada.

no setor de serviços de pouca especialização e baixo nível salarial é comum a demissão sem justa causa "forçada"

o trabalhador "força" a demissão pela empresa com faltas, negligência, má vontade.

é impossível manter um funcionário que atenda ao público nestas condições.

a empresa muitas vezes não tem nenhum interesse em demitir (a demissão custa muito)

se considerarmos, que e a expectativa de melhoria salarial é pouca, ou seja , os salários pagos estão dentro de uma média setorial, qual a única explicação?

receber o aviso prévio, levantar o fgts e gozar alguns meses de inatividade com o auxílio desemprego.

o que me surpreende é que este fato, tão comum no dia a dia, não é sequer mencionado.

no artigo toda a demissão ou é motivada pela empresa ou é a pedido do trabalhador.

no dia a dia, a demissão "forçada" é o maior motivo de demissões, é evidente que isto não aparece na estatística formal.

qualquer um que tenha uma mínima experiência em gestão sabe do que falo.

acho que talvez por motivos ideológicos isto não é tratado. 

se querermos entender as aparentes contradições do mercado de trabalho, não devemos nos apegar a ideologias

 

Mogisenio

- 2015-01-13 11:18:38

Prefira a aranha de curvas!

Vamos combinar né...

que texto é este que solta um tese sobre rotatividade do trabalho no brasil , mistura com um tanto de percentuais os quais mais complicam que explicam e finaliza com uma pergunta? É brincadeira hein. Vai ser enrolado assim lá longe.

Falou, falou e não disse nada.

Mistura celetista com estatutário para depois dizer que estatutário tem estabilidade... ah, vá ser  ruim assim longe daqui meu caro embromation

As empresas no brasil NÃO TÊM total liberdade de "demitir"  a qualquer momento sem apresentar nenhuma explicação ao EMPREGADO ( e não ao gênero trabalhador!). Isso porque, as ORGANIZAÇÕES podem DISPENSAR, ai sim, com justa causa ou sem justa causa.  Quem se demite é o EMPREGADO! Portanto, o empregado não PEDE DEMISSÃO. Ao contrário, ele é que  se demite!

Obs. as letras maiúsculas não produzem som! Portanto, não se trata de "GRITOS".  Trata-se de uma forma de destaque que escolhi. 

Prossigo

Considerando-se que as "empresas" ( organizações)  que contratam celetistas podem dispensá-los  e estes podem  se demitir então não há nenhum impedimento , ou melhor, nenhuma anormalidade quando isso acontece. 

Aliás, se eu pudesse dar um conselho aos mais jovens - que se submentem a um contrato de emprego - eu diria para usarem e abusarem do instituto contratual.  Isso mesmo!  Vá numa organização, participe de todo o processo de recrutamento e seleção, assine um contrato de emprego e , se por algum motivo não ficar satisfeito , SAIA imediatamente deste emprego e procure outro até se ver "livre" destes contratos que enganm os otários!

Noutras palavras, altere a CURVA DE OFERTA de mão de obra barata!  O preço vai aumentar, segundo os economistas de escol de meia tigela!

Aliás, dependendo da curva proiba que seus entes queridos procurem emprego com "carteira assinada". Coloque no "mercado" somente a "força de trabalho" que ele pode absorver a PREÇOS ATRATATIVOS. Suspeito que com isso, rapidamente, a falta de MÉRITO que impera no MERCADO ficaria claríssima!  A partir daí, as famigeradas "reformas institucionais" ( ex: reforma agrária, política, tributária de sua casa ou da ponte que eventualmente alguém  mora) que nunca são feitas,  não encontrariam mais abrigo nesse mundo de falácias! Ai sim, a porca torceria o rabo!

Evidentemente, tal premissa serve para os imigrantes mesmo considerando-se os impedimentos constitucionais desta "força de trabalho" no país.

 

Saudações

 

 

 

 

Ze Guimarães

- 2015-01-13 11:11:34

Comparação

Poderíamos comparar o elevado índice de rotatividade de mão de obra com o elevaíssimo índice de divórcios nas sociedades atuais.

Antigamente um funcionáro entrava numa empresa, trabalhava 30, 40 anos e se aposentava. antigamente, uma pessoa casava, ficava casada 30, 40 anos, em geral morriam em avançada idade juntos.

Hoje em dia, emprego ou casamento  que dure mais de 4 anos ficou raro. A sociedade tem partido para a filosofia de exigir o impossível do próximo , tanto no caso de conjuges, quanto de patrões exigindo de empregados. 

Existia um vinculo entre patrões e empregados, tanto quanto entre conjuges, hoje em dia um funcionário é só um número na empresa; os conjuges também estão sendo vistos assim, e o dinheiro e o poder se tornaram mais importantes do que o ser humano.

E  se fizerem um estudo, as empresas que mais demitem são as mesmas. A tolerância zero para qualquer falha do funcionério explica muita coisa. Some-se isto, ao baixíssimo grau de treinamento dado aos funcionários, que já começa na escola publica, que tem visto decair fortemente sua qualidade nos últimos 50 anos, e têm-se um quadro completo.

De um lado, a  sociedade antigamente tinha não só escolas públicas melhores, mas valores mais rígidos, passados desde a infância para a criança. De outro lado, as empresas entraram na paranóia do perfeccionismo tecnologico, onde o funcionárionunca pode errar, onde tudo é feito em regime de urgência urgentíssima, é exigido do ser humano o desempenho de máquina. 

Teve uma frase de Henry Ford, do começo do século XX, no qual um funcionário da fábrica cometeu um erro que custou caro para Ford, e ele não demitiu o funcionário dizendo que custaria mais dinheiro ainda para contratar e treinar outro funcionário para a mesma função. Então Ford manteve o funcionário na fábrica mesmo assim. Hoje em dia este tipo de pensamento não está mais em uso, salvo raras excessões, infelizmente.

Ricardo Cesar

- 2015-01-13 10:42:45

As empresas estão demitindo

As empresas estão demitindo empregados com experiência para contratar com o mesmo valor 3 empregados com pouca ou nenhuma experiência. Compensam com recursos tecnológicos como conectividade, acesso remoto e telefônico. Montam uma central de atendimento para auxiliar os menos experientes com alguns mais experientes. Substituem engenheiros por técnicos enfermeiros por técnicos de enfermagem, professores por estagiários, biomédicos por tecnólogos.  E la nave va.....

Mané

- 2015-01-13 09:35:02

Dou uma pista...

Alguém já ouviu falar da geração Y, acho que pode explicar alguma coisa.

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