Policiais Antifascismo – Um Conceito, por Fernando Antônio Alves

Da agência Saiba Mais 

Policiais Antifascismo – Um Conceito, por Fernando Antônio Alves

Parodiando o célebre manifesto de Marx e Engels, um fantasma ronda o Brasil: o fantasma do antifascismo!

Se assim como na Europa do século XIX, onde o Papa, os radicais da França e o aparato policial da Alemanha voltavam-se contra os comunistas, parece que no Brasil do estado de exceção permanente, que saiu das urnas no dia 28 de outubro, o presidente eleito Bolsonaro, Magno Malta, Malafaia e todos os setores de uma extrema-direita conservadora, evangélica, fundamentalista e ruralista, além de um contingente policial altamente reacionário, unem-se numa aliança para conjurar o antifascismo. Mas o que seria o antifascismo e, principalmente, o que se dizer de um movimento antifascista dentro do ambiente policial?

O chamado Movimento Nacional Policiais Antifascismo é um fenômeno social típico da ressaca da crise da globalização desde 2008, no cenário mundial, e da pulverização do Estado social-liberal iniciado timidamente na década de 1990, com o mandato presidencial tucano de Fernando Henrique Cardoso, e fortalecido na era do lulopetismo, nos tempos áureos dos governos de Lula e Dilma, na primeira década deste século, se for levado em conta o aspecto local. Seu marco inicial pode ser destacado a partir de 2013, com o surgimento do ciclo de protestos populares intitulado como “Jornadas de Junho”, a massificação dos movimentos sociais em rede, a formação de uma estrutura orgânica de organizações de direita, integrada por jovens militantes, como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre-MBL, e como consequente reação a isso, a reorganização de movimentos nessa mesma faixa etária da juventude, identificados com causas progressistas, mais à esquerda política, como a Frente Povo sem Medo e a Mídia Ninja.

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Dentre os diversos movimentos de jovens, estudantes e trabalhadores delineado no ciclo histórico de crise ética, social e política no país, destaca-se o movimento antifascista. Tal movimento espalhou-se por diversos segmentos já tradicionais de organização da classe trabalhadora brasileira, como sindicatos e organizações sociais; porém, ganhou maior revelo após a repulsa aos discursos e práticas dos movimentos de extrema-direita ter alcançado integrantes dos contingentes policiais. A partir daí é que o ativismo social nas Polícias destacou-se e mostrou um curioso traço da organização da luta política e social no Brasil: o surgimento de novos atores no debate sobre a resistência ao desmantelamento do Estado social e a defesa abnegada de direitos fundamentais.

Ora, mas polícia, historicamente, não foi feita no Brasil para reprimir? É justamente para operar com uma quebra de paradigmas, com a apresentação de um outro perfil de policial, progressista, e identificado com as causas sociais, que surgiu o Policiais Antifascismo. Menos do que ter se desenvolvido por uma adesão ideológica, defendo a tese de que tal movimento social nas polícias é resultante do surgimento de “trabalhadores atípicos” (termo utilizado por Boaventura de Souza Santos), e por meio da organização de um novo sujeito histórico, não mais identificado com uma vanguarda, simbolizada por um partido, associação ou sindicato, mas sim por redes mobilizadas sob a forma de uma multidão (conceito caro à teoria política de Hardt e Negri). Diferentemente dos sindicatos de policiais civis ou associações de praças e oficiais na Polícia Militar, o Policiais Antifascismo é composto pelo mais variado contingente de operadores da segurança pública em atividade no país, englobando tanto policiais civis quanto militares, bombeiros, policiais federais, policiais rodoviários federais, guardas civis, e incluindo, outrossim, agentes penitenciários, compreendidos como uma espécie de polícia prisional. Fazem parte, tomam parte nas discussões e podem intervir nos processos decisórios tanto profissionais ativos quanto aposentados. Uma das características básicas desse movimento é comum a todo tipo de organizações difusas que surgiram com a crise global, como o Occupy Wall Street, e o EuroMayDay é a sua horizontalidade, a importância das redes sociais e o funcionamento através de diversos coletivos independentes, sem um núcleo central, mas identificados por uma pauta comum. Desta forma, o Policiais Antifascismo tem uma estrutura diferente da burocratizada realidade dos sindicatos de servidores policiais, e suas instâncias de decisão independem de assembleias ou da regularização de seus atos por meio de atas, publicação de atos oficiais ou mesmo de registro de um CNPJ. Prevalece muito mais a personalidade política do que personalidade jurídica.

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2 comentários

  1. Um movimento

    Eh pertinente uma frente de policiais e agentes de segurança publica antifascismo nesses tempos onde o pêndulo oscila em direção ao obscuratismo. Por outro lado, essas frentes ou movimentos não deveriam negar a politica e a necessaria participação dos partidos politicos na vida social do Pais. Negar a politica é dar um passo em direção aqueles que se tornarão governantes pelo viés da antipolitica, quase sempre pessoas com visões fascistas e totalitaristas do mundo. 

  2. Acho válido

    A polícia tradicional com a ideia de obedecer, de punir, de vigiar, já é muito bem alimentada pelos partidos e pelo sistema político, como uma instituição que cuida dos interesses do governo independete do que sejam.

    Certa vez em uma manifestação pró esquerda que eu me encontrei, por se tratar de um estado com governo de esquerda, não ouve confrontos e pudemos prosseguir com um ato pacifico mesmo sujando as ruas e no final do ato alguns politicos apareceram para o que depois ficou conhecido como um ato pró esquerda, o que a principio era apartidário.

    Enquanto isso em outro estado com um governo conservador os confrontos com a polícia eram quase inevitaveis na época. O que reforça minha ideia de que a polícia estadual está submissa aos governantes e estes estão subordinados ao interesse economico.

    Assim, considero válido a condição humana do polícial, para que esse possa exercer sua cidadania se manifestando contra o regime inercial da segurança pública que é o combate da violência com mais violência e outras coisas que os discursos desse grupo em questão explicam melhor.

    E também para limpar o esteriotipo do polícial sem coração, autoritário e violento, que não pode ser contrariado. Essa é uma visão que eu considero injusta que atinja toda a classe, e esse movimento contribui para arrumar esse imáginario popular pois a motivação de muitos políciais é de fazer justiça, mas se encontram em uma instituição que não condecora honestidade.

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