TV GGN20H: O fim do ultra-liberalismo na economia

E ainda: Luis Nassif entrevista Marcos César, atual vice-presidente da ADCAP (Associação dos Profissionais dos Correios)

O programa começa apresentando os dados do covid-19 no Brasil: 79.726 novos casos nesta quarta-feira, levando a média semanal para 56.928 casos – queda de 11,3% ante o visto há sete dias, e de 17% em relação a 14 dias. Quanto aos óbitos, o país registrou 3.163 novos óbitos nesta quarta-feira – e a média semanal chegou a 2.387 vidas perdidas, 14,7% a menos que há sete dias e 20,8% a menos que há 14 dias.

“Um dos pontos centrais é em relação à questão da política econômica. O ultra-liberalismo começa a se reverter em função de um fim de ciclo, e em função da pandemia, que trouxe de volta a noção de importância do Estado”, diz Nassif.

“O que a gente vem assistindo no mundo, como um todo, eu acho que você tem três golpes fatais no ultraliberalismo: a crise de 2008, o sucesso da China e o combate à pandemia”, diz o economista Gabriel Galípolo, professor do Departamento de Economia da PUC de São Paulo e presidente do Banco Fator, em entrevista a Nassif.

“Esse ultraliberalismo nasce ali com o Reagan e a Thatcher, muito como uma reação – se eu fosse pegar os dois pontos pivotais diria que foi a aproximação da China com os EUA e a defesa do dólar enquanto moeda de reserva internacional (…) O Brasil ainda é um dos últimos redutos, senão o último reduto, desse tipo de ideia, do ultraliberalismo”, diz o economista.

Na visão de Galípolo, ainda falta no Brasil “uma certa consciência de que as políticas que estão sendo implementadas agora pelo Biden, pela Europa e pela Ásia há algum tempo, são fundamentais até para que você tenha um mercado financeiro mais saudável. Falta uma coisa de conseguir enxergar o outro, falta de conseguir enxergar a totalidade. É uma coisa própria da preferência pela liquidez, eu quero me agarrar nessa segurança”.

“A política de inundação de liquidez funcionou durante um tempo para permitir que existisse uma dissonância entre mercado financeiro e atividade econômica (…)”, pontua o professor da PUC-SP. “Eu acho que agora o mundo, como um todo, está convergindo para uma dinâmica onde é preciso fazer uma expansão da liquidez via meios de pagamento, garantindo com que o dinheiro chegue em quem vai poder e quem precisa gastar”

Mercado financeiro no Brasil

Para Galípolo, “o mercado financeiro, às vezes ele se propõe (parece) que ele tá lá, preocupado com o desenvolvimento do país ou coisa desse tipo, mas é só uma narrativa que é importante para a finalidade dele, que é um poder de comando sobre a riqueza alheia”, diz o economista. “O cara que é o trader, a única coisa que ele quer é, no dia em que o Brasil acabar, que ele esteja comprado em dólar e vendido em bolsa”.

“O mercado financeiro está com o governo atual, mas abre a qualquer momento, assim que ele tiver oportunidade de abrir”, afirma o presidente do Banco Fator. “Cabe agora construir uma narrativa para fazer o mercado financeiro enxergar que ele pode até ganhar mais, desde que tenha uma lógica de um país que é capaz de progredir”, explica.

Sobre o excesso de liquidez e a circulação dessa liquidez, Galípolo explica que foi colocada uma expectativa nessa liquidez: quando fosse colocada nos bancos, esse dinheiro fosse pingar na estrutura econômica como um todo. “Você só vai dar crédito se você imaginar que aquela empresa que está tomando crédito tem perspectiva de pagar aquela dívida. E a empresa só vai tomar aquele crédito, e fazer novas dívidas, se ela achar que tem perspectiva de demanda”, diz Galípolo.

“Existe um problema de interdependência que é: a decisão de investimento gera emprego, mas ela também depende de você tem uma expectativa de demanda”, diz Galípolo, explicando inclusive o conceito do fordismo. “Você foi criando mecanismos no mercado financeiro que foram expandindo a liquidez dos ativos – cada vez mais era possível você carregar a riqueza na forma de um ativo mais líquido que não precisava circular pela geração de renda e produção da economia para se valorizar”

“O que o plano Biden faz, e me parece correto (…) De um lado, fazer um plano de contenção em defesa da renda das pessoas, com aquele primeiro programa de US$ 1,9 trilhão (…) E um outro plano da mesma monta, de US$ 2 trilhões, que está voltado para infraestrutura e modernização da sua indústria”

Sobre a lógica do mercado financeiro e a necessidade de um pensamento mais consistente, Galípolo diz que “não se pode depositar no mercado uma coisa que ele não é – uma instituição financeira é uma instituição que tem uma concessão do governo, para fazer a gestão de um bem público que é a moeda. Como: Podendo gerir recursos de terceiros, ele gere a riqueza do público em geral”.

“E como ele (banco) vai se remunerar? Justamente arbitrando o seu poder de comando sobre essa riqueza, é isso o que ele vai fazer – ele só tem uma única visão, que é gerar valorização de riqueza. Para ele, obviamente, e para quem for cliente dele ali nessa lógica”, diz o professor da PUC-SP. “As narrativas, que muitas vezes se apresentam como narrativas em prol do desenvolvimento do país, estão muito mais associadas a narrativas que viabilizam esse poder de comando dos recursos”, afirma Galípolo.

