Do blog Receio de Remorso
palavra (en)cantada [2008]
26 MAR 2009

“São bonitas as canções / Mesmo miseráveis os poetas”
[“Choro Bandido”, de Chico Buarque e Edu Lobo]
Jefferson Ribeiro
Palavra (En)Cantada não é apenas um filme genuinamente brasileiro por seus realizadores serem nossos compatriotas. A brasilidade é o próprio tema, ou melhor, a nossa palavra na vertente da música e do poema é o assunto do novo trabalho da diretora Helena Solberg. É abordando o limite entre música e poesia, de quando essas artes se confundem mutuamente e formam uma unidade [ou não é sempre assim?]; a variedade que a nossa língua oferece e a diversidade de canções/poesias que com ela se pode formar, alcançando seja lá qual nicho for; os movimentos, em destaque a Bossa Nova e Tropicália, que revolucionaram a maneira de trabalhar nossas palavras e nosso som, através de depoimentos de especialistas e artistas, que a declaração de amor ao objeto de análise é apresentada.
“O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.”
[Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto]
Pois tudo é dito com muita paixão. Quando não são os conhecimentos de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit que ganham espaço na tela, a fim de instruírem o espectador ao abordarem o tema de forma didática, passeando brevemente pelas mudanças sofridas pela música brasileira ou levantando questões relevantes, os grandes artistas, que moldam e constroem com as letras a arte, sejam os poetas ou os músicos – que vão desde Chico Buarque a Ferréz, passando por Adriana Calcanhotto, Tom Zé [e toda sua autenticidade], Lenine e Maria Bethânia -, expõem a relação individual de cada um com a palavra e o verso – isto é, com a poesia – e como isso está presente em suas músicas, além de revelarem personagens de importância inquestionável – e novamente o campo da literatura e da música se confundem – para a nossa cultura. As imagens de arquivo complementam o trabalho. Graças a elas, recorda-se [ou se descobre, dependendo da sua idade] de Caetano Veloso em uma entrevista esclarecedora quanto ao modo como se encarava as transformações iminentes na nossa música [e era com questionamentos e muitas dúvidas]. É por elas também que são trazidas ao espectador palavras ditas ou cantatas em um tempo pretérito, por vezes referido com uma certa saudade por quem o relembra; porém, a palavra se eternizou.
“Eu tomo uma coca-cola / Ela pensa em casamento / E uma canção me consola”
[“Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso]
E toda essa paixão contida em Palavra (En)Cantada emana facilmente para além da tela, bastando ao espectador se deleitar em meio a riqueza temática da obra e a forma como esta foi concebida. Não é sempre que um diretor consegue unir com sensibilidade e segurança as duas maiores proezas do Brasil – no campo artístico, devo dizer – num filme que vale pela condução e construção ideais conferidas às imagens e a abordagem à uma única matéria-prima [a palavra] e o tratamento que cada artista lhe confere – e aí se evidenciam as diferenças, vistas no documentário. Mas vale, sobretudo, por ampliar a possibilidade sensitiva que o espectador leva consigo ao entrar numa sala de cinema. É um campo vasto a explorar, é para quem gosta de música, poesia e cinema.
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