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A controvérsia sobre a exploração do gás de xisto

Por Marco Antonio L.

Do Valor

Cresce oposição à extração de gás de xisto

Tsvetelina Belutova/Reuters - 14/1/2012 / Tsvetelina Belutova/Reuters - 14/1/2012
Manifestantes protestam em Sófia, Bulgária, com cartaz onde se lê: “Membros do Parlamento, parem a fratura hidráulica”; o país proibiu esse tipo de exploração

Pilita Clark | Financial Times | VALOR

De todas as pessoas que se opõem à controvertida prática de fraturar rochas em solo profundo para a extração de gás natural, a princesa Brianna Caradja pode ser a única que alega ser descendente de Vlad, o Empalador.

Mesmo assim, essa ancestralidade apavorante não a impediu de ser jogada em um camburão da polícia durante uma manifestação ocorrida em Bucareste em março contra os planos do governo de levar o processo de fratura hidráulica (”fracking”) para a sua Romênia. A prisão foi parar nas manchetes dos jornais, o que segundo a princesa foi algo que “ajudou bastante”.

Uma semana depois, do outro lado do mundo, ônibus lotados de fazendeiros australianos gritando palavras de ordem circularam pelas ruas de Brisbane para desafiar as companhias de gás que pretendem perfurar suas terras. Na semana seguinte, manifestantes marcharam pela Cidade do Cabo contra o fracking no árido platô de Karoo, na África do Sul – um plano que vem enfrentando a oposição de outra aristocrata, a princesa Irene da Holanda, dona de terras no país, e de Jonathan Rupert, o bilionário de Richemont do setor de artigos de luxo. Assim vem sendo a reação contra a disseminação global do fracking na exploração do gás de xisto e outros recursos naturais não convencionais.

Seu uso transformou o cenário energético dos Estados Unidos e acabou com décadas em que o pensamento convencional era de que os suprimentos de gás e petróleo estavam diminuindo. Mas o setor chegou a um ponto crítico. Antes de cumprir sua promessa de energia mais barata e limpa em todas as partes do mundo, ele terá que contornar a oposição popular que, segundo temem alguns, poderá sufocá-lo no nascimento.

“Se o gás de xisto se mostrar farto ao redor do mundo, como é nos Estados Unidos, ele poderá não só substituir o carvão, a energia eólica e o urânio, dominando a geração de energia no mundo, como também substituir o petróleo como principal combustível para os veículos de transporte”, afirma Shai Hill, analista da Macquarie Securities especializado no setor de energia. “Os benefícios econômicos de uma queda nos preços da energia poderiam ser enormes; as ramificações geopolíticas da queda da demanda por petróleo, ainda maiores. Mas o mundo ainda precisa ser totalmente convencido de que a fratura hidráulica é completamente segura do ponto de vista ambiental.”

Opositores alegam que método pode envenenar reservas subterrâneas de água e até provocar terremotos

Até agora, o fracking foi banido na França e na Bulgária; suspenso ou voluntariamente paralisado em Reino Unido, África do Sul, Québec, partes da Alemanha e Austrália; e condenado do norte da Espanha até Nova York. Em muitos países, um impasse surgiu entre os oponentes, que alegam que o fracking vai envenenar a água potável, explodir torneiras de cozinha, provocar terremotos e afetar as energias renováveis, e um setor que insiste que ele é seguro se feito da maneira adequada.

Contribuindo para agravar a situação está a carência de evidências científicas definitivas para muitas das questões mais contestadas. “Ainda estamos no escuro, mesmo hoje, cinco ou seis anos após o começo do boom do xisto”, diz Avner Vengosh, professor da Duke University dos Estados Unidos e um dos poucos especialistas a publicar pesquisas de campo revisadas por colegas cientistas, desde que o boom do xisto teve início, sobre a acusação mais controvertida ao fracking: a contaminação da água.

O professor Vengosh diz que enquanto mais estudos não forem feitos, a discussão deverá permanecer num beco sem saída, com os ativistas adotando uma posição quase “religiosa” contra o fracking, enquanto as companhias de gás deverão empregar argumentos para “calar a boca” dos críticos. No meio disso estão os políticos e autoridades, que precisam encontrar um caminho entre os protestos públicos e um setor que às vezes parece, nas palavras do senador conservador australiano Bill Heffernan, “5.000 km à frente das autoridades reguladoras”.

