1 de julho de 2026

Os tucanos e sua crise histórica

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Por Fábio de Oliveira Ribeiro

A amargura que dominou os líderes do PSDB após uma quarta derrota presidencial e os faz vomitar ódio e desejo de chegar ao poder de qualquer maneira (posse do derrotado, impedimento de Dilma, parlamentarismo, eleição antecipada, etc…) é o sintoma de uma doença. Uma doença histórica e que tem suas raízes profundas na própria história do Brasil.

De 1964 a 1988 o Brasil passou por profundas modificações, com expansão e diversificação industrial, acréscimos na infra-estrutura e abertura de vastos territórios virgens à exploração agrícola. Os militares, com sua rígida mentalidade hierárquica e anti-comunismo rancoroso, se cercaram de burocratas e trataram muito mal os intelectuais de esquerda e suspeitos de serem de esquerda.  Em razão disto, a Ditadura não foi capaz de historicizar seus próprios feitos. Todas as realizações do regime ficaram maculadas por aqueles que as registravam com um viés de reprovação em razão das torturas e exílios que sofreram.

Finda a Ditadura, tivemos um período complicado. A economia atolou na estagnação combinada com inflação. A política encontrava freios na sobrevivência das estruturas ditatoriais e no temor dos rosnados de um ou outro militar descontente com a democratização do país. Fernando Collor foi o primeiro presidente eleito pelo voto popular e rapidamente viu sua popularidade deteriorar em razão de ter bloqueado a poupança da população. Foi expulso do poder com ajuda dos barões da mídia que o haviam elevado à condição de salvador da pátria.

Itamar Franco fez o que lhe competia e passou o bastão para FHC. Ex-exilado político que ganhou notoriedade durante um plano econômico que não concebeu, o líder tucano fez um governo neoliberal: com o apoio da imprensa, FHC privatizou o que podia privatizar e surfou na estabilidade monetária. Comprou a mudança da CF/88 para se reeleger e, no segundo mandato, foi obrigado a desvalorizar a moeda provocando sucessivas crises que levaram o Brasil três vezes ao FMI.

Lula foi eleito presidente encerrando definitivamente o ciclo neoliberal iniciado por FHC. Combinando a preservação da estabilidade monetária com valorização do mercado interno e o aumento das exportações em razão da construção de novos parceiros comerciais, o líder petista conseguiu produzir uma grande e duradoura expansão econômica que resultou em ganhos efetivos para a classe trabalhadora. Reeleito, Lula fez mais do mesmo e, apesar da oposição interna e da crise internacional, conseguiu evitar que o Brasil fosse novamente ao FMI. Ao contrário de FHC, desgastado por seus fracassos, Lula saiu da presidência gozando de grande prestígio em razão de seus sucessos.

A eleição de Dilma Rousseff causou grande abalo nas lideranças tucanas. A dívida externa é História para os brasileiros nascidos na última década. A inflação galopante deixou de existir. Há universidade para ricos e pobres. O desemprego é moderado e tende a estabilizar ou reduzir. O crescimento econômico é esperado pelos empresários alemães, japoneses e chineses que investem no Brasil. O petróleo do Pré-Sal é uma poupança que começa a ser sacada do fundo do oceano pela Petrobrás. As reservas cambiais do Brasil são consideráveis. As Forças Armadas estão sendo modernizadas. O Brasil adquiriu um status que nunca teve na arena internacional. A reeleição de Dilma Rousseff com méritos produziu a vingança dos derrotados. No seu melhor momento o país enlouquece, porque uma dezena de líderes oposicionistas quer governar sem ter ganhado a eleição.

O problema do PSDB, creio, é não conseguir fazer uma história positiva do período em que governou. O PT, por outro lado, tem sido bastante eficiente em contar a história das virtudes do governo Lula e em atribuir ao PSDB os deméritos do governo FHC. A maldição que se abate sobre os tucanos é, portanto, parecida com a que se abateu sobre os arquitetos da Ditadura. Mas ao contrário do PSDB, os militares foram capazes de sustentar seu poder pela força bruta. Os tucanos, por sua vez, não podem contar nem com a força bruta (pois FHC sucateou as Forças Armadas) nem com a exclusividade para historiar os feitos do governo do PSDB. É fato: dois candidatos presidenciais tucanos optaram por se afastar de FHC justamente porque ele representava um peso eleitoral negativo muito grande.

