A expulsão de Marcos do BBB e as Emillys da vida real, por Matê da Luz

A expulsão de Marcos do BBB e as Emillys da vida real

por Matê da Luz

Não, eu não acompanho o BBB. Não tenho nem TV em casa, para informação daqueles que (quase que certamente) virão aqui comentar sobre a relevância deste post. Mas sim, ele tem importância. 

Os fatos, resumidamente, são estes: um dos participantes do BBB, Marcos, grita, empunha dedo, coloca contra a parede literalmente, culpa a namorada pelo seu desequilíbrio emocional. A namorada, mesmo com cara de assustada, tenta contornar as inúmeras situações. A direção do programa, amparada por uma delegada e, numa semana já de escândalos acerca do machismo, o expulsa do programa. 

A namorada, então, a Emilly no caso, fica surpresa com o contexto, que passara desapercebido por ela como abuso. Duas outras integrantes do programa a consolam e explicam que aquilo é violência sim. 

Aqui do lado de fora, a expulsão é celebrada como, finalmente, uma atitude correta a ser tomada na corrida pela defesa da mulher. Há alguns anos, Dado Dolabella, que agrediu Luana Piovanni e sobre quem a modelo mantém um dossiê e afastamento físico judicial contra, ganhou o realityshow A Fazenda, com um prêmio de 2 milhões de reais, votado pelo público. Então, vamos lá, bem didático: é importante sim este tipo de manifestação da maior emissora de TV do País, uma vez que tanto o público quando a própria envolvida no caso, a Emilly, não conseguem discernir o que pode do que não pode numa briga de casal. 

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“Mas como assim, não sabe discernir?”. Um público que vota num agressor de mulheres não está consciente do entorno machista, simples assim. Bem como a namorada que não enxerga que está sendo agredida, ainda que psicologicamente. Isso acontece porque vivemos inseridos num contexto tão profundamente machista que não temos parâmetros suficientes para sentir ou enxergar determinadas atitudes como fora da curva da normalidade. “Ah, mas bater em mulher sempre foi crime, taí a Lei Maria da Penha” – sim, mas o bater, em si, é, por fim, apenas um dos desfechos para o qual o caminho machista conduz. 

Via de regra, o agressor inicia o processo com agressões psicológicas, esfarelando qualquer faísca de auto-estima que a mulher possua. O afastamento de pessoas queridas também é um quadro bastante comum, bem como a desclassificação sobre a saúde mental da mulher: ela é louca, ela está na TPM, ela está desequilibrada por isso ou aquilo. Então, o ciclo do abuso tem início, podendo ou não culminar na agressão física. Falando assim, pode parecer uma coisa simples de ser observada e gerar questionamentos sobre o porquê a mulher não sai do ciclo. Porque, oras, vivendo submersa no machismo, em algum momento a pessoa começa a acreditar que faz parte daquele cenário e, portanto, que a culpa é dela. Enfraquecida, tenta dominar a situação, se expondo mais e mais e, então, entrando no looping da violência. Para que o agressor exista, tem que existir a vítima. 

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Esta vítima é formada, dedicada a se comportar como mulher desde que nasce. “Vai dar trabalho pro pai”, por exemplo, tem uma conotação tão absurda que me causa arrepios, classificando a menina bonita, vez ou outra ainda bebê, como objeto de satisfação pra outro macho. Dentre tantos outros contextos, as mulheres, especialmente as mais velhas, crescem sob a demanda da satisfação masculina e, dentre tantos outros fatores, como a dependência financeira, emocional, a estruturação da família (ainda cobrada de nós em pleno 2017 como imprescindível), se insere como participante ativa e insconsciente dos que está acontecendo ali. 

Emilly nos representa quando não consegue enxergar as atitudes do namorado como agressivas porque são semi-infinitos os relatos de outras mulheres que já foram prensadas contra a parede e que, assistindo às cenas do BBB, tiveram na expulsão de Marcos sua resignação pública, como se a punição na TV mostrasse ao mundo que aquilo está errado. Mesmo que nossas histórias individuais de abuso não possam ser revistas e ampliadas para o âmbito nacional, encontrar amostras de que as coisas caminham para uma mudança é motivo de celebração. 

O feminismo, como estamos gritando pro mundo ouvir, não deseja que as mulheres sejam iguais aos homens (viu, dona Juliana Paes?), mas batalha também para que exista uma mudança na cultura como um todo, no geral, no íntimo, no ponto a ponto – naquilo que se transforma em referencial para que a gente saiba reconhecer o abuso, a agressão, a intimação, a minimização, ainda no início do ciclo – e para que tenhamos ferramentes disponíveis, também referencialmente, para nos livrarmos deste papel o quanto antes. 

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As atitudes da emissora nesta semana vem mostrando ao mundo, literalmente, que o machismo começa a desmoronar, ainda que em passos lentos, dando espaço para a condenação do que é, naturalmente, errado. 

