Chacina em São Gonçalo tem ‘lição de gestão do Capitão Nascimento’, por Hugo Souza

“Homens de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que assusta o satanás/Homens de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão”.

do Come Ananás

Chacina em São Gonçalo tem ‘lição de gestão do Capitão Nascimento’

por Hugo Souza

Em mais uma Operação Vingança sob o signo daquela faca cravada no parietal, o Bope-RJ promoveu neste domingo, 21, uma chacina na favela do Salgueiro, em São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro. Pelo menos 10 pessoas foram mortas.

Nesta segunda-feira, 22, moradores do Salgueiro retiraram os corpos de dentro de um manguezal. Acharam um eletricista conhecido na área executado junto com seu ajudante, seu filho de criação. Mães entraram na água, com a água acima dos joelhos, para desvencilhar da lama e das samambaias-do-brejo os cadáveres dos seus herdeiros de nada. Os corpos, jogados uns por cima de outros, tinham sinais de tortura. Há relatos de pelo menos uma garganta cortada.

“Homens de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que assusta o satanás/Homens de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão”.

Cantavam assim os aspirantes do Curso de Operações Especiais do Bope no filme “Tropa de Elite”, sob o comando do Capitão Nascimento, que na cabeça do diretor José Padilha nunca foi, ou pelo menos não era para ser visto como herói, por mais que tivesse enquadramento de herói, sonoplastia de herói, a narração feita pelo herói, o herói instruindo a tropa sobre o que fazer com os corpos deixados no chão: “desce só o dono porque meu filho vai nascer”.

Os versinhos que embalaram os cinemas do Rio e do Brasil há quase 15 anos hoje aparecem em listas de “frases marcantes e inesquecíveis” do filme de José Padilha. No caso daquela singela cantiga de fazer ninar, refrão de passar cerol, jingle de cancelar CPFs, é possível encontrá-la até em lições de “gestão do Capitão Nascimento” publicadas num site de empreendedorismo.

Ou não é disso mesmo que se trata o trabalho da PM em geral – de gestão, se é que vocês me entendem, das “comunidades”? Um ex-capitão do Bope que foi consultor dos filmes “Tropa de Elite” tem pós-graduação em “gestão de recursos humanos” e dá “dicas de liderança” no UOL. Um ex-subcomandante do Bope que inspirou um dos personagens de “Tropa de Elite” já foi estrela da Semana Global do Empreendedorismo.

Mas a gestão de recursos humanos de que tanto falam os ex-Bope é, também ela, naturalmente, para recursos humanos “direitos”. Ao resto, mangue, sangue, bangue-bangue.

Ou como disse o porta-voz da PM do Rio ao comentar a chacina no Salgueiro, caprichando no léxico da consciência gerencial. O indefectível major Ivan Blaz disse que tinha notícias de “uma ordem de grandeza bem alta de números de feridos”.

Hugo Souza é jornalista

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