Contos que nos contam de Nova York e a narrativa silenciada, por Alfeu

Abriu-se, então, uma nova discussão onde se tentava explicar quais outras causas poderiam ser determinantes na queda do crime

Foto: Reprodução The New Yorker Videos
Contos que nos contam de Nova York e a narrativa silenciada
Por Alfeu

Conquistar territórios e suas riquezas, só era possível mesmo através de guerras e conflitos, portanto os europeus ao desembarcarem nas Américas  não precisaram lançar mão desses expedientes. Isso facilitou bastante a apropriação das riquezas   além de transportá-las de forma mais rápida possível numa quantidade impressionante. No afã de obter o máximo de riquezas, não se respeitavam; invadiam as colonias dos outros, assaltavam galeões cheios de ouro alheios, mas em comum, onde a agricultura era possível, a utilização do trabalho escravo.

Com a Coroa Britânica acontecia o mesmo em suas 13 colônias americanas, que correspondem atualmente o leste dos EUA; o sul seguia praticamente esse padrão de colonização, por outro lado o norte principalmente por causa do clima e do terreno que impedia uma agricultura nos modelos do sul, desenvolveu-se ali uma agricultura de pequenos produtores constituídos, por exemplo, de grupos de familiares, de religiosos e etc, frequentemente perseguidos pela própria Coroa, que ali não os incomodava, ali o interesse econômico era nulo.

Dessa forma o norte acaba gerando, cada vez mais, uma grande diversidade de produtos e que irá resultar num forte mercado, e que acaba sendo ideal para receber a Revolução Industrial onde mais tarde ali irá se instalar. Nessa região que se desenvolve e prospera continuamente, é onde iremos encontrar a cidade de Nova York,  mais tarde a maior cidade do mundo.

Já no final do século 19, as indústrias estão bem desenvolvidas mas as condições dos operários que ali trabalhavam eram muito precárias, insalubres e com alto risco para as suas vidas. Acidentes com mutilações e as mortes são frequentes, os salários baixos; e para combater esse quadro os operários se movimentam para se organizarem no chão de fabrica,resultando em amplas greves e manifestações que pipocam em vários lugares do país. Milhares de trabalhadores vão as ruas, mas como o poder do Estado tem lado, as manifestações foram violentamente reprimidas com muitas prisões e mortes.

Para superar essa crise, os banqueiros de Nova York decidem fazer juntamente com o poder público uma profunda mudança no perfil econômico e urbano da cidade. Miram no que representava a força de NY; indústria, comércio e pesca de pequenas e medias empresas e outros negócios de tamanho semelhante e que no seu lugar seriam construídos edifícios principalmente para abrigar escritórios dos bancos e corporações ¹.

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Apesar desse projeto sofrer uma desaceleração causado pela Grande Depressão e mais tarde pela 2ª Guerra Mundial, foi erguido o Empire State Building, tornando um ícone desse movimento da elite economica local. Ele retornaria com toda a força na decada de 50.com a verticalização da cidade.

Na noite de 13/03/19, foi encontrado morto em NY Francesco “Frank” Cali ², “capo” de um outro grupo de famílias novaiorquinas, a mafiosa Gambino. É nessa mesma década de 50, quando a nova expansão urbanística de Nova York é retomada quando muitos setores produtivos foram alijados desse processo de transformação da cidade acabou gerando um grande desemprego. É nesse cenário que Carlo Gambino se torna um “capo” e prospera atuando em muitas frentes; jogos, prostituição, agiotagem, extorsão e etc até os conhecidos pela economia formal; vestuário, transporte, construção civil e também no ramo imobiliário. Operava também no mercado de trabalho chegando a ter sindicatos em sua mãos. A violência aumenta, e ao mesmo tempo, Gambino atua em sintonia com as diretrizes dos novos caminhos que a cidade de Nova York estava seguindo naquela época.

Décadas depois a mafia sofre um revés da Justiça local e da força policial, levando a prisão de muitos de seus membros, quando a organização termina enfraquecida. Rudolph Giuliani é o promotor desses processos no combate contra a máfia e que acaba se destacando por essa atuação, levando a se tornar candidato a prefeitura de Nova York e tempos depois é eleito.

Nessa Nova York, que já não é mais a mesma, Giuliani lança o seu grande programa “Tolerância Zero”, que se espalha pelo mundo afora como uma grife, que na verdade é a intolerância em grau máximo.

Terminado os seus 2 mandatos, Giuliani se torna empresário como consultor de segurança. Seus trabalhos foram conhecidos recentemente aqui no Brasil, numa consultoria prestada ao Estado do Amazonas ³, cujo os resultados alcançados não acrescentaria nada ao que já havia sido feito ou o que já era de conhecimento dos membros da segurança pública do estado, mesmo com as suas limitações materiais e com metodos ultrapassados de combate ao crime, igualmente encontrados nos outros estados.

