A lição de como estimular o ódio por Luchino Visconti

Enviado por Alfeu

na Carta Maior

A lição de como estimular o ódio por Luchino Visconti

Por Léa Maria Aarão Reis

‘Os Deuses Malditos’, obra-prima do diretor italiano que foi um marxista assumido, pode ser revisitado no feriado de Semana Santa para reativar a memória histórica sobre o início da força estratégica dos nazistas com a aliança com os grandes empresários da alta burguesia

O filme é uma obra prima e não apenas do cinema italiano. Foi produzido numa era de esplendor artístico e político da Itália, em um pós guerra que se prolongava em vigor e festa. Desde a velha Bolonha rossa dos telhados vermelhos com tijolos aparentes – e do governo do Partido Italiano Comunista -, aos anos dourados de Cinecittá, em Roma, com seus filmes extraordinários para o deleite dos cinéfilos dos quatro cantos do mundo. O país era uma grande celebração da produção artística da época.
Foi nessa atmosfera radiante que o nobre e rico milanês Luchino Visconti di Modroni, Conde de Lonate Pozzolo, viveu e trabalhou, consolidando a legenda de um dos mais importantes diretores do cinema, autor de filmes e também de óperas e produções de teatro até a sua morte, em 1976, aos 70 anos de idade. 

Em 1969, ele filmou La Caduta degli Dei ou Gotterdammerung – títulos europeus –, ou The Damned, título para o mercado americano. Os Deuses Malditos* foi produzido entre O Leopardo e Morte em Veneza e faz parte da sua trilogia alemã com Morte em Veneza e Ludwig.É um suntuoso réquiem anunciando o fim de uma certa Europa. Uma epopeia na qual se canta a decadência de uma classe social sem que o vazio do seu lugar seja ocupado por outra, produtiva, livre e dona de si mesma.

Visconti se encontrava no ápice do prestígio e força criadora quando filmou esse grande afresco onde retrata, em tons wagnerianos, a aliança que se iniciava entre a alta burguesia germânica da época e a política nazista de Hitler; e a convivência, no começo, e a conivência, logo em seguida, do alto empresariado, no caso os industriais do aço, com a violência dos SS que faziam o suporte político para o fuhrer através da brutalidade e truculência física. 

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O filme capta quando o ovo da serpente do nazismo se parte e começa a dar os primeiros frutos perversos. No plano histórico, a ascensão do nazismo; no desenho particular do roteiro, a decadência moral da família von Essenbach – o símbolo que remete à família Krupp. 

Interligando um esboço ao outro, os roteiristas Nicola Badalucco e Enrico Medioli, em companhia de Visconti, criaram o personagem do oficial da SS Aschenbach, símbolo da nova Alemanha que nasce a partir do incêndio do Reichstag.  É Aschenbach quem anuncia o fim da República de Weimar dizendo, à mesa de jantar familial: ’’Antes que as chamas do Reichstag estejam extintas, os homens da velha Alemanha estarão, nesta noite, reduzidos a cinzas “.

O filme começa aí, com a primeira de uma trilogia de sequências longas e majestosas ao longo da narrativa, durante o suntuoso jantar da família de industriais presidido pelo idoso patriarca Joachim Essenbach, o símbolo da velha Alemanha. Logo ele sucumbirá. 

Todos os personagens/símbolos estão presentes e são apresentados ao espectador de modo quase didático. O tom é operístico; trata-se de um filme/ópera antinazista no qual o cineasta utiliza memoráveis movimentos com lentes zoom que começava a experimentar então, e travellings memoráveis construindo os painéis desejados. A colaboração excepcional vem da música de Maurice Jarre, da fotografia da dupla Pasqualino Di Santis e Armando Nanuzzi e dos figurinos do mestre Piero Tosi.

Essa história da queda dos deuses – os ultra ricos ‘’impunes’’ ou os que se encontram acima do bem e do mal, como o diretor se referiu aos seus personagens – se baseia nas lembranças que Visconti guardara da temporada que passara na Alemanha, durante os anos 30. 

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Os Deuses Malditos é uma aula magna da manipulação e de como, através dela, se estimula o ódio para canalizá-lo para a vida política de um país – e é este o motivo de sugerirmos sua visão neste momento sombrio do Brasil que se encontra sob semelhante ameaça do que ocorreu, no começo, na Alemanha nazi-fascista. 

Dentro desse contexto, a fita se desenvolve, retratando, em dois planos, as situações que se interligam: a decadência da família Essenbach (metáfora da família Krupp) e a ascensão do nazismo. A fita é centrada, objetivamente, na tragédia familiar enquanto o nazismo é o elemento simbólico e opressivo – encarnado na pessoa de Aschenbach. 

Um dos momentos em que o enredo foge do plano pessoal para o histórico relembra a chamada Noite dos longos punhais quando Roehm, o rival que se insinuava a Hitler e as milícias dos SA são massacrados. Trata-se da segunda longa sequência, impressionante, do filme. A terceira, a final, é a do casamento de Sofia Essenbach (Ingrid Thulin) com o plebeu Friedrich Bruckman (Dirk Bogarde) quando Martin Essenbach (Helmut Berger) assume o poder; ele é o outro símbolo da Alemanha nazista que se consuma e vai se consomir na força do fogo.  

Visconti é claro: a responsabilidade da chegada do nazismo ao poder, sobretudo, é daqueles que o apoiaram financeiramente. “Somos uma elite à qual tudo é permitido’’, diz um Essenbach. 

