Prisão de executores de Marielle revela teia de relações criminosas no Rio

Na primeira denúncia anônima que apontou o PM reformado Ronnie Lessa como o executor, há a informação de que o sargento reformado teria recebido R$ 200 mil para matar a vereadora. Resta saber de quem

As investigações apontam um forte indício de que a morte de Marielle tenha sido encomendada

da Rede Brasil Atual

Prisão de executores de Marielle revela teia de relações criminosas no Rio

por Maurício Thuswohl, especial para a RBA

Rio de Janeiro – A prisão dos executores do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro MarielleFranco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, efetuada na terça-feira (12), trouxe à luz do dia uma complexa teia de relações criminosas na qual se entrelaçam diversos casos que marcaram a segurança pública do Rio de Janeiro nas últimas décadas. Apontados, respectivamente, como o homem que disparou contra as vítimas e como o motorista do carro utilizado no crime, o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-policial Élcio Vieira de Queiroz têm um histórico no qual se misturam referências a assassinatos de autoridades, chacinas e relações com a contravenção e as milícias.

Com ficha limpa, inúmeras gratificações salariais por “atos de bravura” e até mesmo uma moção de louvor recebida em 1998 na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) por sua “eficiência e brilhantismo em serviço”, Ronnie Lessa deixou a PM em 2009 após perder a perna esquerda em um atentado a bomba jamais esclarecido. Apesar de ficha limpa, o sargento reformado é citado no inquérito policial que levou a sua prisão como “matador de aluguel” e “atirador reconhecido por sua precisão e frieza”.

Nos últimos anos, segundo as investigações, Lessa teria se tornado um membro destacado do chamado Escritório do Crimegrupo de ex-policiais e matadores de aluguel que presta “serviços” às milícias que hoje controlam parte da cidade do Rio de Janeiro. O inquérito aponta que Lessa atuava de forma próxima ao ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, fundador e chefe do Escritório do Crime e considerado foragido desde o início do ano. Nóbrega, por sua vez, sempre teve excelente trânsito entre alguns setores da política e chegou a conseguir emprego para a mãe e a mulher no gabinete do então deputado estadual – e hoje senador – Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

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Também apontado como integrante, embora menos “graduado”, do Escritório do Crime, Élcio Vieira de Queiroz é outro que mostra a ligação do grupo com a política, pois é filiado ao DEM e teria cogitado até mesmo uma candidatura a vereador nas últimas eleições. Antes de ser expulso da Polícia Militar em 2011 em consequência de suas ligações com o jogo do bicho e a máfia dos caça-níqueis, o motorista do carro que conduziu Lessa ao fatal encontro com Marielle e Anderson atuou como adido (funcionário cedido) da PM junto à Polícia Civil, período em que se aproximou dos caciques da contravenção.

Cavalos Corredores

Mas a teia de relações criminosas não para por aí. Egresso do Exército, Ronnie Lessa chegou à PM do Rio em 1992 para trabalhar no batalhão de Rocha Miranda (9º BPM) e, segundo as investigações, com algumas semanas de serviço já era reconhecido nos relatórios de seus superiores como “homem valoroso em ações no terreno” e “policial positivamente operacional”. Antes dos 25 anos já havia recebido diversas vezes gratificações salariais por “atos de bravura”, batizadas pela população na época de “gratificação faroeste”, com as quais o governo de Leonel Brizola (PDT) agraciava policiais que faziam confrontos diretos com traficantes.

Muito elogiado, Lessa fez o curso de Operações Especiais da PM, mas, ainda assim, preferiu continuar no batalhão de Rocha Miranda do que ir para o Bope. Detalhe: seu comandante direto no 9º BPM era o então capitão Cláudio Luiz Silva de Oliveira, condenado a 36 anos de prisão por ser o mentor do assassinato da juíza federal Patrícia Aciolli, que julgava ações contra policiais, em 2011.

Embora ainda soldado, Lessa teve ascensão meteórica no “ranking interno” dos companheiros de farda e logo passou a fazer parte do grupo, paralelo à PM, conhecido como Cavalos Corredores, especializado em execuções e atentados. Os Cavalos Corredores são tristemente conhecidos mundialmente como executores em 1993 da Chacina de Vigário Geral, quando 21 moradores da comunidade foram brutal e aleatoriamente assassinados em represália a traficantes que, na véspera, haviam matado quatro policiais. Não há registro, no entanto, de que Lessa tenha participado da chacina.

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Em 2000, Lessa, segundo as investigações, passou a trabalhar paralelamente na segurança do contraventor Rogério Andrade, sobrinho do lendário bicheiro Castor de Andrade, falecido em 1997. Na época, coincidente com a multiplicação das máquinas caça-níqueis em todo o Rio de Janeiro, Rogério travava uma sangrenta guerra com Fernando Ignácio (genro de Castor) pelo espólio e território deixados pelo tio.

Nove anos depois, já considerado um dos auxiliares mais próximos a Rogério, Lessa foi vítima de um atentado a bomba no qual perdeu uma das pernas. O mesmo tipo de explosivo seria utilizado no atentado que em abril de 2010 mandou o carro de Rogério pelos ares, mas acabou matando por engano seu filho Diogo, de apenas 17 anos. Lessa, segundo o inquérito, teria sido dispensado pelo sobrinho de Castor logo depois. Alguns anos mais tarde, já reformado pela PM, o ex-sargento se aproximaria de Adriano Magalhães da Nóbrega e do Escritório do Crime.

Quem mandou matar?

As relações de Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz com bandidos, milicianos e políticos reforçam a pergunta que faz toda a sociedade brasileira: quem mandou matar Marielle Franco? Após a estranha declaração do então delegado responsável pelas investigações na Delegacia de Homicídios, Giniton Lages, de que até então tudo indica que o crime teria sido decidido pelos próprios executores, espera-se que estes possam dar mais informações.

Mas, se isso acontecer, não será nos próximos dias. Nesta sexta-feira (15), quando, acompanhados de seus advogados, foram levados para depor na DH, tanto Lessa quanto Queiroz optaram por se manter em silêncio e só prestar declarações em juízo. Eles, no entanto, não apresentaram álibis para o dia do crime e permanecem presos em Bangu 1, aguardando transferência para um presídio federal.

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Apesar do silêncio, as investigações apontam um forte indício de que a morte de Marielle tenha sido encomendada. Em outubro do ano passado, alguns meses após o crime, Lessa, que tem salário de cerca de R$ 7 mil, fez um depósito de R$ 100 mil em espécie na própria conta, em imagem flagrada pelas câmeras da agência bancária. O depósito foi classificado como suspeito pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e o dinheiro posteriormente investido na compra de uma lancha. Na primeira denúncia anônima que apontou Lessa como o executor de Marielle, feita à DH no mesmo mês de outubro, consta a informação de que o sargento reformado teria recebido R$ 200 mil para matar a vereadora. Resta saber de quem.

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7 comentários

  1. A reportagem tem um erro básico , que apesar de boa parte do texto parecer está certo, mostra total desconhecimento das políticas de Segurança Pública do Estado. A gratificação faroeste foi uma política pública do governo Marcelo Alencar. Foi ela que aumentou muito o número de homicídios no Estado , que nunca voltaram aos patamares anteriores. Já Brizola proibiu policiais do Estado subirem nas favelas, por isso a PM até soltou fogos quando ele morreu. Falar o contrário e um desrespeito a um político como o Brizola!

  2. Nassif: espero que esse pessoal supere a hipocresia. A prisão de supostos executores da parlamentar é pra calar os protestos e entusiasmar os KibeCoxinhas e Varandas Gourmets. Esse ministro da Justiça foi posto exatamente para dissimular a investigação, que sabem os VerdeSauvas vai respigara no cerne do núcleo governamental.

  3. “governo de Leonel Brizola (PDT)” Nassif só uma correção no texto, o criador desta anomalia foi o Governador Marcelo Alencar (PSDB) e não Brizola.

  4. O Policial que poderia ganhar de salários, no máximo, uns 6 mil reais por mês, mora ao lado do Presidente da República num Condomínio de Alto Luxo. Fora da Instituição, com centenas de fuzis em sua propriedade, ninguém sabia o que fazia para sobreviver. Fuzis que dizem vir do Paraguai, quando na realidade passam facilmente pelo Aeroporto do Galeão/RJ, em dia e horário que os ‘scanners’ da Polícia Federal não estão funcionando. Poderoso este ‘Crime Organizado Favelado’?!! Deve ser ‘favelado’ já que é de onde a Polícia nunca sai, enquanto mata moradores, crianças e outros cidadãos muito perigosos. Como estamos vendo é onde se esconde o tal Crime Organizado. Precisaram de 1 ano para descobrir toda esta vida criminosa deste ex-Policial? Imagina para descobrir quem mandou matar Marielle? Mas o Brasil é óbvio. De muito fácil explicação. Tudo já está esclarecido. Ou precisa ser desenhado? Quem tem tanto poder para impedir e negar o uso de seguranças armados para proteger a Juíza Patricia Aciolly, assassinada por Forças do Estado? A suposição é que sejam as forças que controlam este Estado. Mas é só suposição.

  5. Sabem quem é Pedro Mara?
    Pedro Mara é Professor e Diretor de um Ciep em Belford Roxo, situada na região metropolitana da capital fluminense. Em 2017, Pedro Mara foi perseguido por Flávio Bolsonaro, então Deputado Estadual do Rio de Janeiro, por supostamente o mencionado professor fazer apologia ao uso da maconha. Nessa época, o Ronnie Lessa fez pesquisas na internet sobre o Professor Pedro Mara.

  6. Da CNN/Chile

    Todas las pistas llevan a Bolsonaro: Justicia brasileña aún no aclara quién mandó a matar a Marielle Franco

    Este 14 de marzo se cumplió un año exacto desde el asesinato de la concejala de Rio de Janeiro, y dos días antes la policía brasileña logró capturar a los autores materiales del crimen: se trata de dos ex policías que forman parte de una milicia de la misma ciudad. Aún no existen pruebas que esclarezca quien ordenó su muerte, pero una serie de pistas apuntan al mandatario brasileño.

    Durante todo este jueves, distintas plazas y calles de Río de Janeiro (Brasil) fueron el punto de encuentro de numerosos grupos de personas, quienes llegaron con pancartas, flores y carteles con homenajes que exigían justicia para Marielle Franco, la concejala de esa ciudad que hace un año fue asesinada a balazos junto a su chofer, Anderson Gomes.

    Feminista, lesbiana, negra e hija de la favela, como ella misma se describía, Franco tenía 38 años, fue electa en su cargo en 2016 con la quinta mayoría, y su homicidio se remonta al 14 de marzo de 2018, cuando un hombre armado disparó varias veces al auto en el que viajaba luego de salir de un evento de trabajo.

    Dos días antes del primer aniversario, el martes 12 de marzo, la policía brasileña capturó a dos policías militares quienes serían los presuntos asesinos: Ronnie Lessa, de 48 años, quien disparó 13 veces contra el vehículo, y Élcio Vieira de Queiroz, de 46, quien conducía el auto en que estaba su compañero.

    Ambos formaban parte de la Oficina del Crimen, un grupo de sicarios vinculado a una milicia del barrio Rio das Pedras, de la zona oeste de Rio de Janeiro, y de acuerdo a los fiscales investigadores, el ataque fue planificado en detalle durante tres meses y fue motivado por la actuación política de la concejal, quien era conocida por enfrentar y denunciar la actuación de dichos grupos paramilitares en las favelas.

    La policía aseguró que la autoría material del crimen está esclarecida, pero en contraste no existen pruebas que guíen hacia quién la mando a matar. Sin embargo, existen una serie de pistas que apuntan hacia una figura altamente conocida: el presidente brasileño Jair Bolsonaro.

