Economista x gestor, o desastre anunciado de Paulo Guedes, por Luis Nassif

O Brasil sempre cultivou uma cultura livresca – com exceção dos tempos escabrosos atuais. Bastava o sujeito ostentar diploma em universidade reputada, para ser pau para toda obra, até para funções que nada tinham a ver com sua especialidade.

Foi o que aconteceu com os economistas pós-ditadura.

Aprendi a apreciar os programas de gestão e qualidade vendo a completa disfuncionalidade de economistas no exercício do poder. Começou com o Plano Cruzado. Os economistas que assumiram a Fazenda – respeitáveis como intelectuais – tinham ojeriza aos funcionários de carreira, que acusavam de terem sido “cúmplices” da ditadura.

Sem eles, a máquina da Fazenda emperrou. Nada andava, porque os economistas não tinham a menor ideia sobre processos básicos de gestão, quanto mais sobre os procedimentos burocráticos da administração pública. A sorte é que mantiveram na Fazenda um funcionário exemplar, João Batista de Abreu, que garantiu um mínimo de funcionamento para a pasta.

Mesmo grandes gestores privados naufragam quando se trata da administração pública. Foi o caso de Alcides Tápias, alto executivo do Bradesco. No banco, uma ordem de cima chegava na base rapidamente. Na administração pública o jogo é outro. E são muitas as razões.

Algumas, na própria máquina, que é um cipoal burocrática, com pouca clareza sobre os processos. A falta de um carimbo para tudo. E quem tem o carimbo são os burocratas. Quem chega de fora não tem a menor ideia sobre os processos de decisão e procedimentos burocráticos internos.

Outro problema são as implicações políticas. Gestor público precisa ter absoluto conhecimento sobre os sistemas de decisão, o jogo de interesses políticos, os reflexos na opinião pública, no Congresso.

Pérsio Arida, o grande formulador dos conceitos básicos do Plano Real, foi presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e do Banco Central. Não conseguia sequer dar conta da agenda diária, por absoluta inadequação com funções burocráticas.

Por tudo isso, o superministério nas mãos de Paulo Guedes tem tudo para dar errado. Guedes é um formulador, assim como Arida. Mas sem a humildade, a paciência e a clareza de ideias de Arida.

É ruim como gestor até no setor privado. Dia desses, o Valor Econômico trouxe uma bela reportagem com ex-sócios de Guedes, falando sobre o seu comportamento profissional. Elogiavam sua visão de cenário, sua inteligência. Não embarcou no Cruzado, acreditou no Real, previu a explosão do câmbio em 1999. Mas todos – repito, todos! – mencionaram sua incapacidade absoluta como gestor e sua dificuldade de relacionamento e de tomar decisões. Como todo não-gestor, tem uma insegurança atávica em tomar decisões – inversamente proporcional à sua capacidade de dar declarações estapafúrdias. A maior qualidade que Bolsonaro viu nele – a rude franqueza – é a pior característica de um gestor.

Como gestor público, nem se fale! Não tem o menor conhecimento sobre o funcionamento da máquina, conforme se conferiu em sua atitude de confrontar o Congresso, sem se dar conta de que o orçamento de 2019 é votado agora. E menos ainda sobre as implicações políticas de cada medida.

Mesmo assim, chegou esfomeado, contando com a desinformação de Bolsonaro para ocupar todos os terrenos, julgando que o superpoder de um Ministro depende da quantidade de ministérios que comanda.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, um dos economistas do Real, descrevia bem esses movimentos dos neófitos em administração pública. Assumem julgando que seus antecessores falhavam por falta de vontade política. Saem fazendo bobagem por todos os lados. Quando ganham sabedoria, não há mais tempo de empregar os ensinamentos: estão demitidos.

Delfim Neto controlava a Fazenda, o Banco Central, os bancos públicos, pelas ideias claras e por uma inédita capacidade de formulação e de gestão. Não precisava de um superministério debaixo dele. O guru de Guedes – o grande Roberto Campos – aprendeu as artimanhas da burocracia no Itamaraty e tinha ao seu lado um grande gestor, Octávio Gouvêa de Bulhões. E um país muito mais simples.

