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Exploração do trabalhador ainda é grande nos canaviais, diz estudo da USP

A tecnologia e a mecanização no cultivo da cana aumentaram a produção, mas não beneficiaram os trabalhadores. Muitos ainda morrem e adoecem devido às más condições de trabalho


 

São Paulo – A adoção da tecnologia na produção canavieira – a mecanização da colheita da cana chega a 90% em algumas usinas – contrasta as relações de trabalho arcaicas e precárias. Esta é a opinião da professora Vera Navarro, do Departamento de Psicologia e Educação, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto.

Foram analisados critérios de contratação e as condições de trabalho nas plantações de cana-de-açúcar na região de Ribeirão Preto (SP). Vera é orientadora de uma pesquisa sobre o perfil dos cortadores de cana para a dissertação de mestrado do cientista social André Galiano. O estudo teve ainda a participação do estudante de psicologia Leandro Amorim Rosa, do programa de iniciação científica. 

 

Segundo a professora, o cortador faz o trabalho manual em áreas de mais difícil acesso, onde a máquina não entra. Entre elas, estão locais de declive e trechos mais íngremes de morros. Em muitos casos, o trabalhador é enviado a locais onde são feitas queimadas. “Embora faltem estatísticas, sabemos que muitos trabalhadores morrem e outros tantos sobrevivem com queimaduras graves. Isso revela que o trabalho no corte da cana continua bastante desumano”, afirma.

Para ela, a conjuntura atual é muito diferente da década de 1980, quando os sindicatos eram mais atuantes e os movimentos sociais eram mais enfáticos na cobrança de medidas. “A mudança na forma de se produzir, de plantar e colher a cana intensificou e  aumentou o trabalho, o que leva a esse tipo de exploração e desgaste do trabalhador”, diz.

A solução, no entender de Vera Navarro, passa pela questão da reforma agrária e pela manutenção desse pessoal no campo, no seu local de origem. Como saída em curto prazo, ela destaca a melhoria e o cumprimento da legislação de proteção ao trabalhador, por meio de ações fiscalizadoras constantes e efetivas, inclusive dos sindicatos.

Dados colhidos entre 2004 e 2008 pela Pastoral do Migrante de Guariba indicam 21 mortes de cortadores de cana nas usinas da região, grande parte atribuída a paradas cardiorrespiratórias. Segundo a Pastoral, esses migrantes representam 80% da força de trabalho no corte da cana. São cerca de 70 mil pessoas só na região de Ribeirão Preto. As mortes por exaustão desses trabalhadores, devido às condições insalubres nos canaviais, foram objeto de denúncia da Pastoral de Guariba junto ao Ministério Público Federal no começo da década.

Depois disso, uma série de acordos entre entidades sindicais e a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), federação que reúne produtores do setor sucroalcooleiro, melhoraram as condições. Com restrições a queimadas no estado de São Paulo, os problemas respiratórios também diminuíram. Em 2009, um compromisso nacional foi estabelecido com adesão voluntária, estabelecendo padrões mínimos para as condições de trabalho.

Para a pesquisa, foram entrevistadas 13 trabalhadores rurais, um representante da Pastoral do Migrante, o presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Guariba e dois psicólogos do setor de recursos humanos de uma usina pertencente ao mesmo grupo da que emprega os trabalhadores entrevistados.

Nas entrevistas com o pessoal de RH, Amorim Rosa identificou que a moradia, antes responsabilidade da usina contratante, passou a ser um diferencial para a vaga. Ou seja, trabalhadores com casa passaram a ter preferência na contratação. “Para evitar problemas com os órgãos de fiscalização, a usina e o ‘turmeiro’, aquele que faz as contratações e é uma espécie de fiscal, deixaram de oferecer moradia e passaram a responsabilidade para o próprio trabalhador”, explica.

Para Amorim Rosa, esse é um fator agravante na relação de trabalho, pois, além de se preocupar com as despesas com o transporte que o trouxe até a região e com a alimentação, o trabalhador também tem que arcar com o aluguel e a manutenção da própria saúde.

“Manter o trabalho precarizado parece que ainda é mais lucrativo. O salário por produção, por exemplo, também passa a responsabilidade do ganho para os trabalhadores. Nesse cenário, a força política desses trabalhadores desaparece, sem contar que eles, ainda, têm que ter dinheiro para mandar para a família e para se sustentar na entressafra”, lembra.

Galiano, que entrevistou jovens entre 16 e 24 anos, conta que quando eles retornam para suas cidades, ganham status diferenciado por terem enfrentado e vencido desafios, além de terem conseguido dinheiro para enviar para a família e terem comprado bens materiais.

 

 

Com informações da Agência USP

 

 

 

 

Redação

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