4 de junho de 2026

Os interesses opostos dentro das manifestações

Por Marco Antonio L.

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Da Carta Maior

A classe média paulistana e o monopólio da violência

Uma manifestação que não depreda não é por consequência uma manifestação pacífica. A despolitização é um caminho extremamente útil para a mídia e elite brasileira, tem papel de esvaziar um debate propriamente político para enchê-lo de moralismo e raciocínio fácil. Estes sim violentam. O custo disso é altíssimo: sai de cena o motivo democrático, entra em cena o ativismo neoliberal. 

Uma manifestação que não depreda não é por consequência uma manifestação pacífica. O apego a essas diferenças é importante para não cairmos na tentação ingênua de nos afastarmos da história política brasileira. O aumento da massa descontente não é um evento fácil de se compreender ou extrair qualquer resposta, e, como tudo que é histórico, está sujeito ao contraditório. As duas manifestações desta semana foram um espaço para estes contrários: interesses de classes diametralmente opostas coabitaram as mesmas manifestações. 

A luta que o Movimento Passe Livre organiza faz parte (se é que podemos falar em partes) da luta de classe. A reconciliação de interesses contrários na luta de classes serve à àqueles que querem conservar as estruturas como estão. A reconciliação é, em todos seus efeitos, violenta. E muitos são subtraídos dessa violência quando reclamam: o silêncio anterior da classe média paulistana não é o mesmo que o grito abafado que vem das periferias e dos movimentos sociais. Não se fala aqui de uma violência em abstrato (como são abstratos os cartazes contra a corrupção que apareceram nas últimas manifestações), mas se levanta contra a violência de um modo de vida de exclusão sumária de uma parte da sociedade: ir às ruas por um transporte gratuito e de qualidade vai frontalmente contra esse modo de vida.

Não, a violência não é ruim por princípio. Violentar os lucros exorbitantes da SPTrans, Metrô e CPTM; violentar a falta de diálogo em reuniões deliberativas sobre o destino da cidade; violentar um projeto de segurança pública higienista e racista. A boa conduta com dispositivos como estes é violência em extensa medida, e nada disto se coloca em debate por grande parcela desta classe média que só agora assume a rua. 

O contraponto a alguns manifestantes que agora gritam “sem vandalismo”, “sem violência” (bandeira levantada desde o início das manifestações, quando éramos considerados “grupelho” e apanhávamos da polícia) é o onipresente ódio daquilo que é distante e fora de seu cotidiano. Este fato se explica: ouve-se os gritos de “sem violência, sem vandalismo” quando alguém depreda o patrimônio público, por exemplo os portões do Palácio dos Bandeirantes (este é um exemplo muito interessante, como símbolo da opressão e da clivagem que faz o governo do estado de São Paulo entre classe média e os mais pobres). Até aqui nada de anormal. 

O que faz toda a diferença é que esse pacifismo contém em si mesmo seu oposto, quando vemos os mesmos pacifistas gritarem e até agredirem militantes de partidos e membros de movimento social e/ou entidades de classe. Partidos e organizações que sempre estiveram em manifestações populares menores ou iguais a estas, agora têm de se calar frente a uma massa que, mesmo disforme e heterogênea, alega não precisar de qualquer bandeira deste partido ou organização a não ser a bandeira do Brasil – pátria amada, idolatrada. 

A despolitização é um caminho extremamente útil para a mídia e elite brasileira, tem papel de esvaziar um debate propriamente político para enchê-lo de moralismo e raciocínio fácil. Estes sim violentam. O custo disso é altíssimo: sai de cena o motivo democrático, entra em cena o ativismo neoliberal. Nos gritos apartidários agressivos se enraíza uma fobia do Estado: quando da saída de todos os governantes o que permanecerá? A condução do livre mercado? A competição e o utilitarismo individual? 

Ao perder o seu lastro histórico e com isso todos debates realmente transformadores, a manifestação age como herdeira e, além de reprodutora, intensificadora de uma ordem econômica e política específica que já virou natural; as ruas e a mobilização são bem recebidas quando perdem seu potencial crítico efetivo. Os louros que recebemos hoje da grande mídia e da elite paulistana, historicamente contra o alargamento dos direitos dos trabalhadores e da periferia, soam mais como um sintoma de adoecimento do que um sinal de que os convertemos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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