Publicado em O Estado de S. Paulo
[Caderno Aliás, A Semana Revista],
Domingo, 3 de março de 2013, p. J7.
O corcoveio da estrada
●●●José de Souza Martins
J. S. Martins (2005)
A briga entre a Serra do Mar e a engenharia é muito antiga. Quase sempre com perdas de vidas e destruições materiais consideráveis, além dos danos ambientais de reparação demorada e problemática. Há alguns anos, previa-se que o reparo dos danos causados pela construção da Rodovia dos Imigrantes não se faria nem em meio século. Há dessa briga notícias desde o século XVIII. A engenharia perde em algumas vezes e ganha em outras, com obras admiráveis de deixar boquiaberto qualquer um e conquistas reais no estabelecimento da comunicação entre o litoral e o planalto. Mas a Serra também se insurge contra as tentativas de impor o primado dos interesses humanos às suas notórias limitações. A Serra do Mar, sazonalmente, grita sua fragilidade.
Na verdade, a Serra é viva. Há quatro décadas, pelo menos, os técnicos têm dito que a Serra se move cerca de meio centímetro por ano e que está sujeita a movimentações decorrentes de variações de temperatura incidindo sobre a rocha e o solo. Além das chuvas frequentes e abundantes que se infiltram em rachaduras produzidas por essas variações, demolindo conformações que foram alteradas pelo homem. O período crítico, dizem, é o do fim do tempo das águas, em março e abril, quando o solo saturado e a infiltração das águas provocam corrimentos e escorregamentos de graves consequências, como ocorreu agora.
O embate é antigo. Dizia o Padre José de Anchieta, em 1555, em carta para os jesuítas de Coimbra, sobre o caminho do mar de sua época, “que é caminho mui áspero e creio que é o pior que há em muita parte do mundo, de atoleiros, subidas e matos.” Vindo por ele a Piratininga, o Irmão Gregório Serrão dormia à noite, na viagem, “com a camisa empapada em água”, sem poder fazer fogo para os misteres da travessia. Duzentos anos depois, o historiador beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus, que por esse caminho transitou várias vezes, ainda o definia como “talvez o pior que tem o mundo”. Em, 1781, governava a Capitania de São Paulo o tirano Martim Lopes Lobo de Saldanha, que, em carta ao reino, dava notícia de desastres no caminho de São Paulo ao Cubatão de Santos: nele “não se transitava sem que fosse aos ombros dos índios e sempre em evidente perigo de vida, por se passar por uns apertados tão fundos, nascidos da primeira picada que os primeiros habitantes tinham feito, e tão estreita, que não cabia mais do que uma pessoa ou animal, ficando muitas vezes abafados debaixo da terra que com as chuvas desabava e outros mortos nas profundas covas que com os pés faziam, o que aqui chamam ‘Caldeirões’…” A notícia não difere muito de outras divulgadas desde então, até em dias recentes, mesmo tendo melhorado muito a competência técnica e científica do homem para lidar com os poderosos caprichos da Serra do Mar.
A Serra tem sido ferida, com frequência cada vez maior desde o século XVIII: a Calçada do Lorena, de 1789, que ainda existe; a Estrada da Maioridade, de 1840; a São Paulo Railway, inaugurada em 1867; o Caminho do Mar, um aperfeiçoamento da Maioridade, em 1913, melhorado e pavimentado em 1923; a Sorocabana, em 1937; a Via Anchieta, cuja primeira pista foi inaugurada em 1947. E, finalmente, a Rodovia dos Imigrantes, inaugurada em 1976. Sem contar, a enorme represa da Billings e a tubulação que leva a água à usina hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, e os trilhos que a acompanham. Uma viagem do litoral de Santos ao planalto de Piratininga, que no século XVI tomava vários e penosos dias, com a Calçada do Lorena reduziu-se para dois dias, com a ferrovia caiu para pouco mais de duas horas e com a Imigrantes para cerca de uma hora.
É evidente que a travessia da Serra trouxe vantagens econômicas ao Estado de São Paulo, viabilizou o desenvolvimento da agricultura de exportação, a de açúcar primeiro e a de café depois, viