Comentário ao post “Ainda estamos aguardando o verdadeiro “gigante” acordar“
Daqui há pouco eu vou me acostumar a abandonar no meio qualquer texto que comece a criticar desenfreadamente a classe média como se ela fosse a origem de todos os males do país. A generalização absurda que se faz desta parcela anônima da população e a demonização subsequente que decorre desta generalização me causa uma urticária mental. É bem fácil culpar alguém por tudo o que acontece no Brasil quando não se é capaz de apontar o rosto deste culpado.
O fato é que, depois da última década, o governo pode se orgulhar de transformar o Brasil em um país de classe média tirando grande parte da população da pobreza, mas nós da esquerda ainda teimamos em culpá-la pelas injustiças sociais, esquecendo que esta classe média é agora composta por grande parte daqueles que sempre quisemos ver avançar socialmente, os ex-classe pobre. Criticar a atual classe média é esquecer que ela não é uniforme, ela é feita de pessoas que conseguiram sair da linha de pobreza, graças ao governo que apoiamos por 10 anos. Ela é agora composta por pessoas que não mais tem de lutar apenas para sobreviver e buscar como colocar o prato de comida na mesa, mas podem se dar ao luxo de agora pensar um pouco além, talvez através de um viés consumista ou talvez através de um viés mais humanista, com serviços públicos de qualidade para todos.
Por causa do exemplo do que ocorre no Brasil que eu vejo como uma extrema simplificação classificar as revoluções em geral apenas como um movimento da classe média burguesa. Em geral, estes movimentos ocorrem quando há uma passagem de uma grande parcela da populacão de um estrato social para outro, seja para cima, seja para baixo. Na Europa e EUA é para baixo. No nosso caso atual, é um movimento para cima e por isso que não podemos dizer que está isolado da camada mais pobre, porque dela fazem parte ex-classe baixa, ex-classe média baixa e ex-classe média média, camadas sociais que mais lutavam para sobreviver do que para viver confortavelmente. E por isso que grande parte dos analistas e governantes não viram o monstro da revolta crescendo na sua frente, porque não queriam enxergar que houve uma grande mudança na estratificação social no país.
Deveríamos agradecer que estas manifestações são por melhores serviços públicos. Não tenho dúvidas de que se os governos apresentarem uma melhora paulatina destes serviços em primeiro lugar, a tal de classe média irá trocar os seus gastos nos serviços particulares por gastos em impostos para financiar os serviços públicos. Talvez ela até sairia ganhando, mesmo pagando impostos maiores, ainda assim mais baratos do as mensalidades de serviços particulares. Mas acredito que os governos tem de dar o primeiro passo para ganhar a confiança da população, até porque já se esgotou a cota deles de exigir dos brasileiros sem dar em troca.
Se há quem possa contribuir para financiar este primeiro passo agora, esse alguém é a classe alta e classe média alta. E para isso, basta que haja uma reforma tributária decente, diminuindo a burocracia tarifária, a possibilidade de contestações judiciais e os truques contábeis praticado por grandes empresas sonegadoras. Porque é na sonegação fiscal, oriunda de uma tributação confusa e ineficiente, que está a maior parte dos prejuízos orçamentários da esfera governamental.
Deixe um comentário