“A tentativa é apresentar aquela narrativa que lhe interessa como uma narrativa que interessa ao país como um todo, para restringir aquilo que aparece como disponível para o debate democrático”, diz o economista.

“É muito perigoso você deixar a formulação de políticas públicas na racionalidade dos bancos, pois o que você vai acabar gerando é esse desejo pela preferência pela liquidez e criação de mecanismo de valorização da riqueza conservando a preferência pela liquidez”, afirma Galípolo, ressaltando que o que é necessário “são investimentos que vão socializar a renda e permitir com que os bancos cumpram seu papel, que é de financiamento”.

Privatização dos Correios

“O Paulo Guedes está articulando as maiores tacadas da história do País desde as privatizações dos anos 90”, diz Nassif. “Está pondo na xepa as principais estatais brasileiras”.

“Os Correios são fator absoluto de integração nacional”, diz Nassif. “(Os Correios) Entregam os livros didáticos para os locais mais profundos, levam cartas e principalmente agora, que o comércio eletrônico ganhou essa dimensão, ele é a saída para todo pequeno comércio poder competir com os gigantes”, afirma Nassif. “Se você vende os Correios para uma Americanas, para uma Magalu, para uma Amazon, você mata a possibilidade de competição do comércio”, ressalta Nassif.

Para falar sobre “uma das privatizações brasileiras mais absurdas, que são as privatizações dos Correios”, Nassif conversa com Marcos César, atual vice-presidente da ADCAP (Associação dos Profissionais dos Correios).

Segundo Marcos César, existem dois projetos em andamento: “Um projeto que foi feito pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que simplesmente acabava com o monopólio dos Correios. Era simplesmente esse o projeto original do deputado”.

Marcos César explica que o monopólio dos Correios, hoje, é apenas para correspondências. “A gente está falando de carta, telegrama, correspondência grupada (malote), esse tipo de objeto. Na parte de comércio eletrônico, o Correio atua – é importante entender que o Correio é uma infraestrutura que atende todo mundo, e é todo mundo mesmo, tanto para receber os objetos: o Correio vai a todos os municípios do Brasil e entrega. A maioria dos concorrentes não faz isso, eles são empresas privadas que atuam onde dá lucro”.

“O segundo ponto é que o ‘todos’ também é pelo lado do remetente: a gente está falando de uma pequena empresa em uma garagem até a Amazon. Todos usam os Correios – inclusive os concorrentes dos Correios”, diz César, explicando como a concorrência utiliza os serviços dos Correios. “Tem transportadora que tem um pacote de serviços para o seu cliente e, quando a localidade está fora do raio de atuação dos veículos da transportadora, ela usa o Correio”

“São dois projetos (para a privatização dos Correios): esse primeiro, o 7488/2017 e o mais recente, o 591/2021 apresentado pelo próprio governo, com escopo maior (…)”

“O governo diz que ‘o Correio é o berço do Mensalão’,’o Correio teve corrupção'”, diz Cesar. “Quando criaram a CPI dos Correios, descobriram o que de corrupção no Correio? Nada (…) O problema estava fora, na Petrobras, no Banco do Brasil, nos fundos de pensão”

“Em uma grande empresa, você vai estar sempre sujeito a ter um foco de corrupção em alguma situação”, diz o representante dos trabalhadores dos Correios. “O importante é o que acontece quando é detectado esse foco – no caso do Correio, simplesmente demite-se a pessoa, Polícia Federal em cima, averiguação do Ministério Público Federal e pronto, você tem a solução para as coisas. E o Correio, na época, enfrentou dessa maneira”.

“Então, a empresa não tem foco de corrupção como o governo alega, não tem histórico de corrupção. Muito pelo contrário. É uma empresa que tem a credibilidade da população, inclusive, pelo trabalho que realiza – quanto vale, por exemplo, você permitir que 15 mil empresas brasileiras, pequenas e médias empresas, exportem pelos Correios? Quanto que vale isso?”, diz Cesar.

“O Correio tem dado resultados positivos há três anos, até 2019. Isso, contando de 2015 para cá (…) Em 2020, agora, o Correio vai dar R$ 1,5 bilhão de lucro, e não é uma empresa feita para dar lucro. Ela foi feita para prestar um serviço público”, lembra o representante dos profissionais dos Correios. “Quem banca as agências do Correio, quem custeia aquela agência que fica em Serra da Saudade (o menor município brasileiro), quem banca isso é o Correio e não o Tesouro. O Correio não depende do Tesouro”.

“Nos últimos três anos, qual foi o lucro do Correio: R$ 930 milhões, o lucro acumulado em três anos. Em 2020, vai dar R$ 1,5 bilhão. Se pegar 10 anos, quanto o Correio deu de lucro: R$ 470 milhões”, detalha o vice-presidente da ADCAP. “Agora, o que o pessoal faz: eles fazem um corte a partir de 2015, que foi quando o resultado da empresa inflexionou”, diz Cesar. “Aí ele conta de 2015 para cá, e tem um prejuízo acumulado nesse período”

Cesar lembra que, antes de 2016, o governo federal retirou o equivalente a R$ 6 bilhões em dividendos dos Correios, valor muito acima do que o lucro apurado pela empresa. “Enxugou o caixa da empresa. Então, é um jogo de narrativas que fico até envergonhado porque eu, como técnico, não estou acostumado com isso”, diz Marcos Cesar.

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