Do Tijolaço
Fernando Brito
Mais difícil que controlar o colesterol, abolir o cigarro, largar as comidas gordurosamente gostosas, envelhecer tem uma grande dificuldade para a saúde.
É que, obvio, a gente deixa de ser jovem quando fica mais velho.
Mas, pior que o coração, o fígado, os pulmões ou onde quer que a idade se manifeste, não há parte do corpo onde se corra tantos riscos quando se perde a juventude quanto as nossas mentes.
Ficamos “sabidos” demais e temos respostas prontas para tudo.
Sim e não ficam muito rígidos.
Acontece isso com muitos de nós nessa questão das manifestações – já agora não contra o aumento das passagens, ou contra a Copa, mas contra tudo – da garotada que, com seus cabelos cor de abóbora ou seus piercings exóticos, não são mais “estranhos” do que nós éramos, cabeludos, de sandália rota de couro e bolsa idem a tiracolo.
Há provocadores, vândalos, idiotas em meio a eles? Há, sim, e daí?
Compete a quem tem o poder, se quer a paz, abrir-se ao diálogo e desarmar, com isso, quem quer apenas o confronto.
No distante 1977, eu estava num grupo que, liderado por alguns mais chegados ao radicalismo pequeno-burguês que eu, invadiu o gabinete do diretor da faculdade. O diretor era um velho pessedista, Marcial Dias Pequeno, que havia trabalhado com Negrão de Lima – um conservador de chapéu gelot que o povo tomou nas mãos para protestar contra a ditadura nas eleições de governador do Rio de Janeiro, em 1965.
Quando invadimos, Marcial – que de Marcial só tinha o nome – usou de sua bonomia de velhinho e disse: “meus filhos, que bom vocês terem vindo, isso aqui é muito chato. Não tem cadeira para todo mundo, mas vocês podem se sentar por aí, que eu vou mandar vir café e a gente conversa”.
Eu quase ri ao ver a cara de tacho da turma que achava que ia fazer a revolução tomando uma sala da UFRJ. Marcial nos enrolou, atendeu aqui, transigiu ali, escorregou acolá. E saímos comemorando “a vitória”.
Mas eu não chamo a turma de tola, não, porque também fazia o mesmo. Comícios-relâmpago, na escadaria em que uma multidão saltava dos trens da Central, de manhãzinha, falar e correr, antes da “dura” nos gadunhar. Chegar e se esgoelar.
Um dia, me pegaram pelo braço. Não a polícia, mas uma senhora, simpática: “meu filho, a gente já sabe disso que você está falando, mas desse jeito você vai é passar mal”
A cara de tacho aí foi minha.
Eu espero que a minha geração, meus parceiros de sonhos de há 30 anos, compreenda isso.
Compreenda que a revolta jovem é natural e tem uma causa generosa, ainda que a direita e a mais tola de suas faces, os ultraesquerdistas, só tenham ódio e desejo de destruição.
Não se transforma, como dizia Washington Luiz, as questões sociais em caso de polícia.
E é a polícia, em São Paulo, mas também em Brasília e no Rio, quem está sendo a face visível do Estado – e do Governo, por extensão – nestes episódios.
Não elegemos a polícia. Não contamos com o seu lúcido escrutínio de ações, embora um ou outro oficial possa ter, como vimos, um comportamento razoável.
Essa responsabilidade cabe aos Governos estaduais – e Geraldo Alckmin, Agnelo Queiroz e Sérgio Cabral estão na berlinda – mas também ao Governo Federal, porque essa não é apenas uma questão de ordem pública, mas um caso de política, não de polícia.
Deixar por conta da polícia é generalizar o conflito e jogar lenha na direita, que reclama dos vândalos, mas torce pelo incêndio das ruas e o atiça com horas e horas de transmissão pela TV. Ela, a mesma que não punha no ar as multidões pelas eleições diretas.
Temos, pelo que somos e pelo que fomos, condições de trazer tudo à normalidade, ao diálogo e às pressões e contrapressões típicas da democracia, pela qual demos os nossos melhores anos.
Temos é de decidir se somos ou éramos tão jovens. Ou se somos e vivemos como nossos pais.
Deixe um comentário