25 de julho de 2026

O fim das cadeias globais de valor, por Jorge Arbache

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Jornal GGN – Jorge Arbache, professor de economia da UnB e ex-assessor da Presidência do BNDES, analisa fatores que, para ele, estariam colocando as cadeias globais de valor e o modelo de produção fragmentada em xeque. Em sua coluna no Valor, ele diz que as novas tecnologias, como impressoras 3D, robôs e inteligência artificial estão “reescrevendo as condições de produção”, já que permitem produzir bens simples e sofisticados em condições competitivas.

“Velocidade de acesso a mercado e condições para se fazer negócios estão suplantando fatores como custos de produção”, afirma Arbache, citando o caso do Boeing 787, produzido com uma grande rede global de fornecedores que deveria reduzir os custos de produção, mas que acabou se tornando um “fiasco” devido às multas bilionárias por atrasos de entrega. Ele também analisa fatores como as mudanças nos padrões de consumo, o crescimento da economia digital, os acordos plurilaterias de comércio e a preocupação com o meio ambiente. Leia a coluna abaixo:

Do Valor

O fim das cadeias globais de valor

Jorge Arbache

Virou lugar comum o argumento de que participar de cadeias globais de valor é condição para melhorar a inserção de países na economia mundial. Afinal de contas, diz o argumento, redes globais de produção expõem as empresas a melhores práticas, disciplinas de trabalho, padrões regulatórios, tecnologias, ideias, parcerias e clientes, o que aumentaria a produtividade e a competitividade.

Evidências empíricas corroboram o argumento. No entanto, é provável que esta visão venha a ser parcialmente contestada e melhor qualificada nos próximos anos. E motivos para isto não faltam.

Primeiro, as novas tecnologias de produção e de organização da produção estão colocando o modelo de produção fragmentada em xeque. Impressoras 3D, robôs, inteligência artificial, manufatura avançada, novas energias e outras tecnologias estão reescrevendo as condições de produção e viabilizando a produção local/regional de muito daquilo que hoje é produzido por parceiros espalhados em vários continentes. Essas tecnologias permitem produzir em condições competitivas desde bens sofisticados até bens simples, como um calçado esportivo. Velocidade de acesso a mercado e condições para se fazer negócios estão suplantando fatores como custos de produção e incentivos fiscais enquanto fontes de competitividade.

Segundo, a crescente sofisticação e customização dos produtos está desafiando a produção fragmentada. Um caso revelador é o do Boeing 787, produzido a partir de uma extensa rede global de fornecedores. Embora no papel o projeto levasse a menores custos e a maior agilidade, o projeto foi um fiasco e gerou multas bilionárias por atrasos de entrega. Estamos aprendendo que parece haver uma relação inversa entre viabilidade da fragmentação da produção e nível de complexidade e de customização do produto, o que se deve, sobretudo, aos elevados custos de coordenação.

Terceiro, as mudanças nos padrões de consumo estão favorecendo os serviços e os produtos superintensivos em serviços. De fato, a participação dos serviços na cesta de consumo das pessoas e na matriz de custos das empresas só faz crescer. São serviços de toda natureza. Mas a parcela que mais cresce é a de serviços “embutidos” nos produtos tangíveis, como P&D, design, softwares, marcas e outras manifestações que agregam valor, conectam bens à internet e criam novas funcionalidades. Quando calculados por valor adicionado, os serviços já representam 54% do comércio global, mas estimase que serão 75% até 2025.

Quarto, a ascensão da economia digital está criando oportunidades para novos modelos de negócios. Enquanto o comércio global de bens e fluxos financeiros parece ter atingido o pico em termos de parcela do PIB, os fluxos de dados estão crescendo quase que exponencialmente. Segundo McKinsey (2016), apenas entre 2005 e 2014 o fluxo global de dados cresceu 45 vezes. Expansão da infraestrutura de conectividade, efeito­rede, custos cadentes de computação e de sensores, arquiteturas abertas de softwares e desregulação dos mercados digitais estão acelerando o ritmo de adoção e de uso de tecnologias digitais e viabilizando a emergência de toda uma nova geração de investimentos e de modelos de negócios.

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10 Comentários
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  1. W K

    1 de junho de 2016 5:04 pm

    Serviços de impressoras 3D ainda são bastante controversos.

    Conheci em 1997, portanto há quase 20 anos, em uma montadora de veículos, a possibilidade de receber da matriz o desenho de qualquer peça e os comandos para gerar a mesma em máquinas especializadas. Tratavam-se de máquinas bastante caras e seus software eram patenteados. As peças geradas eram de um material sintético, servindo mais para modelos ou protótipos do que como peças componentes a embutir em algum equipamento / veículo / dispositivo. 

    Como tudo indica que estas patentes caducaram, e essas máquinas, conhecidas hoje como  “impressoras 3D” se baratearam, obviamente ficou mais fácil hoje obter estes equipamentos. 

    Por outro lado, alguns documentários apresentados na Deutsche Welle mostraram ainda um certo ceticismo quanto à real vantagem deste modo de produção. Em um deles, um fã deste equipamento comentou que o máquina tradicional levava uma ou duas horas para “esculpir” uma peça em bloco de aço, gerando, claro, muita sucata; ao passo que uma impressora 3D levava vários dias para produzir a mesma peça, mas com bem menos desperdício. 

    Ou seja, ainda é necessário manter uma certa cautela em relação a esta inovação.