Alguma semelhança com o que ocorre no Brasil?

Outra crítica do filme e que nos diz respeito, aqui, hoje, e de perto: a noção ingênua de comunistas e liberais da época de que o nazismo seria uma farsa e não se sustentaria no poder por muito tempo.

Mas há as falas de Aschenbach: “A aparência de legalidade sempre pode ser útil. E quando os protestos vierem será tarde; eles não servirão para nada. ’’ Outro alerta para o Brasil de hoje onde se semeia o ódio e se colhe assassinatos?

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‘’Você possui uma coisa extraordinária. E este ódio novo que traz dentro de si, ’’ diz o SS ao jovem Martin Essenbach. ‘’É um potencial de energia e fúria importante demais para ser desperdiçado em vinganças particulares. ’’ 

A execução, no centro de grande cidade brasileira, da vereadora Marielle Franco; o massacre recente de jovens, na cidade de Maricá; os atentados à caravana do ex-presidente Lula, no Sul, o sem-número de assassinatos de moradores de favelas e periferias dos principais centros, todos os eventos mostram como esse ‘’potencial’’, aqui, já é uma realidade. Nas milícias que atuam cada vez mais ousadas e em grupos organizados. 

Além, é claro, da fraude de uma série produzida pelo Netflix, que provocou, no primeiro dia de grande campanha de boicote nacional a essa produção, uma queda de 6% das ações da empresa. Mais uma ação de ‘’envenenamento psíquico através da doença do ressentimento, ’’ como escreveu Nietsche.

Por outro lado, no entanto, Visconti também deixa aberta uma porta de saída para este momento atual opressivo. Em entrevistas que concedeu ao longo de sua vida de marxista sempre assumido ele fala da sua convicção. 

“Entre todas as interpretações do fascismo, a mais justa é aquela que considera o nazismo como o último resultado da luta de classes nas suas últimas conseqüências. (…) uma monstruosidade que, naturalmente, não pode deixar de antecipar uma evolução no sentido do socialismo”.

https://www.youtube.com/watch?v=XtMocFKzwxY&t=1056s align:center

 

 

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3 comentários

  1. bom post.

    Gosto muito do cinema feito na Italia e França nesse periodo do pós guerra ate meados dos 70.

    Que filmes eles fizeram!!!!

    Uma verdadeira celebração!

  2. Na minho modesta opinião, o

    Na minho modesta opinião, o país que produziu filmes em quantidade e qualidade, depois dos EUA, foi a Itália. E olha só o que as mãos limpas italianas fizeram em quase 30 anos = o cinema italiano é uma sombra do que foi e até o futebol, um dos símbolos nacionais mais fortes deles, está fora de uma copa do mundo. Estou na casa dos 40 e portanto pra minha geração o futebol italiano é responsável pela maior tristeze (82) e alegria (94, depois de 24 anos sem título ) Hoje a Itália não passa de um coadjuvante na Europa, servindo de barreira contra a invasão dos refugiados via áfrica. 

     

     

  3. A lição de como estimular o ódio por Luchino Visconti

    Maravilha de crítica, esta de Léa Maria Aarão Reis. Constroi todas as pontes para o entendimento do filme sem impôr aos leitores sua visão. Uma viagem no tempo e na linguagem cinematográfica, seguindo a rota traçada por Visconti, homenageia-o com a perenidade de seu discurso. Encontram-se nesta leitura quatro momentos de uma era (a do Imperialismo):

    1. Final dos anos 60 (o filme é de 1969), com o mundo sacudido por movimentos de libertação dos povos (a própria Bolonha, poderosa cidade industrial, é cenário de greves e protestos) é o tempo para cujos espectadores é dirigida preliminarmente a película;

    2. Começo dos anos 30, época da falência da República de Weimar e do acumpliciamento da plutocracia e da nobreza com o nazismo ascendente. É bom lembrar que a social-democracia, aliada a essas mesmas forças que financiaram o fascismo, já se encarregara de executar o massacre dos mais combativos quadros do operariado e da pequena burguesia revolucionária, fossem espartaquistas, comunistas, anarquistas ou socialistas (recomendo a leitura do ensaio-romance em que Peter Weiss dedica um longo trecho às lutas obreiras de 1919/1920, Estética da Resistência – não conheço edição brasileira, mas sei de uma portuguesa, uma espanhola muito boa, uma sueca excelente, uma alemã mà-o-meno da qual Weiss não gostava e algumas em lingua inglesa).

    3. Esta contemporaneidade, sobretudo ao longo da segunda década do século21, em que a fênix do fascismo, sempre sob a proteção de seus financiadores, abre suas asas, renascida das cinzas que nunca se apagaram recrudesce seus ataques contra os movimentos populares, organizações comunitárias, sindicatos, indivíduos livres e combativos.

    A excelente crítica de Léa Maria aguça minhas percepção e reflexão sobre como seguimos, a grosso modo, insistindo nos erros do passado e reiterando a estratégica de tentar mudar o mundo a partir das copas das árvores, sem nunca alcançar as raízes.

    O Cinema está sempre nos mostrando o mundo, instigando-nos a interpretá-lo e dele tirar lições que só têm valor se vividas e experimentadas na realidade. Visconti não fez muitos filmes voltados para a classe operária. Este, como demonstra Léa, não tem essa pretensão, mas tem, como O Leopardo, a de mexer com a inteligentzia formadora de opinião, em todos o níveis da sociedade.

    Parabéns, Léa, deste teu humilde admirador.

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