4 de junho de 2026

Classificações de risco ideológicas, por Paul Krugman

Por maurobrasil

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Abaixo minha tradução de um artigo de hoje do Paul Krugman sobre o rebaixamento da França pela S&P.

Do NYT

Classificações de risco ideológicas

Paul Krugman

Então a S&P rebaixou a França. E o que isso nos diz?

A resposta é: não muito sobre a França.  Não pode ser subestimado que as agências de classificação de risco não têm, repetindo não têm, informações privilegiadas sobre solvência nacional – especialmente de grandes países como a França. A S&P tem informações privilegiadas sobre a situação das finanças francesas? Não. Será que ela tem um melhor modelo macroeconômico do que, digamos, o FMI – ou, para o que é relevante, do que qualquer um dos homens e mulheres que estão nesta sala de conferências do FMI comigo? Você deve estar brincando.

Então sobre o que estamos tratando? Eu acho útil comparar as projeções do FMI para a França com as de outro país que ultimamente vem recebendo boas menções das agências, o Reino Unido. Os gráficos abaixo são do banco de dados do WEO – dados reais até 2012 e projeções do FMI até 2018.

Em primeiro lugar, o PIB real per capita:


Assim, a França teve desempenho melhor do que o Reino Unido até agora, e o FMI espera que essa vantagem deve persistir.

Em seguida, a dívida em relação ao PIB:

A França está um pouco menos endividada, e o FMI espera que esta diferença deve se ampliar um pouco.

Então porque é que França foi rebaixada? Porque, afirma a S&P, ela não realizou as reformas que irão melhorar suas perspectivas de crescimento a médio prazo. O que significa isso?

OK, outro segredinho sujo. O que é que nós sabemos – realmente sabemos – sobre quais reformas econômicas vão gerar crescimento e quanto crescimento elas vão gerar ? A resposta é: não muito! Pessoas em lugares como a Comissão Europeia falam com grande confiança sobre as reformas estruturais e as coisas maravilhosas que elas realizam, mas há muito pouca evidência clara para sustentar essa confiança. Será que alguém realmente sabe se as políticas de Hollande vão significar um crescimento que é x.x por cento – ou, mais provavelmente, 0.x por cento – mais lento do que seria se Olli Rehn fosse colocado no comando ? Não.

Então, mais uma vez, de onde vem isso?

Sinto muito, mas eu acho que quando a S&P reclama sobre a falta de reformas, ela está de fato reclamando é que Hollande está aumentando, e não reduzindo os impostos sobre os ricos, e que ele não é suficientemente pro-mercado de modo a satisfazer o pessoal de Davos. Lembre-se que, uns dois meses atrás, Olli Rehn reprovou o ajuste fiscal da França – que foi realmente exemplar – porque os franceses, inaceitavelmente, estão aumentando os impostos ao invés de cortar os programas socias.

Assim como a conversa sobre austeridade não é realmente sobre a responsabilidade fiscal, a pressão por “reforma estrutural” não é realmente sobre o crescimento. Em ambos os casos, é principalmente sobre o desmantelamento do estado de bem-estar.

A S&P pode não estar participando deste jogo de uma forma totalmente consciente. Quando você circula nesses ambientes, as coisas que na verdade ninguém sabe tornam-se parte do que todo mundo sabe. Mas não encare este rebaixamento como uma demonstração de que há algo de muito podre no reino da França. Isso tem muito mais a ver com ideologia do que com uma análise econômica defensável.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. sergio m pinto

    8 de novembro de 2013 8:18 pm

    E não foram essa e outras

    E não foram essa e outras “agências de risco” que deram notas ótimas para os derivativos em 2008? O pior é que eles logo, logo, vão assestar suas baterias em direção ao Brasil e isso interessa a muita gente boa que não vence eleições. Quem viver, verá.

  2. Celio Mendes

    8 de novembro de 2013 8:42 pm

     
    Krugman ainda acredita na

     

    Krugman ainda acredita na possibilidade das agência participarem do jogo de forma inconsciente, depois de assistir o documentário Trabalho Interno eu já abandonei essa ilusão.

