4 de junho de 2026

Modelagem matemática remonta origens e evolução de contos populares

Jornal GGN – Contos mundialmente populares, como o de Chapeuzinho Vermelho e a do lobo em pele de cordeiro, possuem uma origem comum e um comportamento evolucionário muito similar à própria evolução das espécies, segundo estudo feito por antropólogos da Universidade de Durham, na Inglaterra. Utilizando modelagens matemáticas, os pesquisadores descobriram que as histórias contadas oralmente ao longo dos anos se enquadram em uma espécie de diagrama da vida, similar à utilizada por biólogos para reproduzir a árvore evolutiva das espécies animais.

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O estudo, publicado nesta quinta-feira (14) na revista científica PLoS ONE, foi coordenado pelo antropólogo Jamie Tehrani, que demonstrou que os contos de Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau, por exemplo, possuem uma raiz comum, embora sejam histórias distintas atualmente. “Isso é um pouco como um biólogo mostra que os seres humanos e outros primatas compartilham um ancestral comum, mas evoluíram para espécies distintas”, explica Tehrani.

Segundo ele, a história do lobo em pele de cordeiro provavelmente se originou no século primeiro depois de Cristo, enquanto a de Chapeuzinho Vermelho se consolidou popularmente cerca de mil anos mais tarde. “O Lobo e as crianças”, popular na Europa e no Oriente Médio, trata de um lobo que se faz passar por um cordeiro para devorar as crianças de uma aldeia. Já “Chapeuzinho Vermelho” é sobre um lobo que devora uma jovem depois de passar por sua vó.

Ancestral comum

Variantes dessas histórias são comuns na África e na Ásia, por exemplo, onde o papel do lobo é assumido por um tigre, como no Japão, China e Coréia. “Chapeuzinho Vermelho” foi publicado pelos irmãos Grimm há 200 anos, mas sua versão é baseada em uma história anterior, do século 17, escrita pelo francês Charles Perrault – que por sua vez derivou de contos contados oralmente em antigas tradições na França, Áustria e norte da Itália.

Tehrani e sua equipe submeteram 58 variantes de contos populares a uma análise filogenética, um método mais comumente usado pelos biólogos para agrupar organismos estreitamente relacionados para formar uma árvore de diagrama de vida, mapeando os vários ramos da evolução desde as primeiras formas de vida.

A análise levou em conta 72 variáveis de enredo, tais como o gênero e características do protagonista (homem ou mulher, criança ou um grupo de irmãos), o vilão (lobo, ogro, tigre ou outra criatura), os truques usados pelo vilão para enganar a vítima e, por fim, o desfecho: se a vítima é devorada, escapa por si só ou é resgatada por outro personagem.

A filogenética utilizada, nesse caso, envolveu um processo de modelação matemática que comparou as semelhanças entre as variáveis de trama, estabelecendo pontuações de acordo com a probabilidade de que eles tivessem a mesma origem. Isso permitiu a construção de uma árvore que mostrou os caminhos mais prováveis da evolução das histórias.

Com informações do Phys.org

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  1. jc.pompeu

    15 de novembro de 2013 1:39 am

    contos populares e a história das mentalidades

    O historiador Robert Darnton (1939-), pesquisador de Harvard e Oxford, é especialista em história da França do século XVIII também conhecida como Antigo Regime (os arquivos do Antigo Regime são excepcionalmente ricos e sempre é possível fazer perguntas novas ao material antigo.). Entre outros livros, na chave da história das mentalidades, onde une história e antropologia, ele escreveu o livro de ensaios: O Grande Massacre de Gatos – e outros episódios da história cultural francesa. O primeiro ensaio chama-se: Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. Ele abre o estudo com uma versão do “Chapeuzinho Vermelho” diferente das edulcoradas versões conhecidas de Charles Perrault e dos irmãos Grimm; que é a do conto mais ou menos como era narrado em torno às lareiras, nas cabanas dos camponeses, durante as longas noites de inverno, na França do século XVIII (extraídos de Paul Delarue e Marie-Louise Tenèze, Le Conte populaire français, que oferecem todas as versões recolhidas de cada conto, juntamente com informações retrospectivas de como foram tomados de fontes orais.).

    Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.

    – Para a casa de vovó – ela respondeu.

    – Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?

    – O das agulhas.

    Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.

    Pam, pam.

    – Entre, querida.

    – Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.

    – Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho na copa.

    A menina comeu o que lhe era oferecido, e enquanto o fazia um gatinho disse: “Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”

    Então, o lobo disse:

    – Tire a roupa e deite-se na cama comigo.

