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Sem porre sentimental: 2021 será pior que 2020, por Alexandre Filordi

Sem porre sentimental: 2021 será pior que 2020

por Alexandre Filordi

Poderíamos deixar o pessimismo para dias melhores. Mas a julgar pelo princípio básico das causas e dos efeitos dos acontecimentos seria operar no negacionismo da sucessão dos próprios fatos.

Apesar dessa coisa tão prometeica chamada réveillon que, ao pé da letra, seria galicismo mal-ajeitado para “despertemo-nos”, “reanimemo-nos”, “revivemo-nos”, em nosso caso, temos tudo para nos despertar de um sonho ruim e acordamos num pesadelo em 2021. O Brasil de 2020 soube projetar condições perfeitas para se desencarrilar dos trilhos da sensatez. Ao que tudo indica, noves fora o porre sentimental dessa época do ano, 2021 será pior que 2020.

Na economia encontramos o sismógrafo ativo assinalando terremoto à frente, e de grandes magnitudes. O ano de 2021 colherá a semeadura das catástrofes sociais lançadas em 2020, com descaso e requintes de sadismo político. Ao índice de desemprego já recorde e em franco crescimento; ao desequilíbrio fiscal abandonado ao tatear cego, sem fundamentos e objetivos econômicos determinados, casado com a maior depreciação do Real; à subida da inflação dita e não-dita, ou seja, aquela que se evidencia na subtração de pesos e medidas dos produtos; ao isolamento diplomático do país no planeta; à queda brasileira no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é preciso acrescentar a desnutrição da política pública voltada para a retomada produtiva e sustentável de nossas condições econômicas, além da ausência completa de perspectiva de mitigação dos danos sociais daí decorrentes. Um colosso, diria o saudoso Paulo Henrique Amorim.

Em 2020 vimos parques industriais minguarem por completo e uma alienação corrente com as implicações disso para os ativos do país. Em 2021 corremos o risco de vermos atitudes afobadas, provavelmente à guisa de privatizações e de pacotes econômicos mandrakes, que, ao estilo Odorico Paraguaçu, funcionarão como verborragia, ignorando o efeito bola de neve concreto na massa social, quer dizer, massacrando ainda mais os já massacrados que se encontram na base da pirâmide social.

Nesse sentido, a pandemia não pode ser desculpa. A combalida Argentina já possui vacina contra a Sars-Cov-2 e está em vias de imunizar todos os seus cidadãos; soube-se planejar. O mesmo pode ser dito de outros países latino-americanos, dando prova da preocupação que tais Estados possuíam com o impacto da pandemia em sua economia e em seus nexos sociais. Logo, tais países tinham pressa em mitigar ao menos um dos vetores que complicaram a economia global em 2020.

O Brasil, entretanto, não se organizou, não criou logística, não se antepôs às necessidades reais e contou com o bumbo da corte anunciando que tudo não se passava de gripezinha passageira. Ademais, a partir do momento que um presidente vocifera que “não dá bola pra isso” e que são os “laboratórios farmacêuticos que deveriam estar interessados em vender vacina no Brasil”, é mister supor que a nossa voz ainda não encontrou eco no fundo do poço.

Somemos tudo isso à ascensão dos latrocínios; à explosão de pessoas em situação de rua e daquelas que, na miséria, não têm mais o que comer – o Brasil voltou ao mapa da fome em 2020; às vidas perdidas de modo bárbaro, sobretudo às de crianças negras e pobres; à montanha russa da precarização social; aos atos de violências cotidianas contra a população LGBTTQIA+; ao aumento no número de suicídios e enfermidades mentais – temas quase tabu e ignorado pela sociedade; às chicanas para a claque embevecida com ódio e ignorância, enfim, dessa soma, que porvir podemos anunciar para 2021?

Mas não é tudo. Se as queimadas no Pantanal e na Amazônia foram recordes em 2020, já decorrentes da falta de política de prevenção e de combate à exploração desenfreada do agronegócio, imagine em 2021.  Pensemos também nos cortes aplicados nos investimentos de pesquisa e de ensino para a educação superior, aliás, o que se esperar de um país cuja intenção se move para suprimir impostos para armas de fogo e triplicá-los para livros?  O que se esperar de um país quando seus legisladores querem “furar” uma possível fila de vacinação, colocando-se acima do povo a quem deveriam defender e para quem teriam de legislar? O que dizer de políticos que aumentam o seu próprio salário em 46%, dias após serem eleitos? Que desenho esboçar para o futuro quando jornalistas passam a ser perseguidos e execrados por mostrar que as moedas dos fatos possuem outro lado? Que vida expectar quando recursos para doenças crônicas, doenças mentais e portadores de H.I.V. são retirados da rede de amparo social do Sistema Único de Saúde?

A fieira da boa esperança para 2021 exige de nós uma ousadia muito grande. Tal ousadia certamente está do lado das lutas políticas capazes de funcionar como freio aos descalabros que não deixam de se anunciar. 2021 ainda contará com o desespero dos políticos de aldeola com vistas à reeleição de 2022. Toda atenção é pouca aqui, pois 2021 será ano de mais conluios, de alinhavos escusos, de farisaicas sutilizes de toma-lá-dá-cá, de ações abancadas pela autoproteção, de ambição de subsídios aos interesses pessoais, de leis promulgadas à chatinagem e à veniagra.

Em uma crônica de 21 de junho de 1911, denominada O Convento, Lima Barreto dizia que não gostava do passado. Mas alertava o leitor para a necessidade de não deixar o passado esquecido, pois nele se encontrava “o veneno em formas de preconceitos, de regras, de prejulgamentos nos nossos sentimentos”, e arrematava: “é, portanto, o passado, daqui, dali, dacolá que governa”.

Seguramente, 2020 fornece algumas condições acerca do que nos governará em 2021. Não esquecer disso é fundamental para agirmos fora das ressacas sentimentais que, como fruto de todo porre, dá uma dor de cabeça danada.

Alexandre Filordi (DED/UFLA)     

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