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Do Jornal Opção
O que a Comissão da Verdade deverá esclarecer em Goiás
Quinze militantes de esquerda morreram ou desapareceram no Estado durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Entre eles, Honestino Guimarães, Marcos Antônio Dias Batista e Maria Augusta Thomaz
Renato Dias
Especial para o Jornal Opção/ De Brasília
A versão do suposto suicídio do então estudante Ismael Silva de Jesus, membro do PCB, ocorrido em 1972, em Goiânia, é verdadeira ou falsa? Onde estão os restos mortais de Marcos Antônio Dias Batista? Advogado goiano, Paulo de Tarso Celestino morreu na Casa de Petrópolis (RJ)? O que provocou a queda do Movimento de Libertação Popular (Molipo), em Goiás? Guerrilheiro do PCdoB, Divino Ferreira de Souza foi executado na Casa Azul? Essas são perguntas que a Comissão Nacional da Verdade precisa responder e esclarecer em seu relatório final.
Presidente da Associação dos Anistiados de Goiás (Anigo), o ex-preso político Elio Cabral conta que Goiás era considerado uma área estratégica para a deflagração das guerrilhas rural e urbana. A guerrilha do Araguaia ocorreu no Norte Goiás (atual Tocantins) e sul do Pará, lembra Jarbas Silva Marques. Já o Molipo tentou deflagrar uma revolução nas regiões Norte e Sudoeste. Mais: as Ligas Camponesas foram incentivadas, no Estado, por Francisco Julião a fazer a reforma agrária na lei ou na marra, lembra o ex-incendiário Tarzan de Castro, ex-PCdoB

Rui Vieira Berbert, do Molipo, morreu em janeiro de 1972. Versão oficial: suicídio / Maria Augusta Thomaz: morta em 17 de maio de 1973 e ossadas desaparecidas em julho de 1980
As circunstâncias da morte do lavador de carros Ornalino Cândido da Silva, em abril de 1968, ainda devem ser passadas a limpo, diz o ex-líder estudantil Euler Ivo. “A polícia queria me matar”, recorda-se. É importante também revelar os detalhes da prisão, tortura e morte do líder camponês Cassimiro Luís de Freitas, de Pontalina. Ele, que seria integrante da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), mesma organização política da presidente da República, Dilma Rousseff, morreu após sofrer espancamentos de agentes da repressão.
Trombas e Formoso
O vice-presidente da Comissão Nacional de Anistia, advogado Egmar Oliveira, afirma que continuam desaparecidos os restos mortais do ex-deputado estadual e líder das revoltas de Trombas e Formoso José Porfírio de Souza. Segundo ele, Porfírio saiu da cadeia, no ano de 1973, em Brasília (DF), teria retornado a Goiânia e dormido na casa do velho comunista José Sobrinho. Depois, circulou pela cidade e nunca mais foi visto. O seu filho, Durvalino de Souza, também integra a lista oficial da União, reconhecida pela Lei 9.140, de 1995, dos desaparecidos.
“Ismael Silva de Jesus não suicidou-se: foi assassinado.” É o que revela o ex-preso político João Silva Neto (ex-Partidão) no filme-documentário “Retrato ¾ de um tempo”, com direção do cineasta goiano Ângelo Lima, também um anistiado político. Morto no 42º BIM, Ismael, irmão do advogado Paulo Silva de Jesus, presidente do PSDB estadual, teria se enforcado com uma linha de anzol. Em 1991, Waldomiro Batista, irmão de Marcos Antônio Dias Batista, descobriu fotografias da Polícia Civil de Goiás que desmontaram a farsa da versão do Exército.
Desaparecido desde maio de 1970, o dirigente da Frente Revolucionária Estudantil (FRE), VAR-Palmares e ex-aluno do Lyceu de Goiânia, Marcos Antônio Dias Batista, com apenas 15 anos de idade, entraria para a macabra estatística de vítimas do ex-diretor regional da PF, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops-GO) Marcus Antônio de Brito Fleury. O médico Laerte Chediack revelou a Maria de Campos Baptista, mãe do estudante, que ele teria sido preso pela equipe do capitão Fleury. Chediack já morreu.
Tortura
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Fleury negou a acusação. “Não há nenhum caso de denúncia de tortura que tenha sido assumida por um agente da repressão política à época da ditadura civil e militar”, conta ao Jornal OpçãoEgmar Oliveira. O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi condenado em primeira e segunda instâncias pela Justiça de São Paulo, em ação declaratória, como torturador. “Ele também diz ser inocente e que não torturou nos anos de chumbo”, explica o advogado. Os restos mortais de Marcos Antônio Dias Batista, 42 anos depois, continuam desaparecidos.
