Do Cinegnose
O oportuno “Moonrise Kingdom” em tempos de jovens protestando nas ruas

Partindo do princípio de que o mix emocional de exaltação e melancolia da adolescência representa o último grito de um espírito que nega a adaptação ao futuro, “Moonrise Kingdom” (2012) constrói uma elaborada fábula sobre a inadaptabilidade do jovem a um mundo onde os adultos dizem “somos tudo o que vocês têm”. Enquanto filmes como a da franquia “Crepúsculo” ou “Harry Potter” representam esses aspectos depressivos da adolescência de forma solipsista e platônica (a felicidade só poderia ser alcançada nos sonhos ou em mundos mágicos e sobrenaturais), “Moonrise Kingdom” constrói um elaborado simbolismo que não só desconstrói as formas de “cura” da revolta adolescente como aponta para a felicidade como uma chama interior que deve ser mantida acesa no mundo adulto que o aguarda. Um filme oportuno em tempos em que jovens estão tomando as ruas em protestos.
O diretor Wes Anderson é conhecido por criar um universo bem particular: em todos os seus filmes anteriores como “Os Excêntricos Tenembauns” (2001) ou “O Fantástico Sr. Raposo (2009) ele é capaz de criar um microcosmo onde os eventos e ações começam a ocorrer dentro de suas própria regras e tudo começa a ser impulsionado por emoções e desejos tão convincentes que se tornam mágicos.
Dessa vez o novo mundo criado por Anderson é uma ilha em algum lugar na costa da Nova Inglaterra nos EUA, onde as casas, fazendas, faróis, barcos parecem ser reproduções ampliadas de pequenos modelos ou miniaturas. A composição dos enquandramentos é cheia de simetrias, o movimento da câmera calculadíssimo e os personagens propositalmente estereotipados e contidos. Por isso, Anderson é muito criticado pelo estilo dito “maneirista”. Aqui, pelo menos, esse estilo passa a ter todo sentido: em uma ilha cujo artificialismo dos personagens, paisagens urbanas e naturais lembram muito a ilha de Seahaven do filme “Show de Truman” (The Truman Show, 1998) criam uma sufocante atmosfera de ordem, disciplina e hierarquia, um casal de adolescentes se rebela e planeja cuidadosamente e executa uma fuga: ela para fugir da crise conjugal dos seus pais e ele da disciplina e mediocridade de um campo de escotismo.
Tudo se passa em 1965, porém apenas alguns signos remetem à época como o modelo do automóvel do policial Bruce Willys ou a vitrola portátil de 45rpm à pilha que os adolescentes levam na fuga. O microcosmo da ilha é de um artificialismo atemporal.
Essa atemporalidade de “Moonrise Kingdom” é que torna o filme uma fábula sobre a condição de melancolia e inadaptabilidade do adolescente, talvez o último momento das nossas vidas onde o espírito solta seu último grito de agonia antes da inserção definitiva no mundo adulto. Depois, já na vida adulta, olharemos para trás com melancólica nostalgia e o mal estar espiritual será tratado ou pela religião ou pela variedade de técnicas psicológicas e farmacológicas disponíveis.
O Filme
Nessa ilha tão atemporal que poderia ser a de Próspero da peça teatral “A Tempestade” de Shakespeare há um farol onde vive a heroína Suzy Bishop (Kara Hayward) com seus pais em crise (Bill Murray e Frances McDormand) e um acampamento de escoteiros onde o outro herói Sam Shakusky (Jared Gilman) entra em choque com as infantis regras do escoteiro-chefe (Edward Norton) e com a mediocridade dos outros garotos do grupo. Suzy e Sam têm 12 anos e, desde que começaram a trocar cartas há um ano, planejam cuidadosamente uma fuga.
Suzy e Sam partilham a experiência de uma vida: eles sabem que aquele será o último verão e que no próximo ano estarão velhos demais para tamanha irresponsabilidade.
“Somos tudo o que ele têm”
O curioso no filme é que percebemos de início a absoluta impossibilidade do sucesso da empreitada: o objetivo de Sam é reunir todos os seus conhecimentos de escotismo e, através de uma antiga trilha indígena, encontrar um esconderijo onde criará para a sua vaidosa namorada amante das artes um paraíso só seu, o “Moonrise Kingdom”. Mas a ilha não é tão grande assim (Wes Anderson pontua sempre a narrativa com um mapa do território, para que o espectador acompanhe os deslocamentos dos personagens), isto é, dada as condições geográficas da ilha não existe como se esconderem. Ainda mais que estão nos seus encalços o policial da ilha e o escoteiro-chefe com o seu grupo de disciplinados escoteiros.
Por isso, toda a peregrinação de Sam e Suzy parece ter um significado muito mais simbólico do que prático. Na medida em que a fuga avança, o diretor Wes Anderson vai tornando isso mais claro com a profusão de sequências simbólicas como a cerimônia de casamento de Sam e Suzy (“não tem validade civil mas carrega um peso moral dentro de si mesmos”), a inundação, o raio que cai na Igreja etc.
Exaltação e melancolia
Sam e Suzy parecem representar a condição atemporal da tanto da adolescência, onde exaltação e melancolia, euforia e depressão, criam um turbilhão de emoções e sensações (principalmente a descoberta da sexualidade e do erotismo em cenas que Anderson dirige de forma sensível). O resultado é a condição de “estrangeiro”, de inadequação, de sempre sentir que é um intruso diante do que o adolescente tentará mitigar o problema de duas formas: ou tentando ser um “garoto popular” consumista e admirado pelos amigos ou através da melancolia, depressão ou mesmo raiva.
É marcante como em cada época a cultura pop representou e explorou essa espécie de condição bipolar adolescente: nos anos 70 tivemos o “rock horror” e “glam rock” dos anos 70 e todo o universo trash e underground urbano sintetizado no filme “Rock Horror Picture Show” – 1975. Nos anos 80 temos o “Dark” sintetizado em ícones como Robert Smith do The Cure e Peter Murphy da banda Bauhaus. Músicas cujas letras se inspiram no universo gótico da literatura romântica dos séculos XVIII e XIX. Nos anos 90 o “Dark” é reciclado pelo “Gótico” e a literatura romântica é substituída pelos contos de terror. Jovens cuja aspiração é a de se tornar seres da noite, com longas capas pretas e lentas de contato especiais que alteram a cor dos olhos. Nesse início do século XXI temos a franquia de filmes “Crepúsculo” e o imaginário musical “Emo” destilando essas tendências depressivas em jovens e adolescentes.
“Moonrise Kingdom” vai mais fundo nessa condição atemporal do adolescente, indo além dessas representações depressivas e platônicas da cultura pop sobre a melancolia do jovem: Wes Anderson busca a gnose dos adolescentes, isto é, toda a jornada inútil da fuga na verdade acabou se tornando uma peregrinação espiritual onde descobrem que o paraíso idílico que buscam na verdade está dentro deles, em uma fagulha que devem manter acesa mesmo após se estabelecerem no mundo adulto.



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