4 de junho de 2026

Krugman critica patamar reduzido das metas de inflação

Oi Nassif, segue abaixo minha tradução de um post do Paul Krugman, publicado na Sexta passada, que faz uma crítica contundente ao patamar muito reduzido para as metas de inflação, de 2 por cento ao ano. Esse debate é particularmente importante aqui no Brasil, pois muitos economistas defendem a redução da meta de inflação para esse patamar, se não agora, num futuro próximo. O texto de Krugman argumenta que esse patamar reduzido não passa de preconceito, e nada mais.

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Do New York Times

A solução dos quatro por cento

Blog do Paul Krugman

Larry Ball argumenta que seria muito melhor termos uma meta de inflação de 4 por cento do que de 2 por cento, o que é neste momento a ortodoxia dos bancos centrais. Academicamente, essa posição não é nada estranha. Na verdade, a argumentação de Ball é muito semelhante à que Olivier Blanchard fez há três anos, apenas enunciada de modo mais enfático e apresentando maiores evidências.

O ponto básico é que um patamar maior para a inflação tornaria menos provável o surgimento da armadilha de liquidez, em que a política monetária convencional está diante do seu limite inferior zero, e menos onerosa quando ela acontece. Ball estima que se tivéssemos chegado a esta crise com uma meta de inflaçãosubjacente de 4 por cento, a média de desemprego ao longo dos últimos três anos teria sido dois pontos percentuais menor. Isso é enorme – equivale a milhões de empregos e trilhões de dólares extras de produção.

Existem dois argumentos principais contra uma meta de inflação mais elevada. Uma delas é que eventos como a atual crise quase nunca acontecem. Minha opinião é que os custos destas crises são tão elevados e as dificuldades que tivemos em responder tão grotescas que, mesmo que fossem eventos de 75 em 75 anos, seriam suficientes para justificar outro tipo de política. Mas Ball também argumenta que o risco do surgimento da armadilha de liquidez é muito maior do que a sabedoria convencional nos quer fazer crer. Basta olhar para a experiência dos EUA. As últimas três recessões foram todas recessões “pós-modernas”, causadas por exageros no setor privado, não por apertos monetários do Fed – e em cada caso o Fed teve muita dificuldade para obter resultados. Ambas as recessões de 1990-1991 e 2001 foram eventos de armadilha de liquidez e 2007 foi, na verdade, de acordo com o que havia se tornado o padrão normal, não uma exceção bizarra.

De todo modo, um ponto que Ball não menciona é que, na medida em que consideramos as questões do Japão, em parte, demográficas, isso está se tornando a norma também: baixa fertilidade e, talvez, os baixos retornos de investimentos também estão se tornando o padrão entre os países avançados. Novamente, isso exige uma meta de inflação mais elevada.

O outro argumento seria a ameaça da perda de controle: você concorda que 4 por cento está OK, e de repente você percebe que está no governo Carter ou talvez em Weimar. Como Ball diz, não há realmente nenhuma evidência para este medo. De fato é o que quase todos os bancos centrais acreditam. Mas eles realmente não podem explicar porque acreditam e nunca devemos esquecer que houve uma época em que quase todos os bancos centrais acreditavam que sair do padrão-ouro significaria o fim da civilização.

O ponto é que a meta convencional de 2 por cento é apenas um preconceito, nada mais. Apoiado em certa medida por estudos que sugeriam que 2 por cento era o suficiente para tornar inofensivo o limite inferior zero para a taxa de juros. Mas agora sabemos o quão errado essa visão estava. Por isso, permanecemos com uma meta de inflação que é considerada respeitável porque é o que todas as pessoas respeitáveis aceitam. E é o que todas as pessoas respeitáveis aceitam porque é considerada respeitável.

O que nós queremos? Quatro por cento! Quando queremos isso? Agora!

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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