  3. Snaporaz

    8 de novembro de 2013 9:35 pm

    Bão, o que  era  certeza já

    Bão, o que  era  certeza já não há dúvidas.  As  agências  classificadoras  são o braço  politico-econômico(redundância),dos países centrais ,particularmente, o  Tio e   alguns  sobrinhos  selecionados.

    Os EUA,   pelas estrepolias  que   executaram  levando o mundo à quase  bancarrota e enriquecendo quem já não tinha  mais onde    armazenar a grana, sofreram,modo de dizer, uma  suave advertência. Continuam,com seu sistema  financeiro sem controle e supervisão, lembram  a Associação Nacional do Rifle,entidade  tão  poderosa   quanto o  FED. Ambas com poder deletério…

  4. Clever Mendes de Oliveira

    8 de novembro de 2013 10:17 pm

    Um Paul Krugman excelente que só ele supera

     

    Maurobrasil,

    Muito boa a sua tradução. Não que eu tenha conhecimento de inglês para julgar tradução, mas ficou muito compreensível em português. E sua tradução foi boa também pela oportunidade. E melhor ainda quando se sabe que seu comentário com a indicação deste artigo de Paul Krugman “Classificações de risco ideológicas” e que se transformou neste post “Classificações de risco ideológicas, por Paul Krugman” de sexta-feira, 08/11/2013 às 16:46, foi enviado originariamente para o post “O fato e o boato da economia” de sexta-feira, 08/11/2013 às 06:00, onde o artigo de Paul Krugman veio bem a calhar. No post “O fato e o boato da economia” Luis Nassif optou por aproveitar a oportunidade para dirigir os ataques dele não só aos analistas da nossa economia, mas também ao ministro da Fazenda e ao Secretário do Tesouro. O endereço do post “O fato e o boato da economia” é:

    https://jornalggn.com.br/noticia/o-fato-e-o-boato-da-economia

    E neste artigo Paul Krugman é implacável. E não só com as agências de risco. É um post bom para ser mencionado toda vez que se ouvir falar em reformas.

    Parece que Paul Krugman está em um Seminário no FMI. Não sei como ele fez o texto, mas me deixou a impressão de que ele estava dialogando com a plateia.

    Recentemente, quarta-feira, 30/10/2013 às 08:58 am, Brad DeLong fez um post com o seguinte título “Paul Krugman Is Tired of Trying to Reason with You People: John Taylor’s Award-Winning Paragraphs: Noted” O endereço é o que se segue:

    http://delong.typepad.com/sdj/2013/10/paul-krugman-is-tired-of-trying-to-reason-with-you-people-john-taylors-award-winning-paragraphs-noted.html

    Lá há uma foto montagem de Paul Krugman e a transcrição de artigo de Paul Krugman com críticas a John Taylor. A idéia da fotomontagem é mostrar o Paul Krugman como o cara que não tem piedade com as conversas ocas. Vendo este artigo dele “Classificações de risco ideológicas” vê-se razão na analogia que Brad DeLong fizera.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 08/11/2013

     

     

    1. maurobrasil

      9 de novembro de 2013 1:08 pm

      Valeu, Clever!

      Muito obrigado, Clever!

      Vale a pena acompanhar o blog do Paul Krugman, pela clareza de suas argumentações, recheadas de gráficos e dados sobre a economia real, e por sua defesa vigorosa do estado de bem estar social.

  5. Henrique Santos

    9 de novembro de 2013 4:59 am

    É uma hora a Nova Ordem

    É uma hora a Nova Ordem Mercantilista não possuirá mais defesas contra o multicuturalismo vertido pelo mundo digital.

     

    É chegada a hora da “primavera” do mercado.

     

    Torço para que a crise de 2008 aos poucos enterre o capital antes do trabalho. Mundo conectado é mundo livre! Com razão dos seus medos espionam tudo e a todos.

     

    Os inimigos nunca foram os estados e sim o que gira a economia dentro do mesmo, e quem tenta atrapalhar a onipresente dominação econômica não importando o preço a pagar.

  6. Lucinei

    9 de novembro de 2013 2:44 pm

    Ativismo político

    Isso está longe de ser ciência econômica. É coisa de quem sabe comprar barato e vender caro, só isso. O resto é ideologia.

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