E.E.F. Brotero: a tragédia por um triz, por César Locatelli

A Corregedoria já afastou o policial que colocou a espingarda contra o peito da aluna. O relato de uma aluna aponta que a razão principal do protesto foi a falta de diálogo e a falta de respostas do diretor para reivindicações dos alunos

E.E.F. Brotero: a tragédia por um triz

Por César Locatelli

As imagens estão por toda a internet: o pátio interno da Escola Estadual Frederico Brotero, em Guarulhos é palco de uma manifestação com algumas centenas de alunos. Quatro policiais, um deles com uma espingarda em posição de atirar, protegem um senhor de camisa azul. Uma adolescente tenta falar com o senhor de azul e é afastada pelo policial com a espingarda, que coloca a espingarda contra o peito da menina e a empurra. Um professor intervém e se coloca entre os policiais e a adolescente e, em seguida, faz sinais para que os alunos se afastem.

O relato de uma aluna, publicado no Facebook, aponta que a razão principal do protesto foi a falta de diálogo e a falta de respostas do diretor para reivindicações dos alunos. Segue a nota sem qualquer edição:

“Gostaria de informar o *CORRETO* motivo para o protesto dos alunos, que não tem nada haver com maconha ou uso de drogas, invertendo a situação, porque a situação é manifestar os nossos direitos contra o diretor que está acabando com a nossa escola, que temos mais aulas vagas do que aula, que não temos tolerância, se chegarmos 19:01 na escola, não podemos entrar, tem muita gente que vem do trabalho, pegamos o ônibus, tem trânsito tem acidentes, diversos fatores, eai chegamos na escola não podemos entrar, e perdemos um dia de aula, ainda fecha o portão antes das 19:00 e somos obrigados a ser enquadrados, que é uma humilhação, ainda mais em ambiente escolar!***”

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A publicação alcançou 593 comentários e 601 compartilhamentos, às 15h de sexta-feira (5/4). Os comentários, em sua maioria, qualificavam a atuação policial como inaceitável e criticavam o diretor da escola por se recusar a dialogar sobre os problemas levantados pelos alunos. Houve, é claro, alguns comentários que aplaudiam os policiais.

 

Diálogo 1

Um comentário: “Esses anjinhos, não respeitam os próprios pais, vão respeitar as autoridades…  Esses adolescente se acham donos da razão, são criados sem limites, depois qdo a merda acontece, daí é só chorar o leite derramado…”

E na sequência: “eu só gostaria de entender como uma arma no peito de uma jovem vai colaborar pra resolver problemas pedagógicos…o diretor é um braço de quem tá lá em cima, só pra avisar”

 

Diálogo 2

Em outro diálogo uma defesa e uma crítica às ações dos policiais

Um comentário: “Manifestar direitos pode ir pra cima dos policiais não”

E a resposta: “e apontar arma de fogo pra quem não oferece risco também não pode!”

 

Quatro comentários isolados

O ambiente política de profunda divisão no Brasil também surgiu:

1 “Quando elegeram um fascista perderam o direito de protestar. Agora é assim, escreveu não leu, o pau comeu.”

2 “Revolta mais lamentação. Lugar de policial é fazendo proteção da sociedade, não enfiando arma em peito de aluno e professor.”

3 “Conflitos se acaba com intervenção da diretoria e não policial..resolver as questões dos alunos e a família e a escola. Os policiais estão fazendo o que mandam simplismente para agravar mais a situação.”

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4 “A força policial é desproporcional, ele não sofreu nenhuma agressão, a menina não poderia colocar em risco a segurança dele, ele agiu de forma a ter o abuso de autoridade, a menina é uma menor de idade, e ele um homem feito, nada justifica a agressão.”