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6 comentários

  1. Faltou …

    Matê,

    Faltou dizer algo muito importante: a emissora fez o possível para manter o Marcos dentro da casa até a final que acontece nesta semana. A pressão nas redes sociais – que colocou o assunto da agressão nos trending tops ( não só no Brasil, mas no exterior) – e a denúncia em massa feita à Delegacia da Mulher foram as responsáveis pela expulsão. Só ontem, com a polícia na casa “mais vigiada do Brasil” é que a emissora decidiu elimar o participante.

  2. Espetacularização do conflito ou a banalização do mal…

    Vamos colocar as coisas em seus lugares…

    Toda essa celeuma, que eu também não assisti, mas não escapei a repercussão, são montagens, são encenações…o que não as tornam menos graves…

    No entanto, a causa principal ou seja, a verdadeira culpa nisso tudo não é um “ultra testostranstornado” assediando violentamente uma patricete mega anaboliazada e descebrada…

    Sim, quem participa de um troço desse não merece sequer respeito por condição de gênero, etnia ou qualquer outra condição desfavorável…

    É como se jogasse na arena dos leões e depois pedisse que fossem vegetarianos…

    Voltando ao principal: a culpa é da emissora que encena o que chama de “realidade” (todos sabem que tudo ali é roteirizado e ensaiado), buscando salvar a naufragante audiência com uma jogada de marquetíngue, baseada em um ambiente externo propício a esse debate, seja pelo assédio do imbecil josé mayer, seja pelas declarações do símio deputado, seja por todas as imprecações e violências simbólicas difundidas todos os dias pela mídia e redes sociais…

    Mesmo que fossem reações sem intervenção de um diretor e de um roterista (como de fato são) aquela “realidade” já seria irreal pelas circunstância que cercam o objetivo daquele confinamento e o perfil de quem está ali…

     

    Me perdoe o bom parlamentar Jean Willys, mas nem ele escapa a essa condição sub-humana a qual estão expostos (voluntariamente) os imbecis que se apresentam ali, e por ter se utilizado de tal plataforma para catapultar a si mesmo e suas “causas”…

    E deu certo…tanto para ele, como agora deu certo para a emissora…

  3. Sinto arrepios quando,

    Sinto arrepios quando, involuntariamente, dirijo meu   à uma emissora que esteja passando reallity show, seja ele qual for. 

    Já não é a primeira vez que ocorre fatos estranhos nessas casas fantásticas. Por não assisistir, só me recordo de alguma coisa que li. 

    Mas, a Globo, que há pouco defenestrou José Mayer, e agora faz o mesmo com a gressor de uma moçoila do BB, está se sentindo é forçada a tomar essas atiitudes que antes seria inimaginável. O lado bom disso é que em se tratando de uma gigante das comunicações, o exemplo há de se espalhar a outras emissoras. 

    A Globo é dissimulada, como alguém sem caráter, que usa e abusa da fé dos telespectadores para se fazer mais grandiosa. Tivesse o cuidado com sua programação, já a partir de suas novelas, teria assessores competentes para ditar o que não se pode fazer para o bem da sociedade. Faz tempo que as novelas globais tem enredos com essas apelações machistas horrorosas. Sempre os homens fazendo delas umas moedas de troca, um objeto descartável. 

    Vi nas redes sociais o vídeo em que o camarada do BBB encosta a moça na parede, e cheio de grosseria, engrossando a voz, parece mesmo que vai às vias de fato contra a moça. 

    Eu já ando é de saco cheio de ler notícias de mulheres sendo atacadas pelos seus companheiros, estupradas, assassinadas e até esquartejados os seus corpos, como bois no matadouro. Isso tem sido uma constante em todo o País. E esses bandidos, como Bruno, encontram advogados, também machistas, por certo, que usam as brechas da lei para livrá-los da cadeia, e ainda saírem dela como campeões de futebol, ou de qualquer coisa. 

    A grita das mulheres no caso envolvendo José Mayer foi de bom tamanho. Podemos dizer que valeu. Porém, que esse grito não deixem de ecoar a cada vez que outro machão resolva protagonizar um escândalo. Isso dependerá sempre das mulheres acuadas, Elas terão a oportunidade de acreditar na sua força.

    Se dependesse de mim, daria um conselho a todas as mulheres: que cada uma que se sentir intimidade por um machão, antes de seguir para uma delegacia, contate com outras mulheres para que ela não chegue só para assinar o BO, que outras mulheres a sigam e façam um carnaval na frente da delegacia, com imagens a serem divulgadas em toda a rede. 

  4. ”Isso acontece porque

    ”Isso acontece porque vivemos inseridos num contexto tão profundamente machista que não temos parâmetros suficientes para sentir ou enxergar determinadas atitudes como fora da curva da normalidade.”

    Bem, se o contexto machista não dá margem para dialeticamente obtermos soluções empíricas para o problema, então joguemos (se já não o fizemos) Descartes no lixo e celebremos a pós-modernidade ao som de Karol Conka sob o patrocínio da Avon®

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