A crise a que Dilma Rousseff está sendo submetida é semelhante com a que foi imposta a Lula. Como não tem nem a capacidade de historiar seus feitos, nem de tomar o poder pela força, o PSDB vive da negativação das credenciais dos seus adversários. A Lava Jato é uma reedição do Mensalão do PT. Mas provavelmente não conseguirá dar aos tucanos o que eles desejam, pois o PSDB também está implicado no escândalo de corrupção da Petrobras. Além disto, o PT pode usar e certamente usará o escândalo do Metrô, o Swissleaks, a operação Zelotes e o escândalo da FIFA para manter seus adversários sob intensa pressão interna e internacional.

O “campo político” continuará conturbado e poluído pela crise histórica do PSDB, mas não creio que uma virada do jogo será possível. Dilma Rousseff não só terminará seu mandato como fará o sucessor, pois o tempo presente beneficia mais o PT do que poderia beneficiar o PSDB. A única alternativa para os tucanos é o terrorismo. Não o terrorismo judiciário e midiático (que já se provaram ineficazes), mas o terrorismo tradicional, aquele que foi praticado por Aloysio Nunes e Jair Bolsonaro no passado. Mas se optarem pelo caminho da violência, os oposicionistas só conseguirão uma coisa: legitimar intensa repressão estatal.  

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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24 Comentários
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  1. Jose Renato O. Sampaio Lima

    6 de julho de 2015 2:00 pm

    Dilma esquece as lutas dos companheiros, torturados.

     

    Seria interessante acrescentar as ações de EUA / Europa para se livrarem de Dilma. Da invasão de correspondência do governo brasileiro e da Petrobras. 

    Da queda de braço com seu partido aliado o PMDB.

    Da virada radical a direita no segundo mandato / estelionato eleitoral. Da politicas errada do Banco Central.

    A maneira da entrega da cabeça e Guido,  Ministro das Finanças do primeiro mandado, foi desmoralizado para Lula e para o programa do PT

    Quem iniciou a queda de Dilma é seu ainda ministro da fazenda Levy.

    Collor não fez mudança tipo comportamento bipolar. Ele deu sinais antes durante a preparação do pacote econômico;

    Dilma esquece as lutas dos companheiros, torturados, por conta da luta pela soberania do país, ressuscitou FHC gratuitamente, valorizou a politica econômica tucana, trai os seus compromissos em campanha eleitoral.

    Eis as razões principais  da sua reprovação de Dilma tanto da direita e PSDB,  que nunca vai ter quanto dos eleitores dos aliados.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      6 de julho de 2015 2:09 pm

      Sua percepção dos fatos é

      Sua percepção dos fatos é diferente da minha. Não sou pautado pela imprensa. E você?

  2. Jose Renato O. Sampaio Lima

    6 de julho de 2015 2:24 pm

    Jesus Cristo !
    sim valorizo,

    Jesus Cristo !

    sim valorizo, todo tipo de imprensa, Nassif, Mino inclusive leio os seus textos.

     

     

  3. Julião

    7 de julho de 2015 4:11 pm

    Será que irá acontecer alguma mudança na atitude do governo ou .

    …  ou será apenas fogo de palha?

    Falta o PT tambem entrar na luta e interessar-se pelo que está acontecendo, Não consigo aceitar que pessoas que viveram em governos de direita entreguistas como FHC, ditadura de 1964, governo destrambelhado do Collor, nati morto do Itamar, já abatido e morto antes de entrar do Sarney, etc não lutem e tentem arregimentar os seus militantes e a população (nós os elegemos para nos representar) para não voltarmos a atoleiro!

    Aguardo, ainda que com baixas espertanças.