 

Dois comentários de incentivo

Vários comentários incentivavam os alunos a lutar por seus direitos:

1 “Na minha época era a melhor escola, tinha uma direção super competente, que vergonha velho, não acredito que a escola chegou a esse nível, caiu tanto.. Eu espero realmente que tudo se resolva! LUTEM PELOS DIREITOS DE VOCÊS”

2 “Toda a minha solidariedade a vcs estudantes, escola não é lugar de repressão policial!”

 

Diálogo 3

E mais um diálogo politizado:

O comentário – “O policial apontou a arma porque a garota foi folgada. Fazer protesto não é descatar um policial. Parabéns para a policia.”

E a resposta- “Tá explicado em quem votou”

 

Ação do Condepe, da Ouvidoria e da Corregedoria

Na sequência dos acontecimentos, o conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), Ariel de Castro Alves, encaminhou ao Ouvidor de Polícia, Benedito Mariano, que já informou que as imagens estão sendo analisadas pela Corregedoria Geral da PM. Conforme a Ouvidoria de Polícia, o PM que colocou o cano da arma no peito de uma aluna já foi afastado de suas funções pela corregedoria e o Comando da PM.

“Os policiais militares podem responder pelo crime de abuso de autoridade, previsto na lei 4898 de 1965. Os PMs também podem ser punidos pelo crime de submeter crianças e adolescentes a constrangimento, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Reivindicações dos estudantes e questões educacionais não podem ser tratadas como caso de polícia”, defende Ariel de Castro Alves.

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A Secretaria de Educação emitiu uma burocrática nota afirmando que vai apurar.

 

Diálogo 4

Para encerrar, mais uma troca de mensagens a três, da mesma publicação no Facebook:

Primeiro comentário – “Pelo vídeo o policial estava tentando afastar ela e ela indo pra cima…Só vejo adolescentes querendo ser adultos.”

Segundo comentário: “[Fulano], não começa, na boa! Já deu sua cota na terra.”

Terceiro comentário: “Adolescentes com mais consciência de classe do que você, com certeza, [fulano]. Eles estão reivindicando direitos deles, é mais que certo nessa idade eles já terem a consciência que eles podem parar a máquina pública, porque a escola não é do Estado, a escola é dos alunos, e todo ato autoritário deve ser extinto.”

Quarto comentário (da mesma pessoa do segundo) – “[Sicrano], meu amor, não adianta, [Fulanos] é bolsominion, vivia comentando nas minhas publicações, até eu excluir ele.. vocês vão ficar a noite toda aqui discutindo e ele vai insistir que tem razão, e em tudo ele vai comentar, ele não cansa, nem vale a pena também”.

 

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3 comentários

  1. A Escola deve ser lugar privilegiado do diálogo. Os que assim não procederem, nesse ambiente, estão no lugar errado.

  2. Por sinal conheço o Brotero. Apesar de qualquer coisa que tenha ocorrido dentro da Escola com Alunos ( que não tenha sido o uso de arma de fogo) é INADMISSÍVEL e IMPERDOÁVEL que Policiais armados tenham entrado na Escola com o objetivo de reprimir ou repreender qualquer situação que estivesse ocorrendo. Onde Nós chegamos? Policias armados para conter Crianças e Jovens Estudantes?!!! Precisava a destituição do Prefeito, Secretário de Educação, Secretário da Segurança, da Educação Estadual, Comandante da Polícia e Governador. Ficamos Loucos? Policiais Armados contra Estudantes? É o fundo da latrina.

  3. Parabéns ao aluno da Escola Estadual Prof. Frederico de Barros Brotero de Guarulhos pela coragem de enfrentar o arbítrio do DIRETOR. Vergonhosa a atitude da PM do João Doria devemos construir a unidade [email protected] trabalhadoras e [email protected] estudantes por uma educação pública, plural, gratuita e de qualidade! Embora não sou tão otimista a ponto de achar que vai haver uma revolta estudantil na periferia. Assim como não haverá um espírito revolucionário da juventude contra Doria, Bolsonaro ou Ricardo Vélez Rodríguez.

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