Kleber Vinicius
Em texto reproduzido na edição de hoje (01/09), O Globo faz reconhecimento de um erro histórico: o apoio ao Golpe de 64. Escrito assim mesmo, adicionado de “militar” entre “golpe” e “64″.
Na internet desde ontem, encontrado no site memoriaoglobo.com.br, o texto (clichê nº 1) vem causando polêmica nas redes sociais. Alguns enaltecem a postura do jornal, outros veem como desfaçatez, engodo. Modestamente, acho que tem um pouco dos dois.
No pequeno texto de introdução, O Globo cita as manifestações de junho e o já célebre grito “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura.” E pra mim esse já “o” grande reconhecimento. A rua já sabe de tudo, não adianta virar o rosto.
O texto, não assinado, pede atenção ao contexto da época e cita a adesão dos outros jornais no apoio. Conclui daí que, na verdade, o Golpe seria quase um contragolpe contra as reformas de base “na lei ou na marra” propostas por Jango. Isso nos faz entender posicionamentos dos dias atuais, inclusive.
Porque o texto fala da vitória de Jango no plebiscito que lhe devolve os poderes presidenciais, que poderia resultar na “república sindical” de Goulart. Delírios à parte, em 2013 a gritaria contra o plebiscito proposto por Dilma para a reforma política é a mesma. Medo do povo, em resumo.
Fala em apoio de “parcela importante da população”, expresso em passeatas no Rio, São Paulo e outras capitais. Marchas com Deus Pelas Famílias, Tradições, Propriedades e Mais 800 Territórios à Sua Escolha. Parcela importante pra quem lhe dava importância: a elite.
A meu ver, o texto defende a “honestidade intelectual” de Roberto Marinho, que acreditaria piamente ser o apoio ao Golpe o melhor caminho.
Sim, Roberto Marinho, maior dos Barões Midiáticos, com poderes extraordinários, influência, conhecimento e autoridade jamais vistos em qualquer outro magnata das comunicações (talvez Hearst), teria sido levado na conversa pelos milicos.
Caiu no conto da caserna de que o Golpe acalmaria os impulsos revolucionários (baderneiros ?) da esquerda, para depois devolver a ordem democrática à sociedade civil.
Marinho teria sido levado pelos acontecimentos, e não teria outra alternativa senão, com uma pungente dor no coração, dar sustentação a este doloroso, porém necessário, corte na carne da democracia nacional. Que seria momentânea, acreditava o ingênuo.
Como diz um amigo meu: menas.
Reconhecer que foi um erro apoiar o Golpe é um acerto, por mais óbvio que isso seja. Justificar o erro botando a culpa no resto do Universo, é cara-de-pau pura e simples.
A segunda metade do texto faz uma defesa desabrida de Roberto Marinho. Que defendeu jornalistas comunistas (?), que apoiou a posse de Juscelino, que foi contra o Estado Novo, que sempre esteve ao lado da legalidade.
Todos episódios questionáveis, e cada um deles dá um texto separado.
Inquestionável é a certeza de que em momentos de crise e “rupturas institucionais” (termo cunhado no texto), a única instituição a ser defendida é a democracia. Que consiste, grosso modo, em respeitar a decisão do povo.
Em 88 anos de existência, O Globo jamais refletiu em suas páginas os anseios do povo. Sempre manteve uma visão vertical, de cima pra baixo. Quando propõe algo, é quase como uma ordem. Um tutor guiando o tutelado inepto.
Esse abismo se mantém. As jornadas de junho, como dito no início, mostraram isso. A mudança do discurso repentina, de condenação a aprovação das manifestações, em 24 horas, soou como uma tentativa de pegar o bonde que já ia embora. De recuperar o tempo perdido. Tarde demais.
Talvez os Marinhos-filhos, percebendo a nova toada no mundo das comunicações, queiram dar uma limpada na barra do passado e construir algo novo daqui pra frente, seja lá o que for. Difícil acreditar. Mais ainda saber.
O “News of the World”, de Murdoch, teve atitude mais digna. Fechou.
Alguns discordarão. Mas um erro dessa magnitude (apoiar um Golpe de Estado) é compatível com a ideia que se faz da mídia como um dos sustentáculos da democracia ?
O reconhecimento do erro não soou como desculpa. Soou como um: “Ok, erramos. Parem de encher o saco, agora.” Uma humilde arrogância.
Uma meia culpa. A outra metade seria dos fatos.
Cafezá
3 de setembro de 2013 1:44 pmcomentários do LNO
Esse post tinha comentários lá no Luis Nassif Online. Eles ainda virão para cá?
Cesar A
5 de setembro de 2013 4:08 pmQuem se deu ao trabalho de
Quem se deu ao trabalho de ler o editorial do O Globo e ao mesmo tempo vivenciou algum daqueles momentos deve ter tido vontade re rasgar o jornal e/ou morrer de rir com aquele monte de bobagens… eu por exemplo acompanhei de perto do escandalo da proconsult, havia sim uma manipulação de divulgação feita pela globo para apoiar o golpe das apurações, os fiscais e o esquema de apuração paralela do do PDT e a independencia dos outros meios de comunicação é que desmascararam o golpe, a globo inclusive tentou insistir, mas quando começou a dar desculpas para os resultados muito diferentes colocou a carapuça… aliais o esquema da globo com o ibope durante anos manipulou pesquisas, o datafolha dava resultados mais precisos, acho que tentando juntar “capital de credibilidade” para o momento certo, que acabou nunca acontecendo…
Gilson Raslan
7 de setembro de 2013 10:10 pmPARCELA IMPORTANTE DA POPULAÇÃO (kkkkkkk)
A tal “parcela importante da população”, a que o mea culpa da Globo se refere, expresso em passeatas no Rio, São Paulo e outras capitais, foi encorajada, apoiada e dirigida por Roberto Marinho e seus miquinhos amestrados. O Roberto Marinho cria um fato e apoia o golpe em decorrência de fatos que ele criou
Agora vêm os FILHOS DE ROBERTO MARINHO (eles não têm nome, segundo PHA) justificar o apoio ao golpe e aos governos militares em fatos que seu pai criou. Essa justificativa só cola para quem tem cécebro de minhoca, ou eles (os filhos do roberto marinho) acham que somos todos idiotas?
dinarte22
8 de setembro de 2013 3:56 pmGlobo e o novo Brasil
Se alguem enganou alguem, foi Bob roberto Marinho que no final enganou os ditadores. Os milicos precisavam de uma rede nacional de TV. O pucha sacos de maior competencia, e sua Globo, estavam ali para servir. E ficaram triliardarios. E com um poder poucas vezes visto. O antologico “Beyond Cityzen Kane” da BBC de Londres, mostra o Bob Marinho em sua real dimensao. A ditadura acabou. A Globo não.
Estao apavorados, com a perspectiva de imensos prejuizos, pois sua imagem esta cada vez mais comprometida com os anos de chumbo. Nao da mais para esconder. Mesmo os idiotizados por tanto tempo assistindo a venus platinada, percebem que a Globo no fim das contas lhes traz prejuizos. A cultura Global liga esse mecanismo: nao posso ter prejuizo.
E a sequencia sera a perda de patrocinadores. Os negocios começam a desgringolar. Vao perder mercado. E perder dinheiro. O que em sua logica, é pecado mortal.