  4. CB

    7 de julho de 2015 4:25 pm

    Os tucanos não passam de

    Os tucanos não passam de animadores de auditório. É a produção (mídia e setores do estado fora de controle) quem prepara tudo para que eles se apresentem na hora do show. Os tucanos não teriam chegado nem ao segundo turno das 3 últimas eleições presidenciais sem todo o trabalho permanente desenvolvido pela “produção”. É igual fórmula 1: o piloto leva a fama, mas se a fábrica não projetar e construír um bom carro, não sairá nada. Aliás, até um mecânico pode colocar tudo a perder numa troca de pneus.

  5. Frederico69

    7 de julho de 2015 4:32 pm

    Fábio,

    minha dislexia me faz ler o título como os tucanos e sua crise histérica!!

    1. Lionel Rupaud

      7 de julho de 2015 4:45 pm

      Mas eu tambem li “histérica” e não tenho

      dislexia, pelo menos que eu saiba…

    2. Tina

      7 de julho de 2015 6:10 pm

      Li histórica

      Mas pensei em comentá-la como histérica.

      Nem precisou!

  6. Odonir Oliveira

    7 de julho de 2015 5:20 pm

    Aécio se confunde:”fui reeleito presidente da República”

    No Terra:

     

    Aécio se confunde: “fui reeleito presidente da República”

    Em sua primeira entrevista após ser reeleito presidente do PSDB, senador criticou declarações recentes de Dilma: “chega a ser patética”

    Nesta terça-feira (7), o senador Aécio Neves deu a sua primeira entrevista após ser reeleito presidente nacional do PSDB. Em conversa de mais de 20 minutos com o programa Timeline , da Rádio Gaúcha, o tucano direcionou suas críticas às afirmações de Dilma Rousseff (PT) feitas ao jornal Folha de S. Paulo , que foram publicadas também nesta terça. Entre uma forte declaração e outra, ele se confundiu e afirmou que “foi reeleito presidente da República” na convenção de seu partido no último domingo (5) .

     

    “O que nós dissemos na convenção que me reelegeu, neste domingo, presidente da República, é que o PSDB é um partido pronto para qualquer que seja a saída. Inclusiva a permanência da presidente. O fato concreto é que ela perdeu as condições políticas de conduzir o Brasil à uma saída rápida para essa crise”, disse.

     

    Alertado pelos apresentadores do programa, que se divertiram com o erro, Aécio se corrigiu e desconversou sobre uma possível candidatura à presidência em 2018. “Não, presidente do PSDB! Estamos longe de 2018. E o partido tem quadros muito qualificados. Temos o governador de São Paulo (Geraldo Alckmin), o senador José Serra. Temos que ter a responsabilidade de não antecipar cenários. Nem sabemos se a eleição será mesmo em 2018”, afirmou.

    1. Odonir Oliveira

      7 de julho de 2015 5:22 pm

      Análise de couraças. Isso é que se apresenta como alternativa?!

      1. emerson57

        7 de julho de 2015 5:53 pm

        office boy

        Em 2038 (MMXXXVIII) eleito ÇERRA45 vice fegacê, Aócio será o menino de recados do planalto.

    2. Fábio de Oliveira Ribeiro

      7 de julho de 2015 6:32 pm

      Aécio carecia de seriedade e

      Aécio carecia de seriedade e agora lhe falta sobriedade. Coitado…

  7. NICKNAME

    7 de julho de 2015 5:35 pm

    Se é pra tergiversar: O PT e Sua Crise Histórica.

    Imperdível o Brasilianas nesta 2ª feira. Bela análise em linguagem até coloquial, sem pompa, sem chavões, sem maniqueismos tão comuns, direto, citou, até impressionando Nassif (me pareceu): “O Partido deve estar à esquerda do Governo, e à direita dos Movimentos Sociais” – Lênin. Excelente Márcio Porschman – Quando e onde será disponibilizado o vídeo com a também excelente entrevista por L. Nassif ? (E se é pra tergiversar pondo a crise do psdb – vejo isso como realimentar uma parte de participantes, Irmandade seguidora e fiel, quando questiona e critica a linha editorial, equipe GGN e Nassif , o faz muito timidamente – quandonão o aplaudem 50, 300 vezes)

  8. Vagalume do Brejo

    7 de julho de 2015 6:25 pm

    Mumias engravatadas, ou lobos

    Mumias engravatadas, ou lobos em pele de cordeiro?

