Do Diário Liberdade
Nasce uma nova organização da esquerda socialista
Brasil – CSOL – A reconstrução da esquerda socialista no Brasil ganhou, neste final de semana, um importante capítulo.
Ainda sob o calor das recentes mobilizações que varreram o país, cerca de cento e sessenta delegados participaram, neste domingo, 7 de julho, da Conferência que aprovou a unificação entre o Coletivo Socialismo e Liberdade (CSOL), o Enlace e o Coletivo Luta Vermelha (CLV), criando uma nova organização política na esquerda revolucionária brasileira, organizada dentro do Partido Socialismo e Liberdade. Também participaram do encontro representantes do Coletivo Opção Socialista (COS) e do Brasil e Desenvolvimento (B&D), que abriram um processo de discussão com a nova organização, e fundadores dos núcleos originais, na década de 1970, das organizações Democracia Socialista e Convergência Socialista.
O processo de fusão das três correntes que se reivindicam do marxismo, do internacionalismo e integram o PSOL deve ser concluído em um encontro nacional nos dias 5 e 6 de outubro, ocasião em que também será definido o nome da nova organização política. Com a iniciativa, Enlace, CSOL e CLV pretendem construir, junto a outros agrupamentos que se somem ao processo, “uma organização marxista revolucionária, democrática, feminista, ecologista, antiracista e libertária que esteja à altura de nossos sonhos”, conforme aponta a resolução política aprovada.
O novo coletivo já conta com militantes em vinte estados e no Distrito Federal. Mas a proposta de unificação vai muito além de uma soma numérica: ela aponta para a reversão da tendência à fragmentação da esquerda socialista brasileira, sobretudo após a adesão do Partido dos Trabalhadores à ordem burguesa. A nova organização aposta na construção do PSOL como um partido de oposição de esquerda, um instrumento que contribua para organizar a juventude e a classe trabalhadora e seu processo de avanço de consciência, um instrumento a serviço das lutas sociais e mobilizações políticas.
Durante a reunião, foram aprovadas uma Carta de Princípios e uma Resolução sobre a Situação Política e eleita uma Coordenação Nacional Provisória da nova organização, que serão divulgadas nos próximos dias. Foi também lançada a revista À esquerda, primeiro produto da síntese política acumulada pelos três coletivos ao longo dos últimos meses.
Do Coletivo Socialismo e Liberdade
Senador Randolfe escolheu o seu lado. Não nos representa!
Enquanto o governo federal corre para realizar reuniões com movimentos sociais com intenção de encerrar manifestações e renovar um “pacto” com setores empresariais, o senador Randolfe Rodrigues, eleito pelo PSOL, decidiu nesta segunda-feira (1º/7), desobedecer resolução da Executiva Nacional do partido e comparecer na reunião com a presidente.
O PSOL havia sido convidado para reunião com Dilma. A Executiva nacional decidiu por maioria não comparecer. O próprio presidente nacional do PSOL, Ivan Valente, acabou desmarcando a ida à reunião, argumentando que o partido precisava ouvir as vozes das manifestações.
A decisão individual de Randolfe ultrapassa todos os limites aceitáveis. A juventude de todos os cantos do país se levantam em manifestações cotidianas, espontâneas ou não, demonstrando sua rebeldia contra os governantes e as péssimas condições de vida. A militância do PSOL está envolvida em cada uma dessas lutas em defesa de direitos da juventude e da classe trabalhadora. Randolfe, a partir da escolha de hoje, se insurge contra a instância partidária legítima, como se coloca do lado oposto ao da militância aguerrida do PSOL e ao das centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas nas últimas semanas.
Esta não é a primeira vez que Randolfe desrespeita as instâncias e destoa do perfil partidário que defendemos. Desde as alianças eleitorais firmadas com partidos da ordem no Amapá até a absurda decisão de compor a bancada governista no Senado, Randolfe demonstra que, para ele, mais vale alguns segundos na imprensa nacional do que a defesa da coerência ideológica de um partido socialista e de oposição de esquerda ao governo.