    – Onde ponho meu avental?

    – Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

    Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:

    – Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.

    Quando a menina se deitou na cama, disse:

    – Ah, vovò! Como você é peluda!

    – É para me manter mais aquecida, querida.

    – Ah, vovó! Que ombros largos você tem!

    – É para carregar melhor a lenha, querida.

    – Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!

    – É para me coçar melhor, querida.

    – Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!

    – É para comer melhor você, querida.

    E ele a devorou.

    “Qual é a moral dessa história? Para as meninas é clara: afastem-se dos lobos. Para os historiadores, parece dizer algo sobre o universo mental dos camponeses, no inicio dos tempos modernos.” Darnton refuta as exegeses psicanalíticas de “Chapeuzinho Vermelho” feitas por Erich Fromm e Bruno Bettelheim (O psicanalista nos conduz para um universo mental que nunca existiu ou, pelo menos, que não existia antes do advento da psicanálise).

    Os contos populares são documentos históricos. Surgiram ao longo de muitos séculos e sofreram diferentes transformações, em diferentes tradições culturais. Longe de expressarem as imutáveis operações do ser interno do homem, sugerem que as próprias mentalidades mudaram. 

    Não inteiramente, no entanto, porque “Chapeuzinho Vermelho” tem uma aterrorizante irracionalidade, que parece  deslocada na Idade da Razão. Na verdade, a versão dos camponeses ultrapassa a dos psicanalistas, em violência e sexo. (Seguindo os Grimm e Perrault, Fromm e Bettelheim não mencionam o ato de canibalismo com a avó e o strip-tease antes de a menina ser devorada.) Evidentemente, os camponeses não precisavam de um código secreto para falar sobre tabus. 

    As outras histórias de Mamãe Ganso dos camponeses franceses têm as mesmas características de pesadelo. Numa versão primitiva da “Bela Adormecida” (conto do tipo 410), por exemplo, O Príncipe Encantado, que já é casado, viola a princesa e ela tem vários filhos com ele, sem acordar. As crianças, finalmente, quebram o encantamento,  mordendo-a durante a amamentação, e o conto então aborda seu segundo tema: as tentativas da sogra do príncipe, uma ogra, de comer sua prole ilícita. […] Num dos primeiros contos do ciclo de Cinderela (conto do tipo 510B), a heroína torna-se empregada doméstica, a fim de impedir o pai de forçá-la a se casar com ele. Em outro, a madrasta ruim tenta empurrá-la para dentro de um fogão, mas incinera, por engano, uma das mesquinhas irmãs postiças. Em “João e Maria” (“Hansel e Gretel”, conto do tipo 327), na versão dos camponeses franceses, o herói engana um ogro fazendo-o cortar a garganta de seus próprios filhos. Um marido devora uma sucessão de recém-casadas, no leito conjugal, em “La Belle et le monstre” (conto do tipo 433), uma das centenas de contos que jamais chegaram a ser incluídos nas versões publicadas de Mamãe Ganso. Num conto mais desagradável, “Les trois chiens” (conto do tipo 315), uma irmã mata seu irmão escondendo grandes pregos no colchão de seu leito conjugal. No conto mais maligno de todos, “Ma mère m’a tué, mon père m’ a mange” (conto do tipo 720), uma mãe faz do filho picadinho e o cozinha, preparando uma caçarola à lionesa, que sua filha serve ao pai. E por aí vai, do estupro e da sodomia ao incesto e ao canibalismo. Longe de ocultar sua mensagem com símbolos, os contadores de histórias do século XVIII, na França, retratavam um mundo de brutalidade nua e crua.  […]

