4 de junho de 2026

O Plano de Resíduos de São Bernardo do Campo

A administração pública de São Bernardo de campo, município da região metropolitana de São Paulo, pretende investir centenas de milhões de Reais num modelo tecnológico e de gestão de resíduos sólidos baseado numa importante omissão, que pode ser resumida numa única frase pinçada do seu Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos: “O ideal é que o município implante um programa eficiente que recupere a médio prazo, 20% do total dos resíduos coletados”.

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Por força da melhor gestão e do artigo 9º da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prioriza a reciclagem sobre qualquer outra forma de tratamento, o município deve reciclar não 20%, mas 87% de todos os resíduos (100% dos resíduos secos e úmidos). Prioridade é, segundo Houaiss, condição do que é o primeiro em tempo, ordem, preferência, primazia, urgência, premência.

Isso não é um mero detalhe. O “esquecimento” do artigo 9º pelo plano de resíduos  associado à epifania do “o ideal é que o município implante um programa eficiente que recupere a médio prazo, 20% do total dos resíduos coletados”  redirecionou a prioridade do modelo tecnológico e de gestão para a incineração e atropelou, de uma tacada só, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Plano Brasil sem Miséria.

A escolha de uma tecnologia não é neutra. Prejudica a uns e beneficia a outros.

O belo e atrevido Plano Brasil sem Miséria objetiva elevar a renda e as condições de bem-estar de, entre outros, catadores de materiais recicláveis e famílias extremamente pobres pelo apoio à sua organização produtiva.

Organização produtiva que precisa de resíduos secos para serem coletados, triados e vendidos.

Mas pretendem que 76% dos resíduos secos recicláveis sejam destruídos. Durante décadas.  Porque “o ideal é que o município implante um programa eficiente que recupere a médio prazo, 20% do total dos resíduos coletados”. Por quê?

Talvez porque falte na região catadores de materiais recicláveis e famílias extremamente pobres a serem integradas.

Ou porque não se confie na capacidade dos catadores e outras pessoas extremamente pobres de coletar e triar 360 toneladas/dia de resíduos secos. (Que saudades de quando se ouvia nas ruas dessa cidade: “que nunca mais se duvide da capacidade de luta da classe trabalhadora“.)

Ou talvez porque se deva também elevar a renda e as condições de bem-estar dos fabricantes, comerciantes e operadores de incineradores.  Pobrecitos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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