Oi Nassif, segue abaixo minha tradução de um post do Paul Krugman, publicado na Sexta passada, que faz uma crítica contundente ao patamar muito reduzido para as metas de inflação, de 2 por cento ao ano. Esse debate é particularmente importante aqui no Brasil, pois muitos economistas defendem a redução da meta de inflação para esse patamar, se não agora, num futuro próximo. O texto de Krugman argumenta que esse patamar reduzido não passa de preconceito, e nada mais.
Do New York Times
A solução dos quatro por cento
Blog do Paul Krugman
Larry Ball argumenta que seria muito melhor termos uma meta de inflação de 4 por cento do que de 2 por cento, o que é neste momento a ortodoxia dos bancos centrais. Academicamente, essa posição não é nada estranha. Na verdade, a argumentação de Ball é muito semelhante à que Olivier Blanchard fez há três anos, apenas enunciada de modo mais enfático e apresentando maiores evidências.
O ponto básico é que um patamar maior para a inflação tornaria menos provável o surgimento da armadilha de liquidez, em que a política monetária convencional está diante do seu limite inferior zero, e menos onerosa quando ela acontece. Ball estima que se tivéssemos chegado a esta crise com uma meta de inflaçãosubjacente de 4 por cento, a média de desemprego ao longo dos últimos três anos teria sido dois pontos percentuais menor. Isso é enorme – equivale a milhões de empregos e trilhões de dólares extras de produção.
Existem dois argumentos principais contra uma meta de inflação mais elevada. Uma delas é que eventos como a atual crise quase nunca acontecem. Minha opinião é que os custos destas crises são tão elevados e as dificuldades que tivemos em responder tão grotescas que, mesmo que fossem eventos de 75 em 75 anos, seriam suficientes para justificar outro tipo de política. Mas Ball também argumenta que o risco do surgimento da armadilha de liquidez é muito maior do que a sabedoria convencional nos quer fazer crer. Basta olhar para a experiência dos EUA. As últimas três recessões foram todas recessões “pós-modernas”, causadas por exageros no setor privado, não por apertos monetários do Fed – e em cada caso o Fed teve muita dificuldade para obter resultados. Ambas as recessões de 1990-1991 e 2001 foram eventos de armadilha de liquidez e 2007 foi, na verdade, de acordo com o que havia se tornado o padrão normal, não uma exceção bizarra.
De todo modo, um ponto que Ball não menciona é que, na medida em que consideramos as questões do Japão, em parte, demográficas, isso está se tornando a norma também: baixa fertilidade e, talvez, os baixos retornos de investimentos também estão se tornando o padrão entre os países avançados. Novamente, isso exige uma meta de inflação mais elevada.
O outro argumento seria a ameaça da perda de controle: você concorda que 4 por cento está OK, e de repente você percebe que está no governo Carter ou talvez em Weimar. Como Ball diz, não há realmente nenhuma evidência para este medo. De fato é o que quase todos os bancos centrais acreditam. Mas eles realmente não podem explicar porque acreditam e nunca devemos esquecer que houve uma época em que quase todos os bancos centrais acreditavam que sair do padrão-ouro significaria o fim da civilização.
O ponto é que a meta convencional de 2 por cento é apenas um preconceito, nada mais. Apoiado em certa medida por estudos que sugeriam que 2 por cento era o suficiente para tornar inofensivo o limite inferior zero para a taxa de juros. Mas agora sabemos o quão errado essa visão estava. Por isso, permanecemos com uma meta de inflação que é considerada respeitável porque é o que todas as pessoas respeitáveis aceitam. E é o que todas as pessoas respeitáveis aceitam porque é considerada respeitável.
O que nós queremos? Quatro por cento! Quando queremos isso? Agora!
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