Muitos que estão na vanguarda do fracking veem a oposição à prática como confusa. “Nosso setor vem empregando com segurança a tecnologia no processo de perfuração de mais de 1 milhão de poços desde a década de 1940″, diz a ExxonMobil em sua página na internet. Mas isso é como dizer que o iPhone está por aí desde a invenção do telefone.

O procedimento básico de fracking – bombear uma mistura de água, produtos químicos e areia a alta pressão em grandes profundidades no solo, para liberar gás natural preso – não é tão novo. Mas o fracking passou por uma revolução no fim da década de 1990, depois que as companhias aperfeiçoaram o processo e encontraram meios para perfurar horizontalmente grandes distâncias para extrair gás em quantidades comercialmente viáveis de formações densas de pedras de xisto.

O número de poços explorados horizontalmente que produzem gás em Barnett Shale, no Texas, a área mais desenvolvida da exploração de xisto nos Estados Unidos, passou de menos de 400 em 2004 para mais de 10 mil em 2010, e há hoje nos EUA mais de 22 mil poços de gás de xisto.

A disseminação da prática para outros recursos naturais não convencionais, como o petróleo de xisto e metano de jazidas de carvão, é a fonte dos protestos contra o fracking em países como a Austrália. “Antes, usava-se o fracking apenas se necessário”, diz Christopher Green, um consultor britânico que já trabalhou nessas operações em várias partes do mundo. “Agora, a coisa funciona assim: ‘mostre-me um motivo para eu não usá-lo’.”

No entanto, na medida em que o fracking se espalha pelos Estados Unidos, o mesmo acontece com as reclamações. Pessoas com poços particulares de água próximos de poços de gás explorados via fracking alegam que a água fica com uma coloração amarronzada e é contaminada por metano, o principal componente do gás de xisto. Uma casa perto de um poço explorado por fracking explodiu em Ohio em 2007, catapultando um casal de idosos de sua cama, segundo consta em uma ação judicial subsequente.

Quando algumas pessoas tentaram descobrir quais produtos químicos estavam sendo usados nos fluidos de fracking, muitas companhias disseram que isso é um segredo comercial. Isso aumentou os temores em relação ao principal ponto de preocupação do fracking: que embora o processo em si normalmente ocorra bem abaixo dos aquíferos, sob grossas camadas de rochas impermeáveis, a água do subsolo ainda pode ser contaminada pela água residual que o processo produz.

Além do fluido de fracking quimicamente reforçado, há a chamada “água produzida” – a água existente em solos profundos que é ejetada para a superfície junto com o gás, podendo ser dez vezes mais salgada que a água do mar, é naturalmente radioativa e contém altas concentrações de metais. Ambos os tipos exigem um manuseio cuidadoso.

Ao longo do tempo, regulamentações surgiram em resposta a muitas preocupações. Vários Estados americanos exigem hoje que os produtos químicos usados no processo de fracking sejam tornados públicos. A revelação voluntária é mais comum. Em Washington, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) finalmente emitiu, em abril, padrões de poluição do ar para o fracking.

Gás é extraído com bombeamento de água, produtos químicos e areia a alta pressão em grandes profundidades

Mas a questão da contaminação da água continua sendo motivo de uma disputa acalorada. A EPA está fazendo um amplo estudo sobre o assunto, mas suas constatações iniciais não devem ser anunciadas antes do fim do ano, e as conclusões finais somente serão reveladas em 2014.

Em dezembro, a agência emitiu um estudo preliminar sobre queixas de ocorrência de água suja próximo de poços explorados por fracking na cidade de Pavillion, Wyoming, que encontrou águas subterrâneas com produtos químicos provavelmente associados ao fracking. No entanto, após muitas reclamações do setor e de autoridades estaduais, a agência concordou em realizar mais testes.

Enquanto isso, duas longas resenhas acadêmicas publicadas ao longo dos últimos 12 meses – uma do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e outra do Energy Institute da Universidade do Texas em Austin – sugerem que poços construídos de maneira adequada não devem representar um problema. “O impacto ambiental do desenvolvimento do xisto é desafiador, mas pode ser administrado”, diz o estudo do MIT. “Tudo o que vi pode ser corrigido”, diz Raymond Orbach, diretor do Energy Institute.

