TV GGN 20hs: Dois discursos históricos marcam início da reconstrução brasileira

Confira a análise e comentários de Luis Nassif sobre os últimos acontecimentos na política brasileira nesta quarta-feira, 10 de março

Jornal GGN – Os discursos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são considerados históricos por diversos motivos, mas o programa tem início com dados trágicos da covid-19 no país.

“Hoje é um dia histórico por várias razões – um dia trágico com os dados da covid-19 mostram que o genocídio, o Bolsonaro voltando a boicotar vacina e nós tivemos dois discursos históricos do Gilmar ontem, e do Lula hoje”, diz Nassif na abertura do programa.

Os dados de covid-19 mostram que a média semanal chegou a 69.096, um aumento de 22,7% em relação a sete dias e de 39,9% ante 14 dias. Ao todo, foram registrados 79.876 casos nesta quarta-feira, com crescimento em 19 estados – no Paraná, o aumento foi de 142,3% em apenas uma semana, seguido pelo Rio Grande do Sul, Amapá, Piauí e Distrito Federal.

Quanto aos óbitos, a média diária semanal chegou a 1626 vidas perdidas, um aumento de 22,2% em sete dias e de 44,7% em 14 dias. Em sete dias, 11.385 pessoas morreram de covid-19. “Os dez últimos dias bateram recordes diários, na média semanal”, ressalta Nassif.

Nesta quarta-feira, 2286 pessoas morreram de covid-19. Os dados avançaram em 23 estados, com destaque para Roraima (100% de crescimento), Rondônia (88,5%), Ceará (82,1%), Paraná (72,8%) e Maranhão (68%). “Não temos ministro e temos um presidente genocida, que só pensa em fazer negócios, com vacina e tudo aí”, afirma Nassif.

Nassif também aborda o impacto da cobertura da mídia em torno da operação Lava-Jato, a soltura de Lula e o mercado financeiro. “Começa a cair a ficha do crime que foi cometido no país por essa mistura de ativismo judicial, de ativismo da mídia. A herança maldita do Roberto Civita, fazendo a mídia protagonista, destruindo a política brasileira (…) Gente, façam jornalismo pelo amor de Deus. O mercado não tem nenhuma dimensão econômica para esse país. Só tem dimensão econômica para o mercado”.

Discursos de Mendes e Lula

Nassif fala sobre o voto do ministro Gilmar Mendes, feito durante o processo de suspeição do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro. “Nós temos duas manifestações históricas. Ontem, a do Gilmar (Mendes) – o Gilmar, tudo o que ele aprontou, e não foi pouco, ele tá regenerado”.

“Você produziu um caos institucional tão grande no país, que vai precisar de pessoas de coragem e de visão para dar um tranco nas instituições, que permitam colocar as coisas no devido lugar”, afirma Nassif. “Ouvi todo o discurso dele, e não poupou ninguém. Inclusive, admitindo que ele fez, enquanto estava a Dilma para cair, ele fez todos. Depois que percebeu o monstro que criou, com a coragem típica dele, ele se interpôs a esses abusos da Lava-Jato”

“Quando você pega a dimensão dele e do Lewandowski, e olha para Barroso, olha para Fachin, você vê como que foi a distorção que, em um determinado momento, Barroso e Fachin ganharam uma dimensão. Para vocês terem uma ideia: Barroso dizendo que os erros da Lava-Jato se concentraram em uma só pessoa. Quais foram os erros? São os erros que garantiram a eleição de um genocida, responsável direto por essa tragédia brasileira”, afirma Nassif.