Por que não conversar com Dilma
Na semana passada, Dilma propôs em cadeia nacional de rádio e TV, cinco “pactos” com a nação. O primeiro deles, que, segundo ela mesma, se sobrepunha aos demais, era a manutenção da “responsabilidade fiscal”. O termo, apesar de parecer razoável, foi um sinal evidente de que Dilma manteria todos os privilégios aos grandes empresários do país, em particular aos banqueiros. Ou seja, a presidente manteria sua política de redução de gastos públicos para áreas sociais, como forma de não alterar os lucros de uma minoria.
A cada ano a presidente vem anunciando mais e mais cortes de verbas para áreas fundamentais, como a educação, a saúde e o transporte públicos. Pressionada pelo capital e pela grande mídia, que ela mesma ajuda a financiar, e pela revolta popular que eclodiu no país, Dilma reiterou sua opção de ceder aos capitalistas.
Em contrapartida, militantes do PT , PCdoB e de entidades simpáticas ao governo, como a direção majoritária da UNE e o MST, saem às ruas e aos movimentos para defender a realização do plebiscito sobre a reforma política proposto pelo Planalto. O governo ainda corre para negociar com a base aliada as perguntas desse plebiscito. Uma das possíveis questões, como o financiamento público de campanha, é bandeira histórica do PSOL. O governo insiste em chamar os movimentos sociais e os partidos políticos de oposição, entre os quais o PSOL, a conversar.
Já vai mais de uma semana desde que o governo iniciou sua série de reuniões com movimento sociais, numa verdadeira sucessão de fotos para imprensa e diálogos sem resultado prático do ponto de vista das demandas econômico-sociais, como bem denunciaram o MTST e o MPL. A estratégia governamental consiste em mostrar-se aberta ao diálogo, não conceder absolutamente nada, sequer comprometer-se com o fim da repressão policial, atrair os dirigentes para a armadilha do plebiscito limitado, ao mesmo tempo em que mantém as juras de amor à “responsabilidade fiscal” (leia-se manutenção do superávit primário, pagamento da dívida, corte dos gastos públicos etc.)
Esse diálogo não é o que interessa aos movimentos e ao PSOL. Esse não é o diálogo que exigem as ruas que se levantaram nas manifestações de junho. Por isso defendemos que o PSOL não vá falar com Dilma. Que a única conseqüência da presença do partido num diálogo com a presidente neste momento de enfraquecimento do Planalto seria estender ao governo uma tábua de salvação num momento de dificuldade provocado pelas manifestações que o questionam. E esse não é nosso papel!
Podemos conversar, sim, presidente Dilma, mas em outras condições e em outro momento. Podemos conversar se seu pacto não tiver como condição a responsabilidade perante os banqueiros, o FMI e o FED. Podemos conversar se a conversa começar pelo atendimento das reivindicações de passe livre, 10% do PIB para educação pública, mais verbas para a saúde, auditoria da dívida, auditoria das obras da Copa, contra as remoções, demarcação das terras indígenas e muitas outras. A partir disso, podemos conversar, sim sobre um plebiscito sobre um aperfeiçoamento da democracia representativa no país. Um plebiscito que comece perguntando se queremos ou não o fim do sigilo bancário e fiscal dos parlamentares; o fim ou não das emendas individuais do orçamento; o salário de professor universitário para parlamentares; o financiamento público de campanhas.
As mudanças nas regras eleitorais são fundamentais, mas elas devem estar afinadas com as vozes das ruas, que pedem muito mais. As da vozes da juventude nas ruas gritam contra os partidos da ordem, as negociatas palacianas, contra um regime político antidemocrático e em repúdio aos representantes do Estado que lhes massacram cotidianamente. Para eles a população grita “não nos representam”. E se Randolfe Rodrigues quer se afastar do PSOL e das lutas sociais em curso com seu discurso conciliador, nós endossaremos o grito: não nos representa!
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