No entanto, Orbach, que já foi o principal cientista do Departamento de Energia dos EUA durante a administração George W. Bush, também afirma que executivos do setor têm feito algumas ações mal calculadas. “Eles deveriam ter revelado imediatamente os produtos químicos que usam, pois ao mantê-los em segredo viram as costas para as pessoas e isso as deixa nervosas”, diz Orbach

E nenhum dos dois estudos se concentrou em uma questão emergente envolvendo o fracking: os terremotos. Um estudo preliminar das autoridades reguladores da Ohio concluiu em março que o bombeamento de resíduos de água de fracking no subsolo provavelmente desencadeou 12 pequenos tremores de terra no Estado. Um estudo britânico divulgado em abril confirmou que o fracking provocou dois tremores perto de Blackpool, no noroeste da Inglaterra, no ano passado. Não admira que a Câmara Municipal de Christchurch, a cidade da Nova Zelândia que foi devastada por um terremoto no ano passado, tenha proibido o fracking.

Há também uma divergência considerável em relação ao grau de limpeza do gás de xisto, dada a quantidade de emissões de metano que, segundo afirmam alguns estudiosos, vazam dos poços. Em 2008, uma companhia de gás escreveu uma carta para a família de um jovem cineasta de Nova York chamado Josh Fox, oferecendo a ele quase US$ 100.000 pelo aluguel de suas terras para a exploração de gás. Fox decidiu investigar. O resultado foi “Gasland”, um documentário lançado em 2010, em que pessoas comuns reclamam de água fétida, problemas de saúde e, o que ganhou mais destaque, torneiras que soltam fogo. Na verdade, se o fracking possui um rosto, ele pertence a Mike Markham, o homem do Colorado que aparece em “Gasland” colocando fogo na água que sai da torneira da cozinha de sua casa com um isqueiro.

Isso enfureceu as autoridades reguladoras, que disseram que suas investigações iniciais sobre a água da casa de Markham detectaram metano que não é do tipo “termogênico”, ligado ao fracking, e sim do tipo “biogênico”, encontrado há anos nas águas subterrâneas locais. Mas, de lá para cá, um estudo da Duke University que tem com coautor o professor Vengosh mostrou “evidências sistemáticas de contaminação por metano da água potável, associadas à extração de gás de xisto” na Pensilvânia e em Nova York. Os níveis de metano estavam, em média, 17 vezes maiores nos poços localizados dentro de 1 km dos locais ativos de fracking, do que naqueles localizados a mais de 1 km, embora os motivos disso não tenham ficado precisamente claros.

 

Enquanto isso, “Gasland” ganhou notoriedade no mundo, principalmente na internet. Segundo Fox, ele já foi distribuído comercialmente em mais de 30 países, e o diretor já está trabalhando em uma sequência. Algumas companhias vêm sentindo esse efeito. A Exxon diz que perfurou vários poços de gás de xisto na Alemanha, começando em 2008. “Mas aí, ‘Gasland’ foi lançado”, diz um diretor. “Foi um ponto crítico.” A oposição pública cresceu e a Exxon concordou em suspender as perfurações e bancar um estudo sobre os impactos do fracking.

O filme também está indo “muito bem” na Polônia, afirma Lech Kowalski, um cineasta baseado em Paris, que está trabalhando em um documentário sobre os impactos da exploração do gás de xisto sobre os agricultores poloneses. De todo modo, o governo da Polônia parece comprometido com o fracking.

Mesmo assim, a primeira coisa que as pessoas ouvem sobre o fracking em muitos países é que o processo pode fazer sair fogo de suas torneiras. Ou, conforme diz Nick Grealy, um lobista do setor no Reino Unido: “Noventa por cento das pessoas nunca ouviram falar do fracking, e 9% dos que já ouviram falar, ouviram algo ruim ou errado, ou as duas coisas”.