De outro lado, João Santana, conhecido como João-Bafo-de-Onça, ocupou um superministério do governo Collor sem ter a menor noção sobre como administrar um café.

Guedes quer trazer para si até o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) que, em qualquer país moderno, é subordinado ao Ministério da Justiça, não à Fazenda. Sua função é garantir os direitos dos consumidores preservando as condições de competitividade na economia, não ser instrumento de poder do Ministro da Fazenda. Nos anos 90, a escola de Chicago comprometeu esses princípios, defendendo a ideia de que quanto maior a empresa, maior o ganho de escala e maior os benefícios para a inovação os consumidores. Os gigantes da Internet mataram a concorrência e a capacidade de inovação da rede. Mas Guedes quer repetir a fórmula em um país que sequer tem um Google para se preocupar.

Luis Nassif

Luis Nassif

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    A perspectiva é aterrorizante em todos os campos. No campo social então, nem se fale. O deputado “garoto”Bolsonaro , filho do Bolsonaro pai, disse que não haveria problema em prender cem mil sem-terra.

    Eu presumo que esse número de cem mil ele deve ter extraído de algum levantamento da população sem-terra. Presumo também que nesse número se inclui as crianças.

    Então o “garoto” do Bolsonaro pretende encarcerar as crianças aonde?

    Já mandaram construir os campos de concentração?

     

  • Hoje, terça-feira, Programa

    Hoje, terça-feira, Programa ENTRE ASPAS, da competente jornalista Monica Waldvogel, com Luis Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e Samuel Pessoa, fisico-economista da moda.  Os dois lembravam aquele programa do imortal Chico Anysio, onde dois malucos dialogavam, não dá para saber qual é o mais maluco. Figueiredo estava otimista com o novo governo porque?  Ah, porque esse governo "tem que entregar". Achou otimo juntar tres ministerios sob Paulo Guedes, porque ai não ve ter o risco de ter um monetarista na Fazenda e um nacional desenvolvimentista no Planejamento.

    Já o Pessoa saiu com uma perola, "hoje está tudo muito melhor porque a economia evoluiu, só tem uma teoria economica", o

    Pessoa precisa avisar o Paul Krugman, Premio Nobel de Economia, que tem ideias economicas muito diferente das de Pessoa e jamais diria que só existe uma teoria economica, afinal Krugman é um dos patronos do Instituto para o Novo Pensamento Economico de Nova York, onde ideias tipo das de Pessoa foram jogadas no lixo há muito tempo.

    Duas antas monetaristas, fanaticos do ajuste antes de qualquer coisa, os dois se auto congratularam com a maravilha do Brasil

    ter um Banco Central eficiente e uma inflação baixa.

    E a questão da recessão e do desemprego? NEM TOCARAM NO ASSUNTO, afinal que importancia tem isso não é mesmo?

    • A sorte de boa parte dessa

      A sorte de boa parte dessa elite miserável nossa é que não há uma figura à esquerda incendiária, que colocasse o povo de verdade na rua não clamando pela democracia contra o fascismo ( povo não tem ideia do que é fascismo e pra ele democracia é ter dinheiro pra comprar comida pra família ) mas contra aumento de 16 por cento pros nababos do sTF. Me pergunto por que nessa hora o Boulos, nosso Lula da Vida Madalena, não vai pra rua contra esse aumento pornográfico. 

      Quanto ao desemprego, esse vai ser resolvido não pela economia, mas pela polícia na hora de conter as manifestações quando a bomba do PG explodir de vez a economia. 

