Pierre Verger, um mensageiro entre dois mundos

Por Tamára Baranov – Rio Claro/SP

Pierre ‘Fatumbi’ Verger (Pierre Edouard Leopold Verger)
(Paris, 04 de novembro de 1902 – Salvador, 11 de fevereiro de 1996)

Pierre Édouard Léopold Verger nasceu em Paris em uma abastada família de origem belga e alemã, teve uma juventude confortável e todos os namorados que quis. Embora os amigos mais íntimos soubessem Pierre só resolveu assumir a sua homossexualidade na velhice. Ele morreu em Salvador aos 93 anos.

Verger sempre teve ideias igualitárias em relação às pessoas, se opondo às preconceituosas da sociedade em que vivia. Aos 30 anos, sem o pai e com a morte da mãe, decidiu que não viveria além dos 40 anos: se o seu fim não fosse natural, deveria ser pelo suicídio. Descobriu então duas paixões: a fotografia e as viagens. Com uma câmera e noções de fotografia aprendidas com o amigo Pierre Boucher, partiu para o Taiti. De 1932 a 1946, foram muitas viagens ao redor do mundo, e para sobreviver negociava as suas fotos com agências de turismo, centros de pesquisa e jornais. Em 1946 desembarcou no Brasil, mais especificamente em Salvador, Bahia, seduzido pelos homens, pela calma, pela hospitalidade e pela cultura do povo que ali encontrou. A sede insaciável de rodar o mundo esvaiu-se e decidiu que seria aqui, no Brasil, a sua nova pátria.

Estudando essa cultura tão sedutora, Pierre descobriu que entre os séculos XVIII e XIX, quase um milhão de ‘iorubás’ tinham sidos presos pelos portugueses e trazidos como escravos ao Brasil. E junto com eles veio a sua religião, o ‘calundu’. Os ‘iorubás’, que viviam na Nigéria, adoravam o deus supremo ‘Olodumare’ e, abaixo dele, os orixás, deuses ligados à natureza tão presentes na água, no fogo, no ar e na terra. Ainda na África, os ‘iorubás’ receberam influência de outro povo, os ‘jejes’, e adotaram o culto dos seus deuses, os voduns, que passaram a ser considerados orixás também. E assim se formou a religião dos ‘iorubás’, que foi trazida nessas condições ao Brasil. Aqui era proibida a sua prática, como qualquer religião além da católica. E assim, os escravos associaram cada divindade de sua religião a algum santo católico, transformando o calundu no candomblé.

Encantado e apaixonado pela história dos afrodescendentes, através de uma bolsa de estudos Pierre Verger foi estudar a cultura ‘iorubá-jeje’ na própria África Ocidental, em 1948. Lá, em 1953, foi iniciado na religião dos povos ‘iorubás’ como babalaô (‘pai do segredo’) e recebeu o nome de Fatumbi (‘nascido de novo graças ao Ifá’), sendo o ‘Ifá’ um oráculo daquela crença. As pesquisas realizadas por ele sobre a história, os costumes e a religião praticada pelos povos ‘iorubás’ e seus descendentes, na África e na Bahia, passaram a ser os temas centrais de sua obra e foram extremamente importantes para a história do Brasil. Além de uma vasta pesquisa fotográfica para o ‘Instituto Francês da África Negra’, começou a escrever suas impressões. Como colaborador de várias universidades, registrou suas pesquisas em artigos, comunicações e livros. Nos anos 1960 seu trabalho foi reconhecido internacionalmente e ele recebeu o título de doutor pela ‘Universidade Sorbonne’.

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Em 1973, a pedido do governo brasileiro, Verger começou a organizar o ‘Museu Afro-Brasileiro da Bahia’, em Salvador, cuja direção foi assumida pela ‘Universidade Federal da Bahia’. E para garantir a sobrevivência do seu acervo, contendo mais de 65 mil negativos de suas fotos, em 1988, Pierre transformou a própria casa num centro cultural, criando a ‘Fundação Pierre Verger’ (FPV), da qual era presidente, mantenedor e doador. A produção fotográfica-etnográfica de Pierre Verger dedicada às culturas africana e afro-brasileira é amplamente conhecida no livro ‘Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo’, de 1981. (Fonte: Fundação Pierre Verger)

‘Verger: Mensageiro entre Dois Mundos’ é um documentário dirigido por Lula Buarque com roteiro de Marcos Bernstein (Central do Brasil), que estiveram pesquisando na África, na França e na Bahia a trajetória de Pierre Verger. A narração é de Gilberto Gil e traz a última entrevista de Pierre Verger filmada um dia antes de seu falecimento, em 11 de fevereiro de 1996 além de depoimentos de amigos. O documentário refaz o caminho percorrido pelo fotógrafo e etnólogo dentro da cultura negra na Bahia e na África e mostra a descoberta de Verger dos descendentes da única colonização feita por brasileiros, os “Agouda”, africanos, habitantes do Benin e da Nigéria, que ainda hoje cultivam influências brasileiras trazidas por ex-escravos que retornaram do Brasil ao continente africano.

http://www.youtube.com/watch?v=9XhxbOOC7Bw

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