Isso pode ajudar a explicar o que aconteceu na Bulgária, um país pobre que depende quase que totalmente da Rússia para o gás que consome. Como tal, era de se esperar que ela desse boas-vindas à Chevron quando a companhia americana disse no ano passado que estava pronta para explorar depósitos substanciais de gás de xisto. Em vez disso, após uma onda de manifestações pelo país, em janeiro a Bulgária tornou-se o segundo país a proibir o fracking, depois da França.

Ian MacDonald, gerente-geral de desenvolvimento de negócios da Chevron, diz que “a campanha organizada de desinformação contra o gás de xisto” na Bulgária e outros países vai desaparecer assim que as pessoas entenderem melhor seus benefícios.

Veremos. Décadas atrás, a indústria nuclear prometeu uma fonte revolucionária e limpa de energia. Hoje, após o desastre em Fukushima, no Japão, essa visão está sendo testada. O gás de xisto também tem um inegável potencial global. A questão é se ele conseguirá cumpri-lo.

 
Xisto pode afetar expansão de energias limpas

Por Financial Times

Entre a série de questões ambientais que a revolução do gás de xisto suscita, uma das mais significativas ainda é a mais difícil de ser respondida: será que ele vai afetar o investimentos em energias renováveis necessários para enfrentar as mudanças climáticas?

 

A promessa de gás natural barato e abundante eclodiu no cenário energético global bem no momento em que as energias renováveis alcançam feitos que alguns pensavam ser impossíveis. Os investimentos em energias limpas atingiram o recorde de US$ 260 bilhões no ano passado, em comparação a menos de US$ 60 bilhões em 2004. Mais capacidade de geração de energia solar foi instalada em 2011 do que em todo o planeta até 2009.

 

As energias solar, eólica, geotérmica e outras formas de energias renováveis ainda são pequenas, produzindo apenas 3% da eletricidade consumida no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o organismo que monitora o setor no mundo (a energia hidrelétrica responde por outros 16%). Mas a previsão é de que todas vão crescer mais rapidamente do que outras fontes de energia, uma vez que tecnologias melhores e mais baratas as aproximam das usinas convencionais que usam combustíveis fósseis, que são mais baratas. Essas previsões vêm sendo frustradas pelo boom do xisto, que fez os preços do gás natural caírem aos níveis mais baixos em dez anos.

Até agora há poucas evidências concretas de que isso está afetando o crescimento das energias renováveis. Desde 2005, quando a produção de gás de xisto começou a decolar, a geração de eletricidade a partir do gás aumentou 270 terawatt/hora nos Estados Unidos, enquanto a geração a partir do carvão caiu 250 terawatt/hora, segundo Laszlo Varro, diretor da divisão dos mercados de gás, carvão e eletricidade da AIE. Mas, ao longo do mesmo período, a eletricidade gerada por meios renováveis não hidrelétricos, como a energia solar e a energia eólica, aumentou em 100 terawatt/hora. “Portanto, o gás está dando uma surra no carvão e ao mesmo tempo as energias renováveis estão crescendo bem”, diz Varro.

Mas o potencial comercial do gás barato já está afetando o pensamento dos investidores, segundo afirma Michael Liebreich, diretor do grupo de pesquisas Bloomberg New Energy Finance. “Se você é um fundo de pensão dos EUA e há esse fluxo constante de notícias sobre o gás, você precisa ser muito corajoso para dizer que é sensato continuar investindo meio a meio em gás e energias renováveis”, diz ele. “A manada está enorme e no momento começa a se dirigir de maneira impensada para o gás de xisto.”

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Realmente não resta dúvida que os manifestantes protestam pela suspensão da exploração do xisto. Está claro nos dizeres dos cartazes da foto!

 

Para se entender o que está acontecendo com as "novas" tecnologias de "fracking", na exploração de gás e petróleo não convencionais, é preciso refletir com cuidado sobre o conteúdo deste último parágrafo da postagem:

Mas o potencial comercial do gás barato já está afetando o pensamento dos investidores, segundo afirma Michael Liebreich, diretor do grupo de pesquisas Bloomberg New Energy Finance. “Se você é um fundo de pensão dos EUA e há esse fluxo constante de notícias sobre o gás, você precisa ser muito corajoso para dizer que é sensato continuar investindo meio a meio em gás e energias renováveis”, diz ele. “A manada está enorme e no momento começa a se dirigir de maneira impensada para o gás de xisto.”