      • É sobrevivência

        A ausência de protestos de rua tem mais a ver com sobrevivência que com sorte. Não precisa raciocínio profundo para entender que agora Inês é morta, os generais de exército estão de volta ao poder, tendo apenas usado um ex-subalterno como caminho para fazê-lo sem arcar com o ônus de uma nova derrubada da democracia pela força, mas fazendo-o pelo uso da Inteligência Militar, que certamente foi quem urdiu uma campanha distante de amadorismos. Também não custa lembrar que não são quaisquer oficiais generais, mas as mais perfeitas traduções da chamada "linha-dura", desde o antagonismo ao nacionalismo Geiseliano até o massacre de haitianos pela Minustah. Gente que não hesita em usar, e bem, as armas de que dispõem; como disse o vice, em um ato falho, os "profissionais da violência". Resistência com demonstrações de força contra quem é efetivamente mais forte mostraria que se sabe morrer pelo País, mas não lutar por ele. Não creio que ninguém faça tal opção voluntariamente.

    • Recessão, desemprego 

      Recessão, desemprego  ..ineficiência, obsolescência, dependência, concorrência, pobreza, concentração de riqueza, deformação de mercados, abuso econômica, gargalos econômicos, potenciais de mercados regionais, vantagens x carências x diferencial competitivo (vantagens comparativas), geopolítica...etc

      Tantos temas - que CIÊNCIA BONITA !!! - e os caras apertando o botão do JUROS ou  ..ou, ou reverberando, como diz PHA, que a reforma da previdência cura tudo, até dor de corno

      Não faz dois anos e encontrei PROFESSOR de ensino técnico duvidando da existência da pré sal (qdo ela já batia 50% da produção nacional)  ..com esse nível de "mestres", imagine o que o futuro reserva  ..GAME OVER, bendita revolução digital rsrsrs

  • Guedes
    O economista Guedes é exatamente assim que demonstra. Péssimo Gestor, sem humildade, grosso,mal educado e não gosta de entrevista. Ele tem que entender que agora é Ministro do Presidente eleito pelo povo e ao povo ele deve satisfação. Isso, com certeza vai acabar em atrito como já está acontecendo. Se o Presidente não rever urgente, corre riscos sérios
    Péssimo mesmo. Entendido de economia, mas nada de gestão.

  • Super ministério

    Paulo Guedes não tem a menor noção do que faz ao juntar MDIC com a Fazenda. Não tem noção de serviço público. MDIC cuida de interesses privados, o MF cuida de interesses públicos. A primeira coisa que ele vai conhecer será o poder dos sindicatos das categorias que ele "acha" que vai juntar sob o mesmo teto. Depois vai vê-los disputar espaço e equiparações salariais, pois obviamente se todos são funcionários do mesmo (super) ministério e desempenham a mesma função merecem o mesmo salário. 

    E a jurisprudência está do lado dos servidores: não se esqueçam que a justiça transformou fiscais da Sunab em (pasmem) fiscais da Receita Federal. Acreditem se quiser. E estamos falando apenas de simples questões administrativas. O preço que o país vai pagar pela aventura será alto. 

    • vdd  ..mesmo pq a PROPINA que

      vdd  ..mesmo pq a PROPINA que essa corja de fiscais cobra é diferenciada

      aliás, pra que serve a SUNAB hoje ? Lembro dela catando "toco" na época dos planos econômicos

      HJ, imaginava, quem fazia a coleta em outro nível era a turma do CADE, né não ?!

  • Tirar Bolsonaro da sua zona de conforto

    Bolsonaro fica confortável cada vez que é atacado e se defende apenas pelas redes sociais. Em compensação, ele não resistirá 5 minutos de conversa civilizada com quem pensa diferente e, ainda, não resiste à exposição perante a mídia convencional, no formato clássico. Assim sendo, a oposição errará mais uma vez se seguir a estratégia do ataque e desqualificação, antes de sequer Bolsonaro assumir. A oposição deve procurar oportunidades de “diálogo” com Bolsonaro, inclusive apresentando agendas positivas para o país. Isso não apenas seria bom para o Brasil, mas também, tiraria o Bolsonaro da sua zona de conforto e o levaria ao diálogo “normal” e à exposição ao ridículo perante seu fanático e inconsciente eleitorado. 

