Por ArthurTaguti
Comentário ao post “O preço da política de inclusão social via consumo“
Sobre a grande escolha política feita por Lula (promover a inclusão social via consumo), acabei refletindo muito sobre este tema por causa de um exemplo doméstico, de amigos de adolescência meus.
Igual a muitas pessoas aqui, pertenço a classe média, não a impulsionada pelo governo Lula, mas a tradicional. Quando estava no ensino médio, apesar de estudar em colégio particular, convivi com pessoas de classes sociais diversas, seja porque uns tinham bolsas, seja porque outros pagavam mas com muito sacríficio.
O PT chegou ao poder quase na mesma época em que nos formamos. Cada um tomou seu rumo. Os anos se passaram, o governo promoveu políticas redistributivas bem sucedidas, e o país avançou um pouco no combate a desigualdade social.
Reencontrando casualmente os amigos daquela época, observo que pouca coisa mudou desde que nos separamos. Os que eram mais pobres, não fizeram faculdade e hoje tem empregos mal-remunerados. E os com uma condição social melhor, cursaram faculdade e hoje ganham muito bem.
O abismo social ainda se mantém e os serviços públicos continuam péssimos.
O fato que mais me chamou a atenção foi quando um destes amigos me chamou no Facebook e pediu dinheiro emprestado. Trabalha de lixeiro hoje, tem dois filhos e mal consegue arcar com o financiamento do carro que comprou. Tem ainda outros financiamentos nas costas (TV LCD, videogame dos filhos, mobília da casa).
Com outros amigos, a história se repete. Móveis, TVs novinhas e, em comum, a falta de perspectiva de ascensão social.
Não trouxe estes exemplos para deplorar os anos Lula. Muito pelo contrário, os avanços são visíveis nos últimos 10 anos, ainda mais se comparados com os anos FHC. Entretanto, como este período é pretérito, agora podemos analisá-lo com mais calma, conforme as consequências hoje sentidas.
A escolha de priorizar o incentivo ao transporte individual, em detrimento do transporte coletivo, é só uma delas.
O que vejo – e não é lendo os estudos do Ipea ou dados do IBGE, mas de amigos meus, conhecidos, e não-tão-conhecidos – é que as políticas redistributivas de Lula trouxeram uma espécie de ‘alívio’, mas foram insuficientes pra alterar o status quo.
Em pouco mais de uma década, as políticas de Chavez tornaram a Venezuela o país menos desigual da América Latina. E aqui? Qual a velocidade da redução da desigualdade? O PT já completou uma década no poder..
E o relógio corre. Esse amigo meu, o que pediu dinheiro emprestado, já está com os dois filhos matriculados na escola pública, é usuário do SUS, usa transporte público apesar do carro comprado, gasta uma parcela muito grande do salário mínimo em impostos por causa desses sistema regressivo, e a lista continua…
O PT precisa sair às ruas, perguntar o que os beneficiados do seu governo sentem hoje. Porque se for pra ficar ouvindo técnicos dizendo que o povo DEVE ser feliz porque a desigualdade caiu tanto, o salário aumentou quanto, ou que agora eles são classe média porque ultrapassaram uma faixa de renda y, corre-se o risco de se tornar um novo PSDB, totalmente afastado do que o cidadão comum pensa.
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