23 de junho de 2026

A crítica aos cabeças de planilha, por Dani Rodrik

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Praticamente desde o Plano Real, tornei-me crítico das tentativas do mercado de entender a economia através das planilhas. Cunhei a expressão “cabeças de planilha” para designar esse tipo de analista. Não apenas isso.

Toda minha análise econômica submetia teorias e propostas à prova dos fundamentos.

Isto é, analisar os efeitos das tais propostas sobre os fundamentos mais simples da economia, os que estão efetivamente na base do mercado, do comportamento dos agentes econômicos.

Fazia isso buscando as correlações entre os agentes. Se a teoria ou proposta passasse por esse teste de lógica, então tinha pé ou cabeça.

O artigo de Dani Rodrik – “Economia x Economistas” -, da Kennedy School of Government, de Harvard, expõe com clareza esses princípios e as críticas ao que eles chamam de “mathiness”.

Diz ele que não existe uma teoria única para os problemas da economia. Cada situação exige valer-se pragmaticamente dos instrumentos necessários, independentemente da teoria. E chega-se a esses instrumentos pela arte, pela intuição, não por fórmulas fechadas. A questão não é definir qual o modelo certo, mas qual o modelo que se aplica melhor a determinadas circunstâncias.

Daí a importância do conhecimento empírico, da capacidade de ver e entender os fenômenos do mercado.

Hoje, nos EUA, grandes economistas não poupam críticas a colegas que exageraram os benefícios do mercado.

Do Valor

Economistas x economia

por Dani Rodrik

Desde o fim do século XIX, quando as ciências econômicas, cada vez mais afeitas à matemática e estatística, assumiram pretensões científicas, seus praticantes vêm sendo acusados de vários pecados. As acusações ­ entre as quais a arrogância, o esquecimento de objetivos sociais além da renda, a atenção excessiva às técnicas formais e o erro de não prever acontecimentos econômicos importantes, como crises financeiras ­ normalmente provêm de gente de fora do mundo econômico ou da ala heterodoxa. Ultimamente, no entanto, parece que até figuras líderes no campo econômico mostram­-se insatisfeitas. 

Paul Krugman, prêmio Nobel e colunista de jornal, habituou­-se a criticar severamente a nova geração de modelos macroeconômicos por negligenciarem velhas verdades keynesianas. Paul Romer, um dos criadores da nova teoria do crescimento, acusou alguns nomes de destaque, incluindo o prêmio Nobel Robert Lucas, do que apelidou de “mathiness” ­ o uso da matemática para confundir em vez de esclarecer. 

Richard Thaler, notável economista comportamental da Universidade de Chicago, deu uma grande bronca na profissão como um todo, acusando­-a de ignorar o comportamento do mundo real em favor de modelos nos quais as pessoas são vistas como otimizadoras racionais. O professor de finanças Luigi Zingales, também da Universidade de Chicago, acusou seus colegas especialistas em finanças de terem levado a sociedade ao mau caminho ao exagerar os benefícios trazidos pelo mercado financeiro.

Esse tipo de exame crítico pelos grandes nomes da disciplina é saudável e bem-vindo -­ em especial em um campo que com frequência carece de muita autorreflexão. Eu também direcionei muitas vezes minha mira contra vacas sagradas da disciplina -­ o livre mercado e o livre comércio.

Há, contudo, uma conotação desconcertante nesta nova rodada de críticas que precisa ser explicitada -­ e rejeitada. A economia não é o tipo de ciência na qual alguma vez poderá existir um único modelo genuíno que funcione melhor em todos os contextos. A questão não se trata de “chegar a um consenso sobre qual modelo é certo”, como argumentou Romer, mas descobrir qual modelo se aplica melhor em determinada situação. Fazer isso sempre continuará a ser uma arte, não uma ciência, em especial quando a escolha precisa ser feita em tempo real.

O mundo social difere do mundo físico porque é feito pelo homem e, portanto, quase infinitamente maleável. Portanto, diferentemente das ciências naturais, o avanço científico das econômicas não se dá pela substituição de velhos modelos por melhores, mas pela expansão de sua biblioteca de modelos, com cada um esclarecendo uma contingência social diferente.

Por exemplo, agora temos muitos modelos de mercados nos quais há concorrência imperfeita ou informações assimétricas. Esses modelos não tornaram seus predecessores, baseados na concorrência perfeita, obsoletos ou irrelevantes. Simplesmente fizeram com que ficássemos mais conscientes de que circunstâncias diferentes pedem modelos diferentes.

Da mesma forma, modelos comportamentais que enfatizam tomadas de decisão heurísticas nos permitem analisar melhor cenários em que tais considerações são importantes. Não invalidam os modelos de escolha racional, que continuam como a ferramenta a ser escolhida em outras situações.

