Sugerido por Assis Ribeiro
Do Correio Braziliense
Severino Francisco
Há algum tempo, uma famosa empresa de informática veiculou um anúncio que mostrava como os recursos virtuais estavam tornando as cidades mais inteligentes. Claro que a tecnologia pode melhorar as nossas vidas; já imaginaram as nossas vias sem semáforos? Mas quanto à afirmação de que as nossas cidades estão mais inteligentes, tenho lá as minhas dúvidas de pedestre, usuário de ônibus, especialista em insegurança e leitor de jornais. Os exemplos de desinteligência pululam.
Examinemos a situação do transporte público. Em Brasília, durante décadas, assistimos a área ser dominada por empresários que pareciam mandar mais do que os governadores. Colocavam para servir à população ônibus caindo aos pedaços, enquanto exibiam fazendas com viadutos, helicópteros e lanchas importadas.
O resultado dessa política de transportes (associada ao estímulo do financiamento de carros) está nas ruas: trânsito lento, estacionamentos lotados, carros invadindo calçadas, estresse e caos. Em São Paulo, nos horários de rush, os carros circulam com a mesma velocidade dos pedestres. Mas, em outros períodos, a situação melhora e eles atingem a mesma marca de uma bicicleta: 20km por hora. São Paulo é o futuro das cidades que adotam essa política.
Ao mesmo tempo, proliferam os condomínios, verdadeira minicidades, com tudo que as cidades não oferecem (e deveriam oferecer) em seus espaços públicos: segurança, planejamento ecológico, áreas para lazer e pistas para caminhadas. Tudo ao preço de surreais, a moeda imperante na era da especulação imobiliária.
E, por falar em imposição, o caderno Cidades mostrou, na semana passada, como redes de postos de gasolina e farmácias formam cartéis, eliminam a concorrência e jogam os preços na estratosfera. É crime, não sou eu quem diz; é a lei. O desinvestimento em educação e cultura também deveria ser penalizado; é sinônimo de obscurantismo, atraso e entrave ao desenvolvimento.
Mas, afinal, por que as cidades são tão burras? Os pesquisadores das questões urbanas nos dão uma pista. Segundo eles, estamos vivendo sob o império da cidade-empresa, da cidade-negócio, da cidade-oportunidade e da cidade-exceção (que atropela as leis e muda até a destinação dos lugares públicos).
As cidades passaram a se associar com grupos internacionais em busca de um bons negócios, interferindo na soberania das decisões de nossas vidas. É o caso da Copa do Mundo, em que os velhinhos gagás da Fifa impuseram a marca de cerveja a ser consumida nos estádios e superfaturaram até o preço das batatinhas ou das garrafinhas de água.
Aí é que está o nó da questão: as nossas cidades se tornaram burras porque são dominadas pela ganância de meia dúzia de espertos em detrimento do interesse público.
Chico Science sintetizou, com agudeza, o drama de nossos centros urbanos na canção intitulada A cidade: “No meio da esperteza internacional/A cidade até que não está tão mal/E a situação sempre mais ou menos/Sempre uns com mais e outros com menos/A cidade não para/A cidade só cresce/O de cima sobe e o de baixo desce”. É contra esse modelo de cidade que os jovens estão marchando nas ruas.
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