O capitalismo corporativo americano se especializou nas últimas décadas, no processo de se ganhar mais dinheiro na bolsa, do que nos lucros de suas atividades fins, que na realidade se tornaram meios para se ganhar nas bolsas. Isso explica as quase incontáveis bolhas e fraudes que se sucedem sem fim.

Parece que saiu de moda do capitalismo lucrar na venda de mercadorias competitivas ou em prestação de serviços de qualidade, isso dá muito trabalho, o quente se tornou realizar resultados das corporações na bolsa. Para completar o quadro, executivos recebem hoje remunerações, pela valorização do capital de suas empresas nas bolsas, e não apenas nos lucros obtidos - o que teoricamente implicaria na valorização das ações e deixaria acionistas também satisfeitos nos resultados patrimoniais - dito em palavras diretas, o convite à falsificação de balanços faz parte do contrato de trabalho.

Outra tarefa contratual são informes repassados para a imprensa amestrada, sempre eivados de otimismo eufórico com os próprios negócios, de forma bastante previsível, pois nunca poderia ser diferente, faz parte do jogo de relações públicas para a valorização patrimonial. Mas quando a imprensa vai investigar a fundo, sobre o que esconde a euforia nesse caso da corrida do gás natural, saem coisas assim:

S.E.C. Shift Leads to Worries of Overestimation of Reserves
http://www.nytimes.com/2011/06/27/us/27gasside.html?_r=3&pagewanted=1

Behind Veneer, Doubt on Future of Natural Gas
http://www.nytimes.com/2011/06/27/us/27gas.html?ref=us

Insiders Sound an Alarm Amid a Natural Gas Rush
http://www.nytimes.com/2011/06/26/us/26gas.html?pagewanted=1&sq=marcellu...

Mais notícias relacionadas
http://www.nytimes.com/interactive/us/DRILLING_DOWN_SERIES.html

 

Almeida

Só sei de uma coisa, tive duas aulas agora, uma com o artigo colocado pelo Pedro Costa e outro com o artigo do Valor Econômico. 

 

Em aula de campo realizada no final de 2011 nas instalações da PetroSix, como atividade extra-classe da  disciplina de Análise Ambiental do curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pude observar de perto os resultados da exploração de xisto (na verdade folhelho pirobetuminoso) em minas a céu aberto e, posso afirmar, temo por uma exploração em larga escala, especialmente se for pelas Exxons da vida. No caso de São Mateus do Sul, a exploração é feita por uma estatal que, apesar de visar lucro, ainda tem que zelar pelo meio-ambiente e pela saúde da população, mesmo que seja para manter a imagem positiva. No relatório que postei anteriormente dá para ter uma noção do impacto causado; não aparecem as fotos mas essas poderão ser vistas nos endereços referenciados.

 

ANÁLISE AMBIENTAL

AULA DE CAMPO 03 NOV. 2011

PETROSIX - SÃO MATEUS DO SUL

A SIX

A Petrobrás mantém na cidade paranaense de São Mateus do Sul uma Unidade de Negócios da Industrialização do Xisto (SIX) que consiste na extração de rochas sedimentares (folhelho pirobetuminoso) para obtenção de óleo combustível, nafta, gás combustível, gás liquefeito, enxofre e ainda subprodutos que podem ser utilizados nas indústrias de asfalto, cimenteira, agrícola e de cerâmica. Para obtenção dos produtos finais, a SIX processa diariamente 7.800 toneladas de rocha, extraídas de minas a céu aberto, sendo que o processamento, grosso modo, vai desde a fragmentação da rocha, - com a separação (peneiramento) dos fragmentos menores que ainda não são utilizados - até seu aquecimento a temperaturas em torno de 500º C, restando finalmente o que se denomina xisto retortado. A esse processo são adicionados pneus inservíveis, conforme Fig. 1.