Um modelo de crescimento que se aplique aos países avançados pode ser um mau guia para os países em desenvolvimento. Algumas vezes, modelos que enfatizam expectativas são melhores para analisar os níveis de inflação e desemprego; em outras, modelos com elementos keynesianos vão funcionar melhor.

Jorge Luis Borges, o escritor argentino, certa vez escreveu uma história, de um único parágrafo, que talvez seja o melhor guia para os métodos científicos. Ele descreveu uma terra distante em que a cartografia -­ a ciência de fazer mapas -­ havia sido levada a extremos ridículos. O mapa de uma província era tão detalhado que tinha o tamanho de toda uma cidade. O mapa de um império ocupava toda uma província.

Com o tempo, os cartógrafos ficaram ainda mais ambiciosos: desenharam um mapa que era uma réplica exata, ponto por ponto, de todo o império. As gerações subsequentes, como nota ironicamente Borges, não puderam encontrar algum uso prático para um mapa tão incômodo de manusear. O mapa, então, foi largado no deserto a deteriorar-­se, juntamente com a ciência da geografia que ele representava.

O que Borges quis dizer é algo que ainda escapa a muitos cientistas sociais de hoje: o entendimento exige simplificação. A melhor forma de responder à complexidade da vida social não é criar modelos cada vez mais elaborados, mas aprender como diferentes mecanismos causais funcionam, um de cada vez, e, então, descobrir quais são mais relevantes em determinado cenário.

Usamos um mapa quando dirigimos de casa para o trabalho, outro quando viajamos entre cidades. Há ainda diversos tipos de mapas que são necessários se estivermos de bicicleta, a pé ou usando transporte público.

Navegar por modelos econômicos ­- selecionar qual funciona melhor -­ é consideravelmente mais difícil do que escolher o mapa adequado. Os profissionais usam vários modelos empíricos, formais e informais, com diferentes graus de habilidade. Em meu livro por sair “Economic Rules” (regras econômicas, em inglês), critico os cursos de economia por não prepararem apropriadamente os estudantes para os diagnósticos empíricos que a disciplina exige.

Os críticos internos da profissão, contudo, erram ao dizer que a disciplina saiu­-se mal porque os economistas ainda não chegaram a consenso sobre os modelos “corretos” (que são os seus preferidos, naturalmente). Deixem-­nos reverenciar a economia em toda sua diversidade ­ racional e comportamental, keynesiana e clássica, primeiro melhor e segundo melhor, ortodoxia e heterodoxia ­ e devotar nossa energia a nos tornar mais sábios ao escolher quando e qual modelo aplicar.

Dani Rodrik é professor de economia política internacional na John F. Kennedy School of Government, em Harvard. Copyright: Project Syndicate, 2015.

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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9 Comentários
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  1. luz perdida

    11 de setembro de 2015 1:53 pm

    muito bom

    … parece simples…

  2. FreitasJr

    11 de setembro de 2015 1:54 pm

    É tão difícil assim de

    É tão difícil assim de entender? Em seu discurso quando do recebimento da Prêmio Nobel da Paz, Gabriel Garcia Marques assinalou “é compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos…” 

  3. Mogisenio

    11 de setembro de 2015 2:31 pm

    Ai está uma linha razoável de

    Ai está uma linha razoável de pensamento econômico que eu também defendo.

    Vale lembrar, como digo aqui no blog recorrentemente, é preciso dar um “Basta”! – mas não aquele “Basta”!midiático que se transformou em “Fora”!  feito contra o Jango.

    E olha que perdemos a oportunidade de uma “reforma agrária” né.

    Lado outro, e preciso dar um “basta”, este sim,  aos economistas de escol e de meia tigela! Aí sim.

    Nesse sentido, estou quase que  de pleno acordo com o texto acima.

    Quase por que? Explico-me, r . jornalista:

    Premissa: O que buscamos na vida  é viver com dignidade humana.

    Creio que essa premissa é irrefutável. Trata-se de um pilar, um fundamento para qualquer ciência social. E antes que algum desorientado de palpite equivocado, é claro, que essa dignidade carrega consigo direitos e deveres. 

    Partindo-se dela, então, façamos uma experiência: Andemos pelas ruas de várias  cidades brasileiras para tentar perceber “qual modelo econômico” vai , de fato, efetivamente, realmente, indiscutivelmente, proporcionar uma vida digna para os diversos seres humanos que transitam pelas cidades. 

