4 de junho de 2026

Democracia e parceria; por Luiz Inácio Lula da Silva

São gravíssimos os atos de espionagem praticados pela NSA – a Agência Nacional de Segurança dos EUA – contra os Chefes de Estado do Brasil e do México. Nada, absolutamente nada pode justificar a interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos, ferindo a sua soberania e desrespeitando os princípios mais elementares da legalidade internacional. E é mais grave ainda que importantes autoridades norte-americanas tenham querido legitimar tal agressão com o argumento de que os EUA estariam “protegendo” os interesses dos nossos países.

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À medida que a verdade dos fatos vai sendo revelada, fica evidente que, no caso brasileiro, além da Presidente Dilma Rousseff, a Petrobrás, nossa empresa petrolífera, também foi espionada pela NSA, o que desmente as alegadas – e já por si inaceitáveis – razões de segurança.

A inadmissível ingerência nos assuntos internos do Brasil e as falsas razões alegadas provocaram a indignação da sociedade e do governo brasileiros. A Presidente Dilma Rousseff já questionou diretamente o Presidente Barack Obama sobre o problema e aguarda uma resposta convincente, à altura de sua gravidade.

O governo brasileiro está tratando o caso com a maturidade e o sentido de responsabilidade que caracterizam a Presidente Dilma Rousseff e a nossa diplomacia – mas é impossível subestimar o impacto que ele pode ter, se não for adequadamente resolvido, para as relações Brasil-EUA.


Basta imaginar o escândalo e a comoção que aconteceriam nos Estados Unidos se algum país amigo interceptasse ilegalmente, sob qualquer pretexto, os telefonemas e a correspondência reservada de seu Presidente.

O que leva um país como os EUA, tão justamente ciosos de sua democracia e de sua legalidade internas, a afrontarem a democracia e a legalidade dos outros? O que faz pensar às autoridades norte-americanas que elas podem e principalmente devem agir de modo tão insensato contra um país amigo? O que as faz acreditar que não existe nenhum inconveniente moral ou político em desrespeitar o Chefe de Estado, as instituições e as empresas do Brasil ou de qualquer outro país democrático?

E o mais inexplicável é que essa flagrante ofensa à soberania e à democracia brasileiras acontece num contexto de excelentes relações bilaterais. O Brasil, historicamente, sempre valorizou as suas relações com os Estados Unidos. Nos últimos dez anos, trabalhamos ativamente, e com bons resultados, para ampliar ainda mais a interação econômica e política do Brasil com os EUA.  Mantivemos ótimo diálogo institucional e pessoal com os seus governantes. Apostamos em uma parceria de fato estratégica entre os dois países, baseada em interesses comuns, sem prejuízo do nosso esforço pela integração da América Latina e de um maior intercambio com a África, a Europa e a Ásia.

Para isso, não hesitamos em enfrentar a desconfiança e o ceticismo de amplos setores da opinião pública brasileira, ainda traumatizados pela participação direta do governo norte-americano no golpe de Estado de 1964 e o seu permanente apoio à ditadura militar (como, de resto, a outras ditaduras militares do continente). Nunca duvidamos de que aprofundar o diálogo e fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com os Estados Unidos fosse a melhor maneira de ajudá-los a superarem aquela página sombria das relações interamericanas, e a sua política de ingerência autoritária e antipopular na região.

No episódio atual, se ambos os países querem preservar o muito que as nossas relações bilaterais avançaram nas décadas recentes, cabe uma explicação crível e o necessário pedido de desculpas dos EUA. Mais do que isso: impõe-se a sua decidida mudança de atitude, pondo fim a tais práticas abusivas.

 Os EUA devem compreender que a desejável parceria estratégica entre os dois países não pode assentar-se na atitude conspirativa de uma das partes. Condutas ilegais e desrespeitosas certamente não contribuem para construir uma confiança duradoura entre os nossos povos e os nossos governos.

Um episódio como esse, por outro lado, demonstra o esgotamento da atual governança mundial, cujas instituições, regras e decisões são frequentemente atropeladas por países que muitas vezes confundem seus interesses particulares com os interesses de toda a comunidade internacional. Demonstra que é mais urgente do que nunca superar o unilateralismo, seja ele dos EUA ou de qualquer outro país, e criar verdadeiras instituições multilaterais, capazes de conduzir o planeta com base nos preceitos do Direito Internacional e não na lei dos mais fortes.

