“As propostas de currículo escolar na perspectiva da Educação Integral”. A questão conduziu o debate realizado pelo Cenpec e Fundação Itaú Social nesta quarta-feira, 23 de outubro. Mediado por Maria Amábile Mansutti, coordenadora técnica do Cenpec, o encontro contou com os discursos de Paula Lozano, pedagoga e pesquisadora do Cenpec nas áreas de formação de professores, materiais e práticas de ensino, política educacional comparada e avaliação, e Lucia Couto, pedagoga e coordenadora geral de Ensino Fundamental no Ministério da Educação (MEC) em 2012.
De maneira geral, para as especialistas, a consolidação de um currículo escolar que dialogue com a proposta da Educação Integral retoma necessariamente a discussão sobre a política curricular brasileira e a estruturação de uma base curricular nacional. Para Paula, o Brasil ainda se preocupa mais com o “como ensinar” sem ter clareza “do que ensinar”, o que garante uma condição de desigualdade em detrimento da equidade educacional. A especialista citou a Finlândia, país localizado ao norte europeu, como exemplo e citou que, ao conseguir detalhar o que compõe a sua base curricular, o país foi capaz de dar autonomia às escolas e à atuação dos professores, por estarem cientes das diretrizes a serem seguidas.
Lucia, por sua vez, pontuou que, no Brasil, a discussão sobre educação integral ainda é artesanal. Para a especialista, a escola não cumpriu a sua agenda dos séculos XVIII e XIX e, portanto, para alcançar um patamar que inclua novas dimensões que não só as cognitivas, deve propor questionamentos que superem uma visão arquitetônica. Isso diz respeito, segundo Lucia, às escolas reconhecerem o seu papel na comunidade e também considerarem a colaboração de outros atores. “Nesse momento, vamos reinventar, ressignificar, sair das escolas. E é aí que surgem as grandes experiências”, pontuou a pedagoga.
A discussão também considerou a diferença entre os conteúdos dos currículos atuais com aquele que converge para a Educação Integral. Para Lucia, a diferença vai para além de uma questão metodológica, já que se fala de um rol de conhecimentos na integralidade do indivíduo, ou seja, conhecimentos que dialoguem coma sua dimensão ética, estética, afetiva, entre outras. A profissional reforçou que a metodologia é importante se avaliada do ponto de vista do conhecimento e sua construção. Paula considerou a necessidade de se ir além dos aspectos cognitivos e somar aos conteúdos os valores que se pretende compartilhar.
O encontro ainda abordou possíveis caminhos e estratégias para a consolidação de políticas públicas que embasem a educação integral. Lucia, que também foi secretária de educação em Diadema, explicou que um dos caminhos é estruturar uma rede que aceite extrapolar as discussões atuais, centradas nas unidades, para um cenário coletivo. “A escola, por exemplo, precisa contar com o apoio de seus agentes – pais, gestores e comunidade – para elaborar essa estrutura”. Também foi considerado o trabalho que deve ser desenvolvido com os professores para que eles deem conta dessa nova demanda.
Para Paula, a necessidade de se ter acesso a uma base nacional curricular comum é tão importante quanto estruturar políticas de formação aos professores. “Essas ações precisam acontecer de maneira paralela”, reforçou. Ainda de acordo com a especialista, de nada adianta promover discussões sobre áreas do conhecimento para profissionais que conhecem a ciência de maneira ‘fatiada’.
Isso diz respeito, segundo as especialistas, à lógica da educação brasileira atual, que é pautada pelos sistemas nacionais de avaliação. O caminho, segundo Paula e Lucia, deve ser o inverso e, nesse sentido, a consolidação de uma base curricular nacional pode ampliar as discussões. As especialistas concordam que essa estruturação também diz respeito a um olhar atento para a comunidade, com o intuito de aumentar os diagnósticos e a capacidade de escuta social, hoje práticas que quase não existem.
Janelas x Espelhos
“A Educação Integral tem que ceder janelas para a sociedade e não espelhos”, afirma Lucia Couto, destacando que – ao usar janelas – as pessoas olham para o coletivo e para o entorno no lugar de olharem apenas para si próprias.
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