Acho que vale a pena lembrar algumas coisas.
Eu vi o post sobre o prefeito de Lins e a campanha mequetrefe, baixa mesmo, que fizeram contra ele. Legal saber que subiu 11 pp após isso.
Acho que já estava na hora de políticos fazerem um pouco mais de pesquisa.
Em todas as eleições recentes em que vi o tema da homofobia ou de direitos LGBT ser explorado, o que aconteceu é que quem ficou do lado LGBT ou ganhou a eleição ou pelo menos melhorou sua intenção de voto depois que a manipulação foi tentada.
Isso é válido para os seguintes episódios:
Venezuela 2013. Não deve ter tido impacto, mas o fato é que, depois da fala de Maduro, Capriles não perdeu intenção de voto. Falar aquilo pra quê, então?
Manaus 2012 (distribuíram DVDs contendo fala de Artur Virgilio favorável à união homoafetiva. O resultado é que Vanessa teve menor percentual de votos que a população evangélica .)
São Paulo 2012 (alguém lembra do que ocorreu depois do papelão em torno dos kit gays? Teve uns 10 posts aqui sobre isso.)
EUA 2012 (Obama ganhou dois estados decisivos, Ohio e Florida, por 1 ou 2% dos votos.)
França 2012 (Sarkozy apelou poucos dias antes da eleição, mas não levou.)
“Ele é casado, tem filhos?” (São Paulo capital 2008. Novamente não deve ter tido muito impacto, mas eu votei em branco nesse ano.)
E certamente Cameron não tem nenhum receio com isso de ser o conservador que comprou a bandeira da igualdade, já que sua popularidade entre LGBTs passou de 11 para 30% e entre conservadores habituais não caiu nada, já que não há opção mais conservadora para se votar…
Também é digno de nota que Zapatero, Sócrates e Cristina Fernandes não foram prejudicados politicamente por terem apoiado o casamento gay em seus países. Para Piñera, então, ter apoiado a união homoafetiva e a criminalização da homofobia, talvez seja o mais interessante a comentar de seu governo.
Mas será interessante se alguém conseguir lembrar de alguma campanha importante em que alguém se deu bem sendo anti-LGBTs (citar Paraguai não vale: os 3 candidatos estão na década de 1930.)
Se não é certo que ser simpatizante faz bem, muito menos garantido é o sucesso para o discurso contrário a direitos humanos.
Mas por que ser homofóbico (ou não ser aquele que apoia igualdade de direitos) dá mais prejuízo que retorno eleitoral?
A) Apesar de ser uma questão religiosa também, é muito diferente do aborto. No Brasil atual mais de 70% das pessoas apoia a criminalização da homofobia, e pouco mais de 20% apoia a descriminalização do aborto. O que é mais ou menos óbvio, pois não há razão lógica (ou sofisma convincente) para se tentar defender a homofobia.
B) Os eleitores muito fundamentalistas sabem que a vida deles não vai mudar se os vizinhos gays casarem. Aconteça o que ocorrer nas eleições, tais vizinhos continuarão vizinhos e continuarão gays. Vão votar em função de outra coisa, portanto. Alguns lembrarão da hipótese de que poderão ter netos ou sobrinhos LGBT. Ou, ainda, que tem vizinhos gays…
C) Direitos civis vêm antes de ideologia, o que faz com que LGBTs possam votar em contrário a suas famílias ou seus partidos de preferência habitual sem maiores dramas de “consciência política”. Em 2012, nos EUA, cerca de 60% dos LGBTs de famílias “republicanas” votaram por Obama. Inclusive republicanos famosos saíram a TV declarar isso.
D) LGBTs não são tão poucos, são cerca de 5 ou 6% da população. E começam a ter o saudável hábito de tentar influenciar suas famílias a respeito, o que expande o universo imediato de interessados para 20 ou 25%. Afinal de contas, votar em alguém que demoniza o filho não dá, né?
Com toda essa divulgação pela TV e mídia impressa sobre o Casamento Gay no mundo todo, além do drama da homofobia no Brasil, algum político candidato a executivo terá coragem de abordar o assunto de modo negativo?
Eu duvido. E acho que assim que algum se posicionar de modo positivo, a imprensa correrá a cobrar posições dos restantes. Se algum não for simpatizante isso aparecerá, no mínimo, nos debates.
Assim seja.
(provisoriamente, um outro texto, sobre o lado do eleitor, colado a seguir)
LGBTs têm o que buscar. Para sua autoestima. Para sua dignidade. Independente de sua ideologia, religião ou classe social. Não é desejável para ninguém que 100% tenham deveres mas apenas 95% tenham direitos. Nossa Constituição diz: “Art. 5.º Todos são iguais perante a lei.”
Por que, então, não poderia haver proteção legal ante a discriminação nos termos que a lei 7716/89 prevê para tantas categorias? Por que, então, não podemos ter direito ao registro civil de nossas uniões? Por que, então, devemos sofrer “bullying” nas escolas, calados? Ou deixar filhos e netos passando por isso? No trabalho, na comunidade. Onde for.
Ou, se, por alguma sorte, nós mesmos não passamos por problemas, por que deixarmos semelhantes passarem? Só por que não interessa à ditadura da maioria?
A legislação brasileira é atrasada em relação à quase totalidade dos países da OCDE e dos mais adiantados da América Latina. Não precisamos sempre ficar “a reboque”.
As questões LGBT estão na política de quase todo o mundo democrático, é só olhar para fora do quadrado. Não importa como foi 2010. Fale com seus parentes e conhecidos em 2012, explique sua posição. E já pense em 2014!!!
Em matéria de direitos civis e humanos não se deve ser indiferente. Um político que não se manifeste claramente pela igualdade de direitos civis para todas as pessoas está trabalhando, ainda que com sua omissão, pelo lado contrário, permite que o discurso da discriminação e preconceito se perpetue, que ganhe espaço, que se sinta majoritário.
Não se contente com menos que a igualdade! Influencie, faça a diferença! Ou, pelo menos, deixe os políticos desconfortáveis com a indiferença deles…
Não espere tudo dos outros! Faça propaganda negativa de políticos homofóbicos. Faça propaganda positiva de políticos simpatizantes!
Nós podemos.
(O quadro em anexo é pra lembrar o potencial de gente que pode ouvir falar mal de político homofóbico ou omisso.)
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