     

  2. André Oliveira

    1 de junho de 2016 5:12 pm

    O projeto de desenvolvimento
    O projeto de desenvolvimento do 787 é um mau exemplo. Projetos aeronáuticos são muito específicos e repletos de exigências particulares, não servem para exemplificar uma regra geral, já que são exceção. O Dreamliner foi mais dificil ainda nesses particulares pois nele foram introduzidas simultaneamente várias inovações tecnológicas, uma ousadia no ramo. Em suma o projeto sofreu por ser ambicioso demais com um cronograma apertado demais para um avião com tantas novidades técnicas. Ao final, porém, com tudo contabilizado, o projeto resultou em uma aeronave excepcional criando uma nova categoria no mercado de voo comercial.

    1. evandro condé de lima

      1 de junho de 2016 9:47 pm

      Isto quando não outros interesses por trás

      No You tube há um documentário sobre “the arrow” o desenvolvimento de um caça canadense. Ilustrativo. Mis ainda a morte do projeto.

    2. junior50

      2 de junho de 2016 12:04 am

      787 – 9

        Apenas o maior retorno por assento/milha

  3. Andre Araujo

    1 de junho de 2016 5:52 pm

    Pelo que se saiba assessor do

    Pelo que se saiba assessor do BNDES na fase ideologica dos CAMPEÕES NACIONAIS do grupo da Unicamp no BNDES liderado por Luciano Coutinho. Esse grupo gastou R$500 bilhões recebidos do Tesouro Nacional, criou empresas otimas para seus donos e péssimas para o Pais como a JBS e dos R$500 bilhões nada resultou em crescimento para o Brasil,

    dinheiro do Tesouro jogado fora, qual a teoria que o professor tira dessa experiencia desastrosa, estando lá?

    1. Ataíde Coutinho

      1 de junho de 2016 8:02 pm

      Tradiçao

      Caro André , pelo menos a JBS ainda esta de pé  mas e em decadas passadas mega empresas do segmento da eletronica beneficiaram se de isençoes ficais na zona franca de manaus , o que faziam importavam produtos e trocavam a marca , sem preocupar se com knoware pois beneficiavam se da reserva de mercado , e assim foi com a lei de informatica que atrasou em bons anos nossa informatizaçao .

      Se conta nos dedos de uma mao as empresas brasileiras que detem tecnologia propria e competitiva ,nossos liberais da epoca FHC taxaram a Embraer e Petrobras de indeficientes e abriram seu capital ao mercado sem importar se que junto  estava toda uma tecnologia desenvolvida aqui . Metal Leve e Cofap foram   ´´ privatizadas ´´ pelo populismo cambial de FHC; atualmente vemos o ataque a mega industria de construçao civil e a setores de enriquecimento de uranio da eletronorte, tirando isso o país nao possui um isetor ndustrial que seja competitivo internacionalmente.  

      1. evandro condé de lima

        1 de junho de 2016 9:46 pm

        Bem a JBS

        deve estar servindo como consolo, não explicação. Ou expiação.

  4. Vitor Carvalho

    1 de junho de 2016 6:18 pm

    Sobre o Mackinsey…

    Aconselho a todos baixar o aplicativo gratuito deles: é excelente. Tbm leiam o livro deles sobre as mudanças na economia mundial: em 10 anos uma grande cidade na China saíra de um PIB do tamanho da cidade de Stockholme para o tamanho do país inteiro da Suécia. Se a Índia continuar seu crescimento, uma nova ordem global emergirá de forma que surpreende. 

  5. Hans Bintje

    1 de junho de 2016 6:28 pm

    Futuro na produção local

    Eu desconheço o passado do autor do artigo mas há muita coisa que ele escreveu que realmente está acontecendo.

    Estamos saindo de sistemas de “máquina tradicional levava uma ou duas horas para ‘esculpir’ uma peça em bloco de aço, gerando, claro, muita sucata” (trecho do comentário de W K) para sistemas bem mais práticos de trabalhar.

    Os materiais mudaram. Por exemplo, temos hoje o uso de fibra de carbono ( fonte: http://www.autoentusiastasclassic.com.br/2013/11/mclaren-pioneira-na-fibra-de-carbono.html ):

    “A tecnologia da fibra de carbono foi usada no carro, agora com uma nova variação.

    Chamada de monocell (monocélula), a estrutura principal do carro é a região central do carro, onde fica o habitáculo, que é uma espécie de banheira de fibra de carbono. Os demais elementos que formam o chassi são fixados nesta banheira, com a estrutura da suspensão dianteira, traseira e motor.

    A novidade do monocell é o fato de ser uma peça única de fibra de carbono, sem junções ou elementos colados à parte. Esta tecnologia permite atingir um nível de resistência ainda mais elevado, mais estável e dimensionalmente mais preciso que a estrutura com partes coladas.”

    Mais fácil de trabalhar em qualquer lugar do mundo, mais leve e que economiza bastante transporte e combustível.

  6. Fábio Capela

    1 de junho de 2016 6:38 pm

    Ainda não se aplica no Brasil, infelizmente

    O Brasil tem um grave problema nisso: os materiais avançados e equipamentos usados para que essa produção descentralizada, em menor escala, possa ser economicamente viável via de regra ou não existem no país ou são absurdamente mais caros do que no exterior. Não parece existir uma política coerente para incentivar o uso desses materiais e equipamentos no país.

    Isso quer dizer que países mais avançados, onde essa substituição das etapas internacionais das cadeias de valor é viável, são capazes de cada vez mais substituir etapas brasileiras por fornecedores locais, mas o Brasil ainda não se capacitou a fazer o mesmo processo e internalizar as etapas atualmente feitas no exterior.

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