Por outro lado, tem o discurso do ex-presidente Lula, feito no fim da manhã desta quarta-feira (10/03). “A capacidade dele de pegar os pontos centrais de um projeto de país é inigualável (…) Isso é uma característica de poucas pessoas. Quando você pega um estadista (…), a capacidade que eles têm de, dentro de um quadro complexo, identificar o que é o ponto central é o que o diferencia dos demais”

“O que o Lula coloca que são os pontos centrais: foi um pouco aquele roteiro daquela entrevista que ele me deu”, diz Nassif. “Primeiro coloca a tragédia pessoal, tudo o que ele passou, depois contrapõe a dimensão internacional dele”, explica, ressaltando que os brasileiros perderam a noção da dimensão de Lula. “Lula é o mais importante político da social democracia mundial”

“Depois, ele entra nas propostas de país: liberdade de imprensa, diálogo com todas as partes sem abrir mão de princípios, pontos programáticos, e o ponto dele são os pontos que ele enfatizava lá trás – foco no cidadão. Tem que dar renda para o cidadão, a renda aumenta o consumo, o consumo aumenta emprego, emprego aumenta o lucro e permite o crescimento. Que é a lógica keynesiana”, ressalta Nassif, ao comentar sobre as propostas do ex-presidente para o país.

“A importância do Estado reinvestindo – se o setor privado tem medo de investir, o Estado tem que mostrar e sair na frente (…) Um ponto muito importante: renacionalização. Esse pessoal aí que está comprando estatais, nós vamos reverter isso aí. Reverter esse quadro”

Em cima disso, Nassif conversa com Leonardo Avritzer, cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “O ano se iniciou no Brasil com um conjunto de acontecimentos negativos com poucos paralelos na história do país”, diz Avritzer, citando a tragédia de Manaus, as discussões sobre vacinas, a volta da pandemia com recordes de mortes e o desastre logístico do Ministério da Saúde e da Fazenda.

“Se ele (Paulo Guedes) tivesse uma agenda liberal – e olha que esse liberal do Paulo Guedes é muito mal usado – seria bom. Na verdade, é um incapaz que pensa em alguns processos  de privatização e não sabe gerir a economia”, diz Avritzer.

Na visão do cientista político, o Brasil é um país de muitos equívocos. “A verdade é o seguinte: a população brasileira foi manipulada, muito mal informada sobre processos jurídicos, sobre as principais questões da Petrobras e, na verdade, optou por um punitivismo antidemocrático que está chegando ao final”.

“O Lula acertou no tom do discurso. O Brasil precisa ter a capacidade de olhar para frente, unir as forças democráticas que restam no país – que são muitas, mas podem ser derrotadas uma a uma (…)”, explica o professor da UFMG. “Então, o discurso do Lula é um discurso de reunir as forças democráticas em torno dele, e ele foi exitoso”, afirma o cientista político.

Na visão de Nassif, o perigo de Bolsonaro começou a abrir os olhos “inclusive dos grupos que participaram mais ativamente do impeachment – o Gilmar entre eles, a Globo entre eles”. Avritzer concorda e ressalta: “evidentemente que esse período inteiro é muito ruim para a Rede Globo. Para a empresa e para o grupo jornalístico”

“Na verdade, o grupo jornalístico se envolveu em um processo que, em algum momento, ele vai ter que fazer mea culpa (…) Tudo isso, na verdade, tá na conta do jornalismo que a Globo tenta fazer”, diz Avritzer. “De todas as maneiras, o jornalismo da Globo sai extremamente arranhado. O Vladimir Netto, o jornalista que cobre corrupção no Palácio em Brasília, participa da redação da nota da condução coercitiva, da nota do MP sobre a condução coercitiva e ainda fala o tamanho do tempo que está reservado no Jornal Nacional. Ou seja: essas formas de relação privada entre mídia e Judiciário que matam os dois, pois são duas instituições que tem que ser fortemente independentes”.

Ao comentar o histórico de Gilmar Mendes desde que assumiu o STF, Avritzer diz que o ministro do STF “volta para a sua posição clássica, e ele se mantém nela desde o início do governo Temer. Nesse ponto, é um dos ministros com o voto mais coerente”.

