Por Mariana Desidério Barbosa

No número 911 da avenida Prestes Maia, próximo à estação da Luz, fica, sem dúvida, o mais emblemático dos edifícios abandonados de São Paulo. É um prédio gigante, de 22 andares, de frente para uma avenida também gigante. Milhares de carros passam velozes por ali todos os dias, indiferentes à situação do imóvel – em parte porque a natureza dos carros é ser indiferente, em parte porque, depois de tantos anos, o abandono do prédio parece natural. Desde que foi comprado pelo empresário Jorge Nacle Hamuche, há cerca de 18 anos, o edifício não teve nenhuma atividade oficial e permanente.
O abandono é visível do lado de fora e do lado dentro. Na rua, a fachada manchada pela umidade e pelas pichações; dentro, o lixo teima em se acumular, mesmo com a luta diária das mais de 300 famílias que vivem ali hoje. O prédio é considerado a maior ocupação de sem-teto da América Latina.
Desde quando chegaram, em outubro de 2010, os moradores já tiraram caminhões e mais caminhões de lixo do edifício. E ainda existem salas inabitáveis, onde procura-se confinar a sujeira que sobrou. Além do lixo, as paredes esburacadas e as escadas comidas pelo tempo denunciam os anos de descaso.
As mesmas paredes, no entanto, testemunham a vida que habita o Prestes Maia. São dezenas de grafites, frases – “O conhecimento transforma o homem” – , indicações – “15o andar” – e anúncios – “Vendo balas, doces e bolos”.
O prédio já foi ocupado três vezes pelos movimentos sem-teto – uma delas durou quase cinco anos segundo o MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro), tempo que seria necessário para pedir o uso capião de um imóvel tomado.
Hoje vivem ali cerca de 1.500 pessoas de 378 famílias. Elas ocupam 20 dos 22 andares do edifício principal – os dois últimos estão interditados, por conta de uma infiltração – e ainda um prédio ao lado, com mais oito andares. A ligação elétrica é clandestina e o encanamento foi feito pelos moradores no buraco do antigo elevador. Os banheiros são coletivos – um para cada 11, 12 e até 13 famílias.
Sem elevador, boa parte dos encontros entre vizinhos acontece nas escadas. Ao subir até o 20o andar, cruza-se com um homem descendo para consertar um cano no térreo, uma mulher lavando o banheiro no 5o, cinco crianças brincando entre o 10o e o 11o. Se cansar, você pode ser ultrapassado por um casal que sobe com as compras do supermercado.
Em cada andar, grandes salões com piso de taco formam a área de convivência, para onde estão voltadas as portas dos apartamentos improvisados com tapumes. No fundo do salão, uma janela com vista maravilhosa da cidade. De uma delas é possível ver de cima as obras da estação Luz da linha amarela do Metrô, ainda inacabada e escondida dos pedestres.
Um menino, Caio, que silenciosamente resolveu me acompanhar por aquelas escadas, conta feliz que na casa dele tem uma janela enorme, com uma vista daquela. A pele bem negra faz destacar os dentes grandes e brancos, nos vários sorrisos fáceis de Caio. “Minha janela vai quase até o chão, e dá pra ver isso daí”, diz, sorrindo e mostrando com as mãos. “A minha também é grande, mas dá de cara com o muro do prédio vizinho…”, lamento eu.
É neste lugar, com janelas grandes e banheiros coletivos que vivem Maria do Carmo, Maria do Livramento e o casal José Cícero Pedro e Maria Dejanira.
Maria do Carmo está em sua segunda estadia no edifício e, mesmo com 56 anos, quatro filhos, cinco netos, e uma vida com passagens sofridas, não perde a animação para receber uma visita, contar sua história e declarar seu amor pelo Prestes Maia.
A paraibana Maria do Livramento já não tem esse entusiasmo todo. Aos 33 anos, é mãe de cinco filhas – a mais nova de um ano e a mais velha de 13. Desiludida, esta Maria já participou de cinco ocupações na vida, desistiu de uma delas e ficou sem casa, quando todos os companheiros conseguiram a sua. Se arrepende de ter deixado a Paraíba, mas agora não dá mais pra voltar. Para ela – moradora do 14o andar, o Prestes Maia é um bom lugar, mas seria melhor se não tivesse tantas escadas.
O Prestes Maia é onde vivem ainda José Cícero Pedro, sua mulher Maria Dejanira e seus dois filhos. Animados – ele um pouco mais reservado – se recusam a se mudar para Guaianases ou Cidade Tiradentes, únicos lugares compatíveis com a carta de crédito recebida do governo para comprar uma casa. São práticos – vivem no prédio para juntar dinheiro e construir uma outra casa; não querem mais filhos para evitar a pobreza e têm claro para si que sua estadia em ocupações é passageira.
Todos são como pequenas janelas de vida particular empilhadas em 20 andares de concreto. Individualidades que convivem obrigatoriamente com a individualidade de mais de mil pessoas no mesmo edifício.