    Comer ou não comer, eis a questão com que os camponeses se defrontavam em seu folclore, bem como em seu cotidiano. […] A subnutrição e o abandono dos filhos pelos pais estão juntos em vários contos, […] A procura por comida pode ser encontrada em quase todos eles, mesmo em Perrault, na qual aparece sob forma burlesca, em “Os desejos ridículos”. […] O desejo habitualmente é por comida, nos contos dos camponeses, e jamais é ridículo. […] Comer até se encher, comer até a exaustão do apetite, era o principal prazer que tentava a imaginação dos camponeses e que eles raramente realizavam em suas vidas. […] Na maioria dos contos, a satisfação dos desejos se torna um programa para a sobrevivência, não uma fantasia ou uma fuga. Apesar de ocasionais toques de fantasia, portanto, os contos permanecem enraizados no mundo real. […] As famílias dos camponeses não podiam sobreviver, no Antigo Regime, a menos que todos trabalhassem, e trabalhassem juntos, como uma unidade econômica. Os contos populares mostram, constantemente, pais trabalhando nos campos, enquanto os filhos recolhem madeira, guardam as ovelhas, pegam água, tecem a lã, ou mendigam. Longe de condenarem a exploração do trabalho infantil, ficam indignados quando não ocorre. Em “Les Trois Fileuses” (conto do tipo 501), um pai decide livrar-se de sua filha porque “ela comia mas não trabalhava”. […] Os contos, inevitavelmente, colocam esposas de camponeses junto à roda de fiar, depois de um dia cuidando do gado, carregando lenha ou ceifando feno. […] E, mesmo o casamento representando a aceitação de uma nova carga de trabalho e o novo perigo do parto, a moça pobre precisava de um dote para casar-se – a não ser que ficasse com um sapo, um corvo ou alguma besta horrenda. Os animais nem sempre se transformam em príncipes, embora essa fosse uma forma comum de escapismo. […]

    Os narradores camponeses abordavam os mesmos temas e lhes faziam modificações características, os franceses de uma maneira, os alemães de outra. Enquanto os contos franceses tendem a ser realistas, grosseiros, libidinosos e cômicos, os alemães partem para o sobrenatural, o poético, o exótico e o violento. Naturalmente, as diferenças culturais não podem ser reduzidas a uma fórmula – astúcia francesa contra crueldade alemã – , mas as comparações possibilitam que se identifique o tom peculiar que os franceses davam às suas histórias; e a maneira como eles contam histórias fornece pistas quanto à sua maneira de encarar o mundo. […]

    Sem fazer pregações nem dar lições de moral, os contos franceses demonstram que o mundo é duro e perigoso. […]  Não há lógica alguma nesse universo. Os desastres ocorrem de maneira casual. Como a Peste Negra, não podem ser previstos nem explicados, devem ser, simplesmente, suportados. Mais da metade das 35 versões registradas de “Chapeuzinho Vermelho” terminam como a versão contada antes, com o lobo devorando a menina. Ela nada fizera para merecer esse destino; porque, nos contos camponeses, ao contrário dos contos de Perrault e dos irmãos Grimm, não desobedece a sua mãe nem deixa de ler os letreiros de uma ordem moral implícita, escritos no mundo que a rodeia. Ela, simplesmente, caminhou para dentro das mandíbulas da morte. E a natureza inescrutável e inexorável de calamidade que torna os contos tão comoventes, e não os finais felizes que eles, com frequência, adquirem, depois do século XVIII.

    Como nenhuma moral discernível governa o mundo em geral, o bom comportamento não determina o sucesso, seja na aldeia ou na estrada, pelo menos nos contos franceses, em que a esperteza toma o lugar do pietismo dos alemães. […] Os contos não advogam a imoralidade, mas desmentem a noção de que a virtude será recompensada ou de que a vida pode ser conduzida por qualquer outro princípio que não uma desconfiança básica. […]

    Os contos franceses não mostram nenhuma simpatia por idiotas da vida ou pela estupidez sob qualquer forma, inclusive a dos lobos e ogres que não conseguem comer suas vítimas imediatamente (contos do tipo 112D e 162). A estupidez representa a antítese da velhacaria; sintetiza o pecado da simplicidade, um pecado mortal, porque a ingenuidade, num mundo de vigaristas, é um convite ao desastre. Os herois estúpidos dos contos franceses são, portanto, falsos estúpidos, como Petit Poucet e Crampouès (contos do tipo 327 e 569), que fingem ser estúpidos para conseguir manipular melhor um mundo cruel, mas crédulo. Chapeuzinho Vermelho – sem o capuz vermelho – usa a mesma estratégia nas versões do conto francês, em que ela escapa viva. “Tenho de me aliviar, vovó”, diz ela, quando o lobo a agarra. “Faça na cama mesmo, querida”, responde o lobo. Mas a menina insiste e então o lobo lhe permite ir lá fora, amarrada numa corda. A menina amarra a corda numa árvore e foge, enquanto o lobo puxa e chama, sem mais paciência para esperar. “O que é que você está fazendo, cagando uma corda?” Na verdade, à maneira gaulesa, o conto narra a educação de uma velhaca. Passando de um estado de inocência para outro de falsa ingenuidade, Chapeuzinho Vermelho vai para a companhia do Pequeno Polegar e do Gato de Botas.”

    O Grande Massacre de Gatos – e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton. Tradução de Sonia Coutinho. Editora Graal, 2011.

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