“Se você pensar o voto do (ministro Edson) Fachin segunda-feira, é um voto incoerente – não estou criticando, mas é um voto absolutamente incoerente. A questão do foro deveria ter sido examinada lá trás, você anular depois de três anos a condenação, quatro anos a questão do foro, não faz sentido”, afirma o professor da UFMG. “Um ministro que aceita a politização do STF e caminha junto com ela não é o melhor para nenhuma Corte Suprema do mundo, mas ainda assim dadas as ilegalidades da Lava-Jato é um voto positivo na segunda-feira”, diz Avritzer.

“O Lula vai para o centro? Provavelmente. Primeiro, houve uma operação extremamente forte capitaneada por alguns grandes órgãos de imprensa, mas também alguns cientistas políticos, que toparam o jogo que levou até o Bolsonaro. Ali, se diz ‘não, são dois extremos’. Não, se você olhar as principais pesquisas da ciência política brasileira, e as principais pesquisas de órgãos de pesquisas internacionais, o PT e os Democratas estão equidistantes do centro”, diz o cientista político;

“O PSL tá muito mais longe do centro do que o Partido dos Trabalhadores, por qualquer uma dessas pesquisas. Então, na verdade, foi uma operação artificial. E nessa operação artificial, tentou-se expelir o PT do centro e o que se descobriu: que o centro é muito frágil sem ele”, pontua Leonardo Avritzer. “O Partido dos Trabalhadores pertence ao centro, e o centro é muito frágil sem ele. E esse é um dos motivos pelos quais o Jair Bolsonaro ganhou as eleições e, depois, deu essa lavada no Rodrigo Maia e na eleição para presidência da Câmara”.

“O sentido, hoje, seria tentar reconstruir o centro. E eu acho que o Lula apontou nessa direção na fala de hoje”, ressalta Avritzer. “Em geral, o que você hoje é uma ampla coalizão, desde economistas que estão mais ao centro, economistas do mercado, cientistas políticos (…) a gente teve alguns economistas, cientistas políticos defendendo Bolsonaro, e analistas do mercado”.

Na visão do cientista político, o governo Bolsonaro é um governo que não cria nenhuma previsibilidade. “O presidente (Jair Bolsonaro) é de uma insanidade absoluta. Quando ele caminha ali entre o Palácio da Alvorada e aquela cerca onde ele dispara impropérios em uma base quase diária, ninguém sabe o que ele vai fazer (…) O que eu acho que o centro, até mesmo o PT, tem a oferecer ao mercado: previsibilidade, que eu acho que isso que a economia brasileira perdeu completamente. Já começou a perder no governo Temer”, explica Avritzer.

Sobre a imagem do país no exterior, o professor da UFMG diz que o Brasil está caminhando para um isolamento internacional intenso por causa da maneira como o presidente Jair Bolsonaro tratou o então eleito candidato Joe Biden – “ainda no dia 06/01 naquele absurdo que aconteceu da invasão do Capitólio nos EUA, ele (Bolsonaro) falou de forma relativamente positiva sobre isso e até comparou: ‘aqui, vai acontecer pior'”.

“Então, você vê o seguinte: Bolsonaro está isolado em relação ao Biden, está isolado em relação à China por falas dos filhos em redes sociais, completamente isolado da Europa e do Norte da Europa em relação a essas questões ambientais. Então, o Brasil caminha para um isolamento muito grave”, diz Avritzer. “Acho que isso é parte daquilo que está abrindo os olhos do mercado financeiro, a Bolsa de Valores de São Paulo perdeu recursos externos nesse mês de fevereiro, começo de março, em uma base diária. Ou seja, o investidor externo não quer isso”.

“No final, minha impressão é que o mercado tem racional vai prevalecer e ele tem uma visão de longo prazo sobre o Brasil, e essa visão de longo prazo é que tem que prevalecer”, ressalta Avritzer.

“Acho que isso é parte daquilo que está abrindo os olhos do mercado financeiro, a Bolsa de Valores de São Paulo perdeu recursos externos nesse mês de fevereiro, começo de março, em uma base diária. Ou seja, o investidor externo não quer isso”, diz o professor da UFMG, ressaltando que o investidor interno não sabe o que quer, mas no final o que deve prevalecer é a visão racional e de longo prazo sobre o Brasil.

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