    1. El asesino vivía en el mismo condominio que Bolsonaro
    Ronnie Lessa, el ex policía que habría realizado los disparos, vivía en el condominio Vivendas da Barra, en el barrio Barra da Tijuca. Curiosamente Jair Bolsonaro también tiene casa en este condominio, y en él vive su hijo Carlos Bolsonaro, el chófer y testaferro de Flávio Bolsonaro, Fabrício de Queiroz, y otros asesores del primogénito del presidente.

    En ese mismo barrio se montó el QG de la campaña presidencial de Bolsonaro.

    2. La hija del asesino fue novia de un hijo de Bolsonaro
    Otro antecedente que surgió asociado a lo anterior es que el hijo de Bolsonaro, Jair Renán, de 20 años, fue novio de la hija de Lessa, el asesino. Consultados sobre el tema, los fiscales descartaron que dicha información tuviera importancia.

    3. El que conducía el auto una tenía foto con Bolsonaro
    Una foto divulgada por los medios brasileños muestra al presidente Jair Bolsonaro abrazado al ex policía Élcio Queiroz, chofer del auto del que salieron los disparos que mataron a Marielle y Anderson.

    Ambos sonríen en la imagen, que originalmente había sido publicada por Queiroz en su cuenta de Facebook. Consultado sobre el tema, Bolsonaro explicó que se sacaba fotos con muchos policías y, en la misma rueda de prensa, aseguró que ni siquiera conocía a Marielle antes de su asesinato, pese a que su hijo Carlos también fue electo concejal de Rio.

    4. El jefe de la milicia trabajaba para el hijo de Bolsonaro
    Hace pocas semanas se conoció que la madre y la esposa de un sospechoso de integrar la Oficina del Crimen trabajaban en el gabinete de Flávio Bolsonaro, el hijo más grande del presidente y quien ahora ejerce como senador por Rio de Janeiro. Ambas trabajaban para el parlamentario desde su época como senador.

    Se trata de Adriano Magalhães da Nóbrega, quien era capitán de la policía militar y actualmente se encuentra prófugo desde febrero pasado.

    5. El problema de las milicias
    Las milicias son mafias formadas por policías civiles, militares y bomberos tanto retirados como en actividad, quienes controlan parte de los territorios de la zona oeste de Rio de Janeiro.

    En sus orígenes fueron catalogados por la prensa y algunos políticos como “grupos de autodefensa”, debido a que expulsaban o mataban a los traficantes y les quitaban el control territorial de las favelas. Sin embargo, actualmente los barrios controlados por estos grupos funcionan prácticamente como un estado paralelo, donde manejan áreas como transporte, venta de gas, conexiones de luz ilegales, internet y mercado inmobiliario.

    Tanto el presidente como sus hijos han sido durante años defensores de las milicias.
    (https://www.cnnchile.com/mundo/marielle-franco-jair-bolsonaro-mando-matar_20190315/)

  7. Ronnie Lessa fez pesquisa na internet sobre Gregório Duvivier, que postou foto com plantação cannabis e disse: “Não pago por maconha faz tempo”, ou só fez pesquisas na internet sobre um maconheiro específico, no caso, Pedro Mara?

    https://www.google.com/search?q=greg%C3%B3rio+duvivier+maconha&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwipqvKJ_IvhAhV1I7kGHYntDE8Q_AUIDigB&biw=1384&bih=768#imgrc=Eupf7lvj-d7uOM:

    https://www.google.com/search?q=greg%C3%B3rio+duvivier+maconha&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwipqvKJ_IvhAhV1I7kGHYntDE8Q_AUIDigB&biw=1384&bih=768#imgrc=d5IiOc1oeLThdM:

    Ou fumar e argumentar a favor da liberação da maconha é condição necessária mas não suficiente para ter a vida pesquisada na internet pelo Ronnie Lessa?
    Teria que se indispor com o Flávio Bolsonaro?

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