Após procurar durante 36 anos o paradeiro do filho e os seus restos mortais, a então assistente social aposentada
Maria de Campos Baptista, 78 anos , recebeu um sopro de esperança. A Justiça Federal determinou que o então ministro da Defesa, José Alencar, vice-presidente da República, a recebesse em audiência, em Brasília, e revelasse o que os arquivos da União guardavam sobre o seu filho. Não obteve resposta à sua interrogação, mas Alencar prometeu tentar desvendar o caso. Na saída da audiência, ela morreu, em 15 de fevereiro de 2006
Nascido em Itaberaí (GO), o ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) Honestino Monteiro Guimarães foi visto pela última vez no mês de outubro de 1973, em São Paulo. Acabou preso, torturado e assassinado, registra Egmar Oliveira. A sua mãe, Maria Rosa, nunca recebeu os seus restos mortais para dar-lhe um sepultamento cristão, revelou, antes de morrer, o seu irmão Norton Guimarães. Honestino, ex-AP-ML, integra a lista dos desaparecidos políticos elaborada pelo projeto Brasil Nunca Mais, organizado por Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright.
Treinado em Cuba e companheiro de Heleny Telles Guariba, o advogado Paulo de Tarso Celestino teria sido executado na Casa dos Horrores, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Ele era filho do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) Pedro Celestino. O jornalista Ivan Seixas, da Comissão Nacional dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e do Núcleo de Preservação da Memória Política, informou ao Jornal Opção que Paulo de Tarso Celestino, do comando nacional da Ação Libertadora Nacional, caiu por delação de Cabo Anselmo, em 1971.
Quedas do Molipo
Documento obtido com exclusividade pelo Jornal Opção no Arquivo Nacional, em Brasília, revela que a prisão do médico Boanerges de Souza Massa, em 1971, no município de Pindorama (à época Goiás), provocou as mortes dos seguintes militantes do Molipo: Ruy Berbert Vieira, Arno Preiss, Jeová de Assis Gomes e as fugas espetaculares de Otávio Ângelo, Sérgio Capozzi e Jane Vanini. O Molipo, criado em Havana, Cuba, no ano de 1970 por 28 militantes, queria deflagrar uma guerra de guerrilhas em Goiás. O grupo acabou liquidado em 1973.
Maria Augusta
Além dos quatro mortos, o Molipo, no Estado, perdeu também Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado. Maria Augusta era da geração de 68. Ela sequestrou, com uma bomba no colo, um avião em Buenos Aires, desviou-o para Cuba, onde fez treinamento de guerrilha. Mais: abriu uma dissidência na ALN, retornou clandestinamente ao Brasil, em 1971, soltou bomba na Esso, atacou o Consulado da Bolívia, foi baleada, recuperou-se, veio para Goiás e acabou fuzilada na madrugada do dia 17 de maio de 1973, na Fazenda Rio Doce, em Rio Verde.
Sete anos depois as suas ossadas foram sequestradas. Mais uma vez, o capitão Fleury participa da história. Um crime sem castigo. Preso com vida, o goiano Divino Ferreira de Souza teria morrido, em dependência policial, no Araguaia. Ano: 1973. O Ministério Público Federal (MPF) ofereceu denúncia contra os supostos responsáveis pelo crime. Também sem castigo. A sua irmã, Terezinha Amorim, ainda sonha encontrar os seus restos mortais. Não custa lembrar: a guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB, ocorreu no norte de Goiás e no sul do Pará.
Renato Dias, jornalista e sociólogo, é colaborador do Jornal Opção e autor do livro-reportagem “Luta Armada/ALN-Molipo – As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz”.
E-mail: [email protected]
Saimon Lima de Britto
5 de janeiro de 2019 12:43 amTARZAN DE CASTRO
Boa Noite,
Me chamo Saimon, sou mestrando no programa de pós graduação em Geografia, mestrado, da Universidade Federal do Tocantins, e estou fazendo uma pesquisa sobre as Ligas Camponesas em Goiás. Gostaria de saber se o senhor pode me passar o contato do ex deputado Tarzan de Castro para que eu possa entrar em contato com o mesmo no intuito de entrevistá-lo. Desde já agradeço a atenção.
Respeitosamente,