    Creio que se fizermos este exercício, com boa vontade, bom senso, boa-fé, perceberemos que , praticamente, qualquer “modelagem econômica”, única e exclusivamente,  tenderá ao fracasso total se não houver “decisões” dos “órgãos do poder”  que, efetivamente, mudem determinados cenários “imexíveis” ad eternum.

    Noutras palavras, um “modelo econômico” não será capaz de resolver problemas do “poder” ou do uso dele.

    Ou , noutras palavras também, dentro de um “modelo econômcio” é preciso considerar como  o “poder” ou o uso dele, sobretudo, o poder econômico, vai aceitar ” o próprio  modelo econômico mais “aceitável”.

     

    Se pegar uma fórmula qualquer e transformar P= propriedade privada numa constante e sem função social, tenhamos a certeza de que o “modelo econômico” pode até ser “aceito”, admirável, mas, no fundo, não resolverá os dramáticos problemas brasileiros e seus derivantes no Brasil. 

    A não ser que neste “modelo econômico implementável”, coloque em sua fórmula:

    P= propriedade privada constante e sem função social, sem discussão, sem “interferência estatal e sem terra.

    M= meritocracia constante, isto é, constantemente enganadora com aquele inversão do ensino público ruim no início e bom no final.

    H= herança constante (méritos sucessórios?)e sem tributação para não afugentar “o capital” , ou a “poupança” que ainda sobra aqui. Evidentemente, retirando-se a “poupança”  livre de riscos e de impostos que sai  “naturamente” para lugares “paradisíacos”.

    M= mercado “meritocrático”( nos moldes acima)  via “sistema de preços no qual o “consumidor sabe de tudo” e  o produtor é “refém dele. O cliente tem razão! Desde que pague toda tributação direta e indireta e a  margem de contribuição de minha “propriedade privada meritocrática”. Ah! e sem inveja hein! Olhe lá.

    Bom, se o “modelo econômico” equacionar estas “variáveis” constantes, entre outras, ai sim, acho que ele poderá ser um “bom modelo”, inclusive, para sair da “crise” que a “política” tem criado em torno do “modelo econômico.

    Saudações  

     

     

     

    1. João de Paiva

      11 de setembro de 2015 5:24 pm

      Mogisenio,
      Foste muito feliz

      Mogisenio,

      Foste muito feliz no comentário. Apenas no último parágrafo é citada a palavra mágica, mas como criadora de uma crise. É o poder político que deve coordenar a economia, não o contrário. O brilhante Thomas Piketty demosntra isso, de forma cabal, na seminal obra “O capital no século XXI”. Portanto, “P” não deve ser uma constante que represente a propriedade privada, mas um símbolo que denote a decisiva variável: a Política.

       

  4. C.Paoliello

    11 de setembro de 2015 3:46 pm

    EUA e seu “quintal”

    Inconformado com a insubmissão de onde considera como mero quintal, EUA voltam sua atenção novamente para a América Latina, diz Assange:

    http://mundo.sputniknews.com/america_del_norte/20150911/1051321827.html

    PS – A UE já está completamente dominada pelos interesses imperialistas.

     

  5. aliancaliberal

    11 de setembro de 2015 4:25 pm

    Resumo:
    Não importa o que o

    Resumo:

    Não importa o que o governo faça, no fim depende mesmo e da sociedade  superar os desafios que lhe são impostas, e que por vezes criados pelo próprio governo. 

    O governo espera que a sociedade pague (e supere) pelos erros cometidos por este governo.

    Se as dificuldades forem superadas, o governo tratará de se dar o mérito indevido.

    Se não ele fica em “standby” ate a sociedade absorver a inflação superar a depressão e ter ganhos de produtividade.

  6. Álvaro Guilherme

    11 de setembro de 2015 5:02 pm

    Como certa vez li num artigo

    Como certa vez li num artigo de Delfim Netto, a economia ficou com inveja da física.

  7. Emilio GF

    11 de setembro de 2015 6:35 pm

    Pensamento do dia

      “A diferença entre a física e a economia, é que o átomo não pensa”

    Esqueci o nome do autor. Fico devendo.

  8. Lucinei

    12 de setembro de 2015 12:40 am

    Acho que é bem menos do que

    Acho que é bem menos do que “arte e intuição”. Seguir a lição basica de “se libertar de prenoções” e preconceitos infantis e adolescentes já seria um grande avanço.

    O bom e velho método científico que aceita os princípios da lógica ainda dá caldo.

    O problema é que os economistas acham que estão falando de gente, mas eles estão falando é de pre-ços… Pre-ços…

    Por isso se embevecem tannto com modelos matemáticos. Como se fosse um ciencia social mais “científica” (afinal, o “número” está ali!)….

    Ora, nada é mais abstrato do que um número! Concreto é gente!

    … Por isso não acertam uma projeção.

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