A queda dos índices da criminalidade em Nova York no início dos anos 90 surpreendeu os estudiosos que não viam qualquer solução no horizonte; por outro lado Giuliani e seus seguidores atribuíram a politica do “Tolerância Zero” como fator principal dessa diminuição dos índices. Muitos questionaram tal afirmação mostrando que em outras localidades nos EUA,  também registraram quedas na criminalidade, independendo das ações políticas implantadas em cada uma dessas cidades.

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Abriu-se, então, uma nova discussão onde se tentava explicar quais outras causas poderiam ser determinantes na queda do crime. As linhas que norteavam o entendimento desses fatores, iam no sentido da melhoria da economia, do aumento do contingente policial, da implantação equipamentos de segurança, encarceramento  e etc.; que aliás ainda hoje⁴ são o ponto de partida das discussões e das ações no combate ao crime. Os economistas John J. Donohue III e Steven D. Levitt ⁵ também se dedicaram ao assunto e, analisando as causas prováveis da redução da criminalidade viram que havia um fator determinante para que isso ocorresse.

Analisando também outros estudos, os autores verificaram o peso que cada um daqueles fatores acima teriam realmente na diminuição da criminalidade. A conclusão é que eles tiveram baixo ou médio impacto no resultado, não explicavam essa grande queda dos índices.

Mas, então, qual seria o fator preponderante na queda dos índices de criminalidade? A conclusão que chegaram é que o maior responsável havia sido o aborto, desde a sua liberação, que se inicia a partir do caso Roe x Wade em 1973. Ao bater na porta dos anos 90, quase vinte anos de liberação do aborto, o que se viu foi a queda dos índices de criminalidade. Alguns estados, entre os quais Nova York, já haviam liberado o aborto antes da sentença final do caso Roe x Wade, e alcançaram resultados positivos anteriormente que os outros estados; portanto na cidade de Nova York a queda dos crimes violentos ocorreu em 90 e 91;  antes mesmo de Giuliani ir para a prefeitura.

John J. Donohue III e Steven D. Levitt consideram que a liberalização do aborto atingiu principalmente as mulheres trabalhadoras pobres, possibilitando que elas tivessem  um serviço mais seguro disponível, ao contrário do alto risco à sua saúde e à sua vida quando o aborto era clandestino; além de poder planejar a sua vida presente e futura, livrando-se da tutela do Estado sobre o seu corpo.

Recentemente, quando o Brasil estava mais uma vez no caminho do crescimento econômico e social, havia uma discussão de que apesar do ambiente favorável que o país experimentava dos muitos programas e das políticas implementadas, a violência mostrava um crescimento contínuo. Como aqui no Brasil os nossos sábios e progressistas são muito ansiosos, já condenavam as politicas da época do Lula (6) durante a sua implementação e que continuaram mais tarde com as que deram certo, fica difícil especular a relação dessas medidas e os efeitos sobre a violência e que certamente não é com tiros que se enfrenta. Mais difícil é introduzir o aborto como, inclusive, ser um fator na diminuição da violência, até porque como vimos anteriormente, nos EUA esses resultados levaram de 18 a 20 anos.

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A violência não parou de crescer, e aos poucos foi entrando e participando do aparelho estatal, estabelecendo uma interface do crime com o Estado. Agora, quando a criminalidade está no comando do país e de unidades da federação, as mulheres trabalhadoras tem sofrido um forte revés; além de perderem o que a legislação lhes garantia, elas tem sido vitimas de diversas formas de violência ⁷ e que muitas vezes são fatais.

Steven D. Levitt foi um dos autores do best-seller “Freakonomics” onde ele dedica um capítulo usando essa sua pesquisa como fonte. Em um dos últimos parágrafos ele escreve:

“O que o vínculo aborto-criminalidade nos diz é: quando o governo oferece a oportunidade de escolha quanto ao aborto, a mulher em geral pondera corretamente se está ou não em condições de criar bem um bebê. Se conclui que não está, geralmente opta pelo aborto”.

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(1) Nova York: expulsão dos operários e especulação imobiliária – Portal Vermelho

(2) Líder mafioso da família Gambino `Frank` Cali morto a tiro em Nova Iorque – RTP Notícias

(3) RUDOLPH GIULIANI – O advogado de Trump virou garoto-propaganda na eleição do Amazonas. Por ‘simbólicos’ R$ 5 milhões – The Intercept_Brasil

(4) 4 explicações para a impressionante queda da violência em Nova York – BBC Brasil

(5) The Impact of Legalized Abortion on Crime – Quartely Journal of Economics

(6) Mulheres são proprietárias de 86% dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida – Diário do Litoral

(7) Feminicídio, alarmante pandemia no Brasil – Diário Liberdade

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