Fig. 1. Lavra e processamento do xisto

                 Fonte: Divulgação Petrobrás

 

SOLO DA REGIÃO

Para a Pedologia, que é a ciência que estuda a sua formação solo é a camada viva que recobre a superfície da terra, em evolução permanente, por meio da alteração das rochas e de processos pedogenéticos comandados por agentes físicos, biológicos e químicos. O solo é o resultado de algumas mudanças que ocorrem nas rochas. Estas mudanças são bem lentas, sendo que as condições climáticas e a presença de seres vivos são os principais responsáveis pelas transformações que ocorrem na rocha até a formação do solo. O solo da região de São Mateus do Sul é denominado Formação Irati, sua gênese ocorreu a aproximadamente 280 milhões de anos e possui em seus cinco primeiros horizontes as seguintes camadas:

 1. solo superficial onde há a presença de material orgânico;

2. camada argilosa;

3. primeira camada  de folhelho;

4. camada de rocha calcárea;

5. segunda camada de folhelho.

Perfil do solo de São Mateus do Sul - PR.

         Fonte: www.redeaplmineral.org.br/

 

A ATIVIDADE E O AMBIENTE

Para a extração do folhelho pirobetuminoso são necessárias escavações que variam de 30 a 40 metros de profundidade, com a conseqüente remoção da vegetação e a abertura de extensas crateras que impactam o ambiente e a paisagem. Quando do início das atividades em 1972, não havia nenhum modelo para a recuperação da área minerada e a Petrobrás precisou desenvolver, em 1977, um programa que permitisse a recomposição das matas com espécies nativas e o retorno da fauna a esses terrenos reabilitados.

No processo de recuperação, a Petrobrás faz a deposição do folhelho retortado (após o processamento) nas áreas mineradas que é recoberto por uma camada de argila, depois é feita a reintrodução do solo vegetal original - que foi reservado após sua retirada - e em seguida é feita a recomposição vegetal com espécies nativas. Outra ação executada é a criação de lagos nas áreas degradas. (Fotos 1 e 2).

Foto 1 Recomposição de área degradada

                                  Fonte: Divulgação Petrobrás

 

Foto 2 Lago Sul

                        Fonte: Divulgação Petrobrás

Segundo informações fornecidas pela pessoa responsável por guiar a visitação, quando da recuperação da primeira área minerada (degradada), devido à falta de uma tecnologia para recomposição do solo e conseqüente reintrodução da vegetação, a técnica utilizada para a colocação da camada de solo superficial deixou-o compactado, o que pode perceber-se pela queda das espécies de maior porte pela falta de condições para a penetração das raízes; a construção do chamado Lago Sul com o contato direto da água com o xisto retortado também trouxe problemas para a ictiofauna.

 

IMPACTOS

Impacto Sócioeconômico

A instalação da SIX em São Mateus do Sul trouxe uma nova dinâmica para a economia do Município com a geração de empregos diretos (atualmente 800 empregos) e indiretos que revitalizou o comércio da cidade e aumentou a arrecadação de impostos. Segundo o prefeito Luiz Adyr Gonçalves Pereira, “o município melhorou sua arrecadação de impostos, contou com a geração de empregos e com a melhoria da qualidade de vida da população”, caracterizando a enorme importância do negócio em termos socioeconômicos. Também a infraestrutura urbana foi melhorada com a instalação de novos equipamentos como hospitais e ampliação do serviço de fornecimento de energia elétrica; a cidade que até então era apenas mais uma pequena cidade interiorana voltada para a agricultura viu suas ruas serem asfaltadas assim como a ligação com Curitiba e sua inserção na rede estadual de comunicações.

Impacto Ambiental

Em um estudo realizado no ano de 2009 pela mestranda do Departamento de Química da UFPR Jeniffer Santos, uma comparação entre os primeiros 75 cm da camada de solo da área reflorestada com a área nativa não apresentavam grandes diferenças em sua composição química; por outro lado, estudo também realizado no ano de 2009 pelo perito da USP, doutor em Ciências, Hélio Rech, apontou que a influência das emissões atmosféricas na saúde da população de São Mateus do Sul indica que a quantidade de material particulado na região da Petrosix está acima dos padrões aceitáveis. Segundo o pesquisador, “analisando o xisto e comparando os elementos do minério com os dos materiais particulados é possível afirmar que o elemento poluente que foi encontrado nessas partículas, como ferro, silício e enxofre, são os que compõem o xisto. Ou seja, os elementos que estão aderidos nessas partículas tem origem nas atividades mineradoras do xisto”. (AMAR, 2009).