     

    http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/

     

     

  9. marcos nunes

    7 de julho de 2015 6:53 pm

    Um bom título:

    Um bom título seria “O PSDB e sua crise histérica”

  10. bfcosta

    7 de julho de 2015 9:00 pm

    “O problema do PSDB, creio, é

    “O problema do PSDB, creio, é não conseguir fazer uma história positiva do período em que governou.”

    Discordo dessa parte do texto. Os tucanos usam e abusam de dizerem que eles inventaram a estabilidade financeira e que tudo que Lula fez foi manter o que eles fizeram, além de ter tido uma sorte do cão em ter pego uma onda de crescimento mundial puxada pela China. O discurso é bem esse. E tudo que eles dizem é reverberado a 120 decibéis pela imprensa amiga.  Mas ele não pega, ainda que a parte da China seja verdade. E sabe por que não pega ? Por que as pessoas sabem que os anos FHC foram muito ruins, muito longe da maravilha que eles dizem ter sido. E aí é que está o grande problema do PSDB. Para ter alguma chance de voltar pela via eleitoral sem apelação, o PSDB teria que fazer uma autocrítica desses anos FHC, dizer que erraram em alguns pontos e prometer que os erros não seriam mais feitos. Uma espécie de versão tucana da carta aos brasileiros que o Lula fez em 2002, que na verdade era endereçada ao mercado financeiro.  Só que a carta tucana tinha era que ser endereçada aos eleitores mesmo. Mas eles se negam terminantemente em fazer isso. E a razão pela qual se negam não é outra senão, porque não querem ser cobrados com relação à isto quando voltarem ao poder. Eles tem um ideal neoliberal e sabem que ainda há algum espaço para se avançar nessa seara: privatização do petróleo, por exemplo, entre outras coisas.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      7 de julho de 2015 11:40 pm

      Não se faz História com
      Não se faz História com abusos. O que se faz com abusos é apenas pseudo-história facilmente contestada pelos fatos.

  11. Sergio Navas

    7 de julho de 2015 10:15 pm

    Tentem imaginar o PSDB sem a

    Tentem imaginar o PSDB sem a mídia para pauta-lo e blinda-lo.

    1. Ferd

      8 de julho de 2015 9:20 am

      O PSDB e o DEM tem o mesmo

      O PSDB e o DEM tem o mesmo futuro do FDP alemao se realmente nao partirem para a social democracia, ou seja, o esquerdismo populista.

  12. Mauro Segundo 2

    8 de julho de 2015 12:44 am

    ” Além disto, o PT pode usar

    ” Além disto, o PT pode usar e certamente usará o escândalo do Metrô, o Swissleaks, a operação Zelotes e o escândalo da FIFA para manter seus adversários sob intensa pressão interna e internacional”.

    Não sei que pressão é essa. Nenhum tucano engaiolado, nada na mídiaa, e tudo caminhando a passsos céleres para engavetamentos, prescrições e esquecimento.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      8 de julho de 2015 12:12 pm

      O jogo ainda não acabou.

      O jogo ainda não acabou.

  13. Marcos K

    8 de julho de 2015 9:14 am

    Crise histórica do PSDB? Não

    Crise histórica do PSDB? Não vejo assim. Eles sabem muito bem a quem tem que servir. Pra mim o PSDB é apenas a UDN enrustida que exita em sair do armário. 

  14. Arthemísa

    8 de julho de 2015 9:59 am

    Nove de julho vem aí; os

    Nove de julho vem aí; os paulistas, mais uma vez, tentam golpear a Nação. Dessa vez a tropa de elite é o PSDB. Perderam em 1932, em 2002, em 2006, em 2010, em 2014. Perderam as batalhas políticas e a vergonha na cara.

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