
Quando tomou conhecimento de que mais de metade dos gastos públicos brasileiros no ano vão para o pagamento de juros e as amortizações da dívida pública, e que a dívida pública cresce na proporção direta do alto juro que o próprio governo fixa; Simplício pensou seriamente em mudar de armas e bagagens para a oposição. Foi o professor Galileu quem o aconselhou a ter paciência. Afinal, disse Galileu, esse tipo de assalto vem de longe. E nenhum dos grandes partidos escapa da responsabilidade pela sangria financeira contra a nação.
Por indicação de Galileu, Simplício foi procurar em Belo Horizonte Maria Lúcia Fatorelli, a maior especialista em dívida de governo e batalhadora pela auditoria da dívida externa. Ela fez um trabalho nesse campo para o Equador, pelo que passou a ser objeto de grande ódio por banqueiros, financistas e especuladores. No Brasil, conforme contou a Simplício, descobriu-se que havíamos pago várias vezes nossa dívida pública graças à especial indigência de nossos negociadores e a pressa com que gente como Malan teve para fechar acordos espúrios ao agrado da comunidade financeira.
Simplício, que diferentemente do procurador Gurgel não queria fazer denúncias infundadas, perguntou a Fatorelli se ela tinha provas.
— Tenho sim! — disse ela — Já mostrei no Congresso. Mas são números complicados. Para você tirar uma conclusão rápida basta ver o que aconteceu no mundo após a crise de 2008. Nos EUA, bancos como o City e o Bank of America pagaram, cada um, multas de mais de US$ 20 bilhões por conta de fraudes com hipotecas. A própria Libor, taxa que regula empréstimos internacionais, foi fraudada por alguns bancos causando prejuízos bilionários. Acha que seria diferente com o Brasil?”
— E eu que pensava que banqueiro, por tratar com dinheiro do público, era fundamentalmente honesto! — murmurou Simplício.
— Fala sério. Você não lembra quando Brizola falava das perdas internacionais? Estão aí. O mais grave, porém, não é o desejo deles de nos assaltar. É o fato de que têm cúmplices aqui dentro, alguns por dinheiro, outros por ideologia. O resultado é o mesmo.
— A senhora acha que a Presidenta sabe dessas coisas? — perguntou timidamente Simplício.
— Não sei, disse Fatorelli. Se ela tivesse terminado o mestrado de Economia em Campinas, onde essas coisas são discutidas, talvez soubesse. Mas você não pode subestimar o fato de que assuntos como este, a reforma agrária, a política monetária e a política fiscal são muito incômodos porque refletem agudos conflitos de interesse e de poder. As pessoas preferem passar longe deles para não se comprometerem. Ou seja, querem fazer acordos!
— A senhora está insinuando que a Presidenta ou não sabe, ou é omissa, ou é a favor…
— Não ponha palavras na minha boca, Simplício.
Simplício, constrangido, escreveu na agenda vermelha: “O que é, é!”
Lá fora, havia uma grande manifestação pelo dia nacional de luta, o que o deixou confuso, pois não entendia contra quem era a luta. Não se falava em juros ou em dívida externa. E refletiu: “A Presidenta, após dar ao Congresso terapia ocupacional de curto prazo com a ideia de plebiscito, vai acabar criando o Ministério das Manifestações para cooptar os jovens e apaziguar os ânimos. Mas terá que se ver com os prefeitos que a vaiaram, algo que tratarei de investigar em Brasília”.
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