    • então  ..dialogar  ..mas o

      então  ..dialogar  ..mas o cara não sai do banheiro ?!  ..fora que ninguém sabe o que ele quer, então como apresentar uma OUTRA agenda positiva ?

      agora, que é cedo pra ficar criticando a tudo e todos, tb acho

      ESTES proto fascistas NÂO chegaram aonde chegaram por serem imbecis ..eles sabem muito bem o que querem as massas (prova maior ? 2013)  ..vão aprontar, com certeza, mas saberão dosar com muitos torrões de açucar tb

      e na duvida  ..até já se protegeram com diversos generais de EXERCITO

      • Bolsonaro não passa de um

        Bolsonaro não passa de um macaco, e ele juntou uma equipe de macacos para o "governo" dele (o tal Frota parece literalmente um gorila). Um bando de macacos que segue ordens de fora e com uma oposição covarde demais para tomar qualquer atitude decisiva contra, é como o Brasil chegou nessa situação.

        Não se iluda com qualquer demonstração de inteligência de Bolsonaro e seus símios, eles apenas seguem ordens e são apenas uma "fachada" para os verdadeiros mandantes, as macaquices deles na mídia servem para desviar a atenção da população enquanto os verdadeiros negócios são efetuados e o país é desmanchado.

        Até o final de 2019 vocês estarão na mesma situação de países como a Libéria, Serra Leoa e outros países africanos: A população na mais absoluta miséria e violência enquanto o petróleo do país abastece os futuros conflitos de Trump contra a China.

    • A Profª Marilena Chaui disse

      A Profª Marilena Chaui disse exatamente isso em um vídeo que está rolando aí no youtube sobre "resistência ..." : Agora é hora de agirmos como toupeiras, retraídas no subsolo, escavando, pensando. Não é hora para ficar atacando antes dessa gente assumir. É bom ficar um pouco quieto, assistindo eles se autodemolirem. Sem muitos alardes, portanto. Vamos observar e aguardar.

  • Keynes e Shacht, responsáveis

    Keynes e Shacht, responsáveis pelos dois maiores milagres econômicos do século XX ( o fim da depressão americana e do pornográfico desemprego e inflação da Alemanha )  foram os dois maiores economistas do século XX porque antes de entender de números entendiam de pessoas . Eram homens cultíssimos, de cultura enciclopédia e amantes da melhor literatura. Se você chega ao Paulo Ipiranga Gueds e diz "Antígona" , provavelmente ele pensará que você falou o nome do sitextremantice Antagonista rs. E esse homem que pegará um dos momentos mais delicados da economia do país. E como dar para um açogueiro a função de fazer um transplante de córnea.  Se der certo, é sinal claríssimo que deus é brasileiro rs

     

     

  • Não sei se o futuro ministro

    Não sei se o futuro ministro terá sucesso ou não. Contudo,sei que a análise faz uma comparação equivocada :O futuro ministro não conta com um governo democrático,conta  que tudo pode,ou poderá. Nesse sentido é mais correto compará-lo com o super -ministro da ditadura que,se não comandava o BC e outros ministérios,não se fazia valer somente de suas ideias claras e objetivas para coordená-los. As ideias claras eram exatamente as subjetivas,as mesma que,com certeza,contam o novo futuro super-ministro..

  • O Cade ficar na mão de um

    O Cade ficar na mão de um superministro, o Guedes e outro superministro, o Moro, vai ter uso político do mesmo modo. Na teoria o Nassif pode ter razão, mas na prática será a mesmíssima coisa. Estaremos fudidos.

    Bolsonaro, Guedes, Moro, e todos os generais do futuro governo, não adianta ficar analisando. O negócio é sobreviver e rezar para passar logo. A "lógica" desse governo em qualquer área será muito bem representado pelas declarações dos milicos futuro govenistas. Estão prestes a assumir cargos políticos do poder civil e declaram na maior cara de pau que as FAs não estão se politizando. E por aí a coisa

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