A SIX já foi multada duas vezes pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) por despejo de efluentes contaminados em rios da região de São Mateus nos anos de 2004 e 2006; entretanto, segundo o presidente desse órgão de fiscalização, atualmente a empresa mineradora está com o licenciamento ambiental em dia. (oeco, 2011). Por sua vez, a presidente da Associação de Defesa do Meio-Ambiente
Araucária (AMAR), Lídia Lucaskicriticou a posição do IAP; para ela, a fiscalização no local deveria ser mais rigorosa e também defendeu a necessidade de que a renovação de licença tenha que ser feita mediante a realização de um Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).

A gerente geral da SIX, Elza Kallas, garante que a tecnologia Petrosix atende a todos os padrões de emissões atmosféricas. “Buscamos antecipar tecnologias e evitar emissões de qualquer tipo, antes mesmo de haver legislação para isso. Sempre trabalhamos visando minimizar os impactos ambientais”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A mineração é uma das atividades que mais agridem o meio-ambiente, causando danos à paisagem à fauna, flora e aos seres humanos; a atividade minerária da SIX em São Mateus do Sul acrescida do processamento e industrialização, certamente impacta fortemente o ambiente já que na fase industrial são expelidos gases e partículas no ar que nem sempre são controladas, conforme estudos citados acima. Quanto à recuperação de áreas degradadas, há que se repetir que o solo é a camada viva que recobre a superfície da terra, em evolução permanente, por meio da alteração das rochas e de processos pedogenéticos comandados por agentes físicos, biológicos e químicos; isto posto, fica a dúvida se a recomposição das áreas degradadas com rochas química e fisicamente modificadas não virão a ocasionar problemas ambientais no lençol freático e na própria superfície com o passar do tempo. Os procedimentos adotados pela SIX para compensar o dano ambiental, por mais que possam ser criticados, foram a solução encontrada ante uma situação inédita (falta de experiência anterior no assunto); no entanto, num horizonte mais amplo esse tipo de solução tem que ser melhor analisado, especialmente por existir grande reserva desse fonte de energia a ser explorada no país, podendo as jazidas, no futuro, serem administradas pela iniciativa privada, que não tem tanta “iniciativa” para dispender parte de seus lucros na recuperação de áreas degradas ou na prevenção de acidentes ambientais, como tem-se observado recentemente.

 

REFERÊNCIAS

http://amarnatureza.org.br/site/sao-mateus-do-sul-discute-o-ar-irrespiravel,6857/. Acesso em 17 Nov. 2011.

http://www.oeco.com.br/reportagens/25031-na-america-do-sul-comeca-a-corrida-pelo-xisto. Acesso em 21 Nov. 2011.

http://www.petrobras.com.br/minisite/refinarias/petrosix/portugues/oxisto/index.asp. Acesso em 21 Nov. 2011.

 

A questão é em quem confiar nos ecoterroristas ou nas exxon da vida.

 

"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.

"ônibus lotados de fazendeiros australianos gritando palavras de ordem circularam pelas ruas de Brisbane para desafiar as companhias de gás que pretendem perfurar suas terras."

O mundo ávido por energia. Energia contra alimentos.

 

A produção de petróleo nos EUA durante o primeiro trimestre deste ano foi o mais alto em catorze anos, devido a novas fazendas em xisto formações no Texas e Dakota do Norte. O fracking  já  produz resultados tangíveis nos EUA, e em breve numa escala global,

 

A China tem uma reserva suficiente para suprir sua demanda interna por 200 anos. Os EUA perfuram 13 possos a cada 48 horas. A Argentina tem uma das maiores reservas do mundo. O pico do petróleo e do gás estão longe de serem alcançados. Deve o Brasil colocar todos seus ovos no Pré-sal? Um tema interessante para um debate racional isento de paixões emocionais.

Este gás, de tão barato está provocando fortes reações das fontes nucleares, eólicas, solares e até do carvão. Haverá uma inflexâo dos alternativos biocombustíveis, principalmente no etanol, tanto de milho como da cana de açúcar se o uso desse gás se estender aos veículos automotores.

