4 de junho de 2026

Somos ou éramos tão jovens?

Do Tijolaço

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Somos ou éramos tão jovens?

Fernando Brito

Mais difícil que controlar o colesterol, abolir o cigarro, largar as comidas gordurosamente gostosas, envelhecer tem uma grande dificuldade para a saúde.

É que, obvio, a gente deixa de ser jovem quando fica mais velho.

Mas, pior que o coração, o fígado, os pulmões ou onde quer que a idade se manifeste, não há parte do corpo onde se corra tantos riscos quando se perde a juventude quanto as nossas mentes.

Ficamos “sabidos” demais e temos  respostas prontas para tudo.

Sim e não ficam muito rígidos.

Acontece isso com muitos de nós nessa questão das manifestações – já agora não contra o aumento das passagens, ou contra a Copa, mas contra tudo – da garotada que, com seus cabelos cor de abóbora ou seus piercings exóticos, não são mais “estranhos” do que nós éramos, cabeludos, de sandália rota de couro e bolsa idem a tiracolo.

Há provocadores, vândalos, idiotas em meio a eles? Há, sim, e daí?

Compete a quem tem o poder, se quer a paz, abrir-se ao diálogo e desarmar, com isso, quem quer apenas o confronto.

No distante 1977, eu estava num grupo que, liderado por alguns mais chegados ao radicalismo pequeno-burguês que eu, invadiu o gabinete do diretor da faculdade. O diretor era um velho pessedista, Marcial Dias Pequeno, que havia trabalhado com Negrão de Lima – um conservador de chapéu gelot que o povo tomou nas mãos para protestar contra a ditadura nas eleições de governador do Rio de Janeiro, em 1965.

Quando invadimos, Marcial – que de Marcial só tinha o nome – usou de sua bonomia de velhinho e disse: “meus filhos, que bom vocês terem vindo, isso aqui é muito chato. Não tem cadeira para todo mundo, mas vocês podem se sentar por aí, que eu vou mandar vir café e a gente conversa”.

Eu quase ri ao ver a cara de tacho da turma que achava que ia fazer a revolução tomando uma sala da UFRJ. Marcial nos enrolou, atendeu aqui, transigiu ali, escorregou acolá. E saímos comemorando “a vitória”.

Mas eu não chamo a turma de tola, não, porque também fazia o mesmo. Comícios-relâmpago, na escadaria em que uma multidão saltava dos trens da Central, de manhãzinha,  falar e correr, antes da “dura” nos gadunhar. Chegar e se esgoelar.

Um dia, me pegaram pelo braço. Não a polícia, mas uma senhora, simpática: “meu filho, a gente já sabe disso que você está falando, mas desse jeito você vai é passar mal”

A cara de tacho aí foi minha.

Eu espero que a minha geração, meus parceiros de sonhos de há 30 anos, compreenda isso.

Compreenda que a revolta jovem é natural e tem uma causa generosa, ainda que a direita e a mais tola de suas faces, os ultraesquerdistas, só tenham ódio e desejo de destruição.

Não se transforma, como dizia Washington Luiz, as questões sociais em caso de polícia.

E é a polícia, em São Paulo, mas também em Brasília e no Rio, quem está sendo a face visível do Estado – e do Governo, por extensão – nestes episódios.

Não elegemos a polícia. Não contamos com o seu lúcido escrutínio de ações, embora um ou outro oficial possa ter, como vimos, um comportamento razoável.

Essa responsabilidade cabe aos Governos estaduais – e Geraldo Alckmin, Agnelo Queiroz e Sérgio Cabral estão na berlinda –  mas também ao Governo Federal, porque essa não é apenas uma questão de ordem pública, mas um caso de política, não de polícia.

Deixar por conta da polícia é generalizar o conflito e jogar lenha na direita, que reclama dos vândalos, mas torce pelo incêndio das ruas e o atiça com horas e horas de transmissão pela TV. Ela, a mesma que não punha no ar as multidões pelas eleições diretas.

Temos, pelo que somos e pelo que fomos, condições de trazer tudo à normalidade, ao diálogo e às pressões e contrapressões típicas da democracia, pela qual demos os nossos melhores anos.

Temos é de decidir se somos ou éramos tão jovens. Ou se somos e vivemos como nossos pais.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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