É uma vizinhança em que a convivência se dá pelos corredores, mas também pela mesma luta coletiva. Diferente de uma vizinhança comum, em que não há fio condutor, o objetivo ali é o mesmo – um teto, de preferência com banheiro particular. Todos, sem exceção, estão naquele edifício na esperança de que com a pressão da ocupação, consigam um lugar digno para morar sem pagar aluguel.
O proprietário
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Jorge Nacle Hamuche é filho de libaneses, tem 69 anos, três filhos e cinco netos. Começou a trabalhar aos sete anos e hoje é empresário.
É considerado um bom patrão por seus empregados próximos. Adriana, a secretária, começou a trabalhar para ele ainda adolescente em uma loja. Empregou suas irmãs nas empresas de Hamuche e hoje, com 32 anos, é quem cuida dos pagamentos e da bagunça do chefe.
Toda a equipe do empresário se mudou para um escritório mais bem organizado no início de 2011, mas ele gosta mesmo é de trabalhar no depósito de tecidos da empresa, onde tem uma sala de paredes envidraçadas, com uma mesa, uma cadeira e um sofá cheio de ácaro.
O depósito é um galpão empoeirado, localizado na parte desconhecida e desabitada da rua 25 de Março. Rolos e rolos de tecidos se amontoam sem ordem e parecem estar esquecidos e envelhecendo há anos. O elevador não funciona e uma obra recente evita agora que a água da chuva inunde o local. Pelas paredes manchadas, adesivos eleitorais: “Hamuche Vereador 11.123 – Maluf Prefeito 11”.
A rotina do local é assim: a cada 15 minutos aparece um carro, de onde saem um ou dois homens procurando por Hamuche. Depois de uma hora, ele aparece, troca algumas palavras e leva seus convidados para a salinha desbotada, onde conversam por cerca de 30 minutos sobre negócios. Os outros esperam pacientes por sua vez. A minha demorou duas horas para chegar.
Hamuche é um negociante nato. Não perde uma oportunidade de fazer dinheiro e gosta disso. Atua no ramo dos tecidos, com três marcas de jeans – Hamuche, H-Star e RH – e com lençóis para hospitais. Também atua na incorporação imobiliária, com o grupo Norte Shopping, presente principalmente no Nordeste do país, mas que tem em São Paulo o Norte Shopping Barretos, e quer crescer mais.
Já foi candidato a vereador pelo PHS, com Paulo Maluf prefeito, mas não foi eleito. A estratégia de campanha era buscar votos na comunidade evangélica, apesar de ele não seguir a religião. Seu irmão, Fauzi Hamuche, foi candidato a deputado estadual, em 2006, a vereador de São Paulo, em 2008, e a deputado federal, em 2010 – todas as vezes pelo PP – nunca eleito.
Hamuche comprou o edifício na Prestes Maia há aproximadamente 18 anos, em um leilão. O interesse era basicamente financeiro – o preço estava bom, uma oportunidade para fazer dinheiro. Hoje o prédio é seu e do sócio Eduardo Amorim.
Antes, pertencia à falida Companhia Nacional de Tecidos, com a qual Hamuche já trabalhou, e passou também pelas mãos da Secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. No 5º Cartório de Imóveis, responsável pelos registros na região da Luz, o edifício ainda está em nome da empresa falida. O documento cita ainda a compra do prédio pelo Citybank em 1975, anulada após ação judicial. Hamuche diz que não é de seu interesse registrar o prédio agora e que tem uma carta de arrematação provando sua propriedade.
Para não dizer que desde que foi parar em suas mãos o Prestes Maia se manteve oficialmente desocupado, o proprietário lembra que o prédio já foi estacionamento e comitê eleitoral de uma campanha de Paulo Maluf para prefeito (ele não se lembra qual). Apesar das investidas pela política, o empresário reclama que os movimentos por moradia são, na verdade, movimentos políticos. Não vê que ele também defende sua ideologia.
A demora para ocupar o imóvel não tem nada a ver com especulação imobiliária, diz. A situação econômica do país e o descaso do poder público com a região da Luz são as justificativas de Hamuche para o abandono do prédio. O investimento ali não seria rentável nesses últimos 18 anos.
O Prestes Maia tem R$ 2,5 milhões em dívidas com o IPTU, segundo o proprietário. O valor total do prédio ele não soube avaliar –depende dos investimentos para a revitalização, do capital do proprietário, das condições do entorno.
Agora, com a promessa do projeto Nova Luz, que deve valorizar a região, a intenção é fazer do Prestes Maia um grande prédio de escritórios. Entretanto, antes ele precisa conseguir a reintegração de posse, “o famoso despejo”, nas palavras da moradora Maria do Carmo. A Justiça já autorizou, mas o advogado do movimento entrou com recurso. Na opinião de Hamuche, edifício não tem vocação para moradia – seria um desperdício de potencial.

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