 

poços

 

  Gostaria de saber do Sr. Marco   Antonio o que isso tem a haver com o Brasil?. Andam explorando gas de xisto no Brasil?  Se  sim; em quais regiões?

 

Começamos o tópico com um comentário pra lá de infeliz. O Brasil tem a segunda maior reserva de xisto no mundo e a Petrobras já o explora há décadas (veja nota a seguir). O problema levantado são os possíveis danos ambientais de uma operação conhecida como fraturamento hidráulico, também já em uso de longa data e não só com o xisto, mas em uma siginificativa parcela dos poços de petróleo.

 

Tecnologia de Xisto

Criada em 1954, a Superintendência Industrial de Xisto (SIX) da Petrobrás atua como um centro de desenvolvimento de tecnologia, inicialmente para o aproveitamento do xisto e, desde 1991, em outros projetos, principalmente na área de refino.

Com a implantação do Programa de Desenvolvimento de Tecnologias Estratégicas de Refino (Proter), a SIX passou também a trabalhar nas áreas de craqueamento catalítico, desasfaltação, hidrogenação e no desenvolvimento de novas rotas para o aproveitamento do coque e do resíduo asfáltico.

Além disso, o SIX desenvolveu e patenteou uma tecnologia para a incineração de resíduos oleosos. Operacionalmente simples, esta alternativa tem a vantagem da queima simultânea de diversos combustíveis, aliadas ao baixo custo de construção e manutenção. Vários projetos da SIX estão sendo desenvolvidos em conjunto com as universidades.

 

Tirando Óleo da Pedra

O Brasil tem um dos maiores volumes mundiais de xisto: reservas de 1,9 bilhão de barris de óleo, 25 milhões de toneladas de gás liquefeito, 68 bilhões de metros cúbicos de gás combustível e 48 milhões de toneladas de enxofre só na formação Irati, nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Goiás.

A Petrobrás concentra suas operações na jazida de São Mateus do Sul, onde o minério é encontrado em duas camadas: a camada superior de xisto com 6,4 metros de espessura e teor de óleo de 6,4%, e a camada inferior com 3,2 metros de espessura e teor de óleo de 9,1%.

A primeira extração de xisto no Brasil aconteceu em 1884, na Bahia. Em 1935, em São Mateus do Sul, Paraná, uma usina instalada por Roberto Angewitz chegou a produzir 318 litros de óleo de xisto por dia. Em 1949, o governo federal decidiu investigar cientificamente as potencialidades do xisto e a viabilidade econômica de sua industrialização. Um ano depois, era criada a Comissão de Industrialização do Xisto Betuminoso (CIXB), para estudar a construção de uma usina na cidade de Tremembé, em São Paulo, com capacidade para produzir 10 mil barris diários de óleo de xisto.

Com a criação da Petrobrás em 1953, o acervo da CIXB foi incorporado à Companhia e, em 1957/1958, os técnicos da Petrobrás desenvolveram um novo processo de transformação de xisto que recebeu o nome de Petrosix. Hoje, esse processo é reconhecido mundialmente como o mais avançado no aproveitamento industrial do minério.

Em 1972, entrava em operação a Usina Protótipo do Irati (UPI), que viria comprovar a viabilidade técnica do processo Petrosix, além de testar equipamentos e levantar dados básicos para projetos de usinas industriais. O processo de consolidação da tecnologia Petrosix chegaria ao fim em dezembro de 1991, quando entrou em operação o Módulo Industrial (MI), em plena escala.

A SIX processa diariamente 7.800 toneladas de xisto betuminoso, que geram 3.870 barris de óleo de xisto, 120 toneladas de gás combustível, 45 toneladas de gás liquefeito de xisto e 75 toneladas de enxofre.

O Potencial econômico do município de Pântano Grande está baseado na Exploração de minérios, uma vez que o solo é rico em calcário, caulim, quartzo, xisto betuminoso, carvão, barro refratário, entre outros minerais. Mas, também não menos importante é a Agricultura e Pecuária de nossa cidade. Veja na agricultura de Pântano Grande tem um bom desenvolvimento a maior parte dos agricultores têm assistência especializada e lavouras mecanizadas.