O mundo de hoje, como ninguém ignora, é muito diferente daquele que emergiu da 2ª Guerra Mundial. Além da descolonização africana e asiática, diversos países do sul se modernizaram e industrializaram, conquistando importantes progressos sociais, culturais e tecnológicos. Com isso, adquiriam um peso muito superior no cenário mundial. Hoje, os países que não fazem parte do G-8 representam nada menos que 70% da população e 60% da economia do mundo. Mas a ordem política global continua tão monopolizada e restritiva quanto no inicio da guerra fria. A maioria dos países do mundo está excluída dos verdadeiros espaços de decisão. É injustificável, por exemplo, que a África e a América Latina não tenham nenhum membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou que a Índia esteja fora dele. A governança global precisa refletir o mundo contemporâneo. O Conselho de Segurança só será plenamente legítimo e democrático – e acatado por todos – quando as várias regiões do mundo participarem dele, e os seus membros não defenderem apenas os próprios interesses geopolíticos e econômicos, mas representarem efetivamente o anseio de todos os povos pela paz, a democracia e o desenvolvimento.

Esse episódio e outros semelhantes apontam também para uma questão crucial: a necessidade de uma governança democrática para a internet, de modo que ela seja cada vez mais um terreno de liberdade, criatividade e cooperação – e não de espionagem.

Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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4 Comentários
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  1. Raí

    26 de setembro de 2013 1:49 pm

    Têxto de um Estadista.

    Foi preciso este (quase)incidente diplomático internacional, para que alguem demonstrasse ser antes de tudo, corajoso, e amais do que isso, Estadista, para “peitar” através desta declaração, a uma nação, que mesmo sendo nossa parceira comercial e diplomática, usa de subtefúrgios inaceitáveis, nas suas relações com os países amigos, porem não cumpre o que determina a ONU, para os países-membros: o respeito à soberania e a independencia, sendo absolutamente inaceitável, a invasão da privacidade das empresas e das ações governamentais, de seus líderes.

    1. armando botelho

      26 de setembro de 2013 6:47 pm

      Caro Rai , concordo em parte

      Caro Rai , concordo em parte contigo mas em termos de estadista fica uma certa dúvida , pois o país sente a falta justamenrte desta figura que vislumbra o futuro , o chamado estadista pois a prova esta ai com nossos baixos índices de IDE e IDH , estamos na rabeira do mundo .

      Um estadista é justamente o que precisamos para investir na educação na infraestrutura principalmente , pois o nosso progresso fica retido nas péssimas estradas , portos e no estrangulamento das grandes cidades com um trânsito caótico . A rodovia 262 que liga Minas ao Espírito Santo de a muito necessita da terceira pista e agora no leilão nenhuma empreiteira se interessou devido principalmente a burocrácia governamental.

      Agora quanto a espionagem Americana , isso me pareceu mais um oportunismo ideologíco do PT , que sempre viu nos Americanos nosso maior inimigo  e prefere prestigiar paises como Cuba, Venezuela , Bolívia , Irã , Coreia comunista que na verdade não são exemplos de democrácia .

       Fica a lição do investimento que não foi feito na nossa defesa cibernética pois estamos atrasado tambem neste item. 

  2. armando botelho

    26 de setembro de 2013 3:01 pm

    Ate o presente momento o que

    Ate o presente momento o que se sabe é que um desertor e porque não dizer traidor , aborrecido com seu país saiu mundo afora deitando falação , fica o impasse : Acreditar num traidor e consequentemente jogar na lama o relacionamento com o nosso maior parceiro comercial , ou procurar investigar a verdade da delação .

    O mais importante é a lição de que estamos no jardim da infancia do dominío da tecnologia da informação e enfim da informática e oque melhor podemos fazer é investir alto nas nossas universidades para dominar esta que é a ciência da hora e mais ainda, do futuro e assim não ficar chorando o leite derramado.

    Podemos e devemos investir mais em educação e o estado Brasileiro com a penalisação de altos impostos ao povo deve reverter este capital na formação de nossos jovens coisa que nos últimos dez anos pouco foi feito.

    1. Oscar M

      26 de setembro de 2013 9:56 pm

      Traidor ou herói?

      Cada um, cada qual, eu vejo o sujeito como um herói. No meu entender, quem merece a pecha de traidor,  e que jogou na lama o relacionamento com um país do qual se diz amigo e parceiro, é o Obama!

      Mas concordo com você, nossa saída está na educação. E educação de qualidade, não só para ensinar o básico, como uso de vírgulas, ou o que é escrito com “S” ou “Z”, mas para dar compreensão de texto suficiente, para que nossos jovens não sejam massa de manobra.

      Oscar Müller

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