Sarah e o sexo

          Aos 48 anos, Sarah não suportava mais a intensidade de seus desejos sexuais. Vivia atormentada pela ideia de que sua vida, até então, havia sido um erro. Lembrava com amargura de sua mãe, por ter incutido nela, de forma tão persistente, o conservadorismo que impossibilitou, nos tempos áureos, uma vida sexualmente plena.

                Hoje, depois de ultrapassar inúmeros bloqueios, pudores, moralismos, medos, preconceitos, tornara-se quase uma apologeta do sexo. Zombeteiras, as amigas diziam que Sarah só fazia “sexo oral”, pois sabiam que era só da boca pra fora. Na prática, Sarah posava de difícil em público (com medo de ser rejeitada), mas se insinuava para tudo que é homem. Começava o dia cantando o porteiro de seu prédio, passava cantada no vigia do escritório, nos rapazes do serviço geral (desde que estivessem sozinhos), paquerava o vendedor do balcão da loja e só parava depois de cantar o gerente.

                As colegas mais antigas lembravam-se da Sarah de vinte anos atrás, segura, confiante, esnobe, com mil homens cortejando-a. Ainda estupefatas, percebiam a colega totalmente transfigurada. Ganhara muitas rugas durante os anos de amargura e muitos quilos nos momentos que sucederam as três separações conjugais que tivera. A Sarah de antes não admitiria fazer sexo com homens que não quisessem assumi-la. A de hoje admitiria fazer sexo com qualquer homem ou mulher, em qualquer idade e sob qualquer circunstância.

          Apesar disso, sua péssima auto-estima, seu desespero, sua ansiedade, sua insegurança afastavam qualquer possibilidade de relacionar-se sexualmente com parceiros no mínimo gozo de suas faculdades mentais. Há tempos não levava cantada nem de pedreiro ou mecânico. Certo dia, um mendigo, famélico, talvez por interesses não-carnais, com muita cortesia, demonstrara interesse na “madame”. Em seu íntimo, Sarah bem que pensou em dar-lhe um banho de loja e levá-lo a seu apartamento. Não teve coragem. Foi o único pudor pós-40 do qual se recordava.

                Amargurada, tinha pouca vida social, e só quando muito desesperada, arriscava sair, na esperança de encontrar um pretendente. Em geral, frequentava sites de relacionamento, assistia a vídeos pornôs, consolava-se com seus inúmeros “brinquedinhos” e, raras vezes, ia à parte alta da cidade, onde encontrava, em profusão, garotos de programa. Não gostava deles, pois já conhecia a velha fórmula e todas as limitações que impunham. A mais terrível para Sarah era a recusa dos garotos em fazer sexo oral, mas também enjoara daqueles chamegos e ternuras comerciais, aquele tratamento infantilizante que muitos rapazes jovens costumam dispensar aos mais velhos. Também não suportava homens musculosos, preferia os normais, mais fáceis de manejar.

            Cansara de mendigar carinho, pois era obrigada a isso até quando pagava, e irritava-se profundamente ao lembrar dos tempos áureos, de como recusara o amor de rapazes belos e apaixonadíssimos e, claro, transas promissoras… quer dizer… transas não! O que Sarah queria mesmo era dar uma boa trepada!!

           Parecia ter perdido a chance, parecia ter passado o seu tempo. Odiava pensar que com os homens, em geral, era diferente. Até os malditos septuagenários a rejeitavam. Morria de inveja ao ver seus colegas, ex-namorados e ex-maridos desfilando pelas ruas com mulheres jovens e bonitas. Morria de inveja da maioria de suas amigas e familiares da mesma idade, muitas casadas, outras solteiras, mas, em geral, mais esbeltas e de aparência jovial.

             Tornara-se amarga, passou a beber muito e tornou-se sovina. Maltratava os subalternos, os mais jovens, os garçons, as recepcionistas e empregadas domésticas e, mesmo, algumas vezes, suas próprias amigas mais queridas. Não suportava ver casais felizes, achava-os todos melosos e bobos, odiava gargalhadas, piadas, música alta e histórias de amor.

           Sarah descobrira o sexo e, com ele, a decadência, a amargura, a bancarrota. Sarah fora convidada de honra da festa da vida, mirara, com desprezo, todos os quitutes e guloseimas, recusando-os. Quando a fome bateu, deu-se conta de que não havia mais comida. Envelheceu faminta e com o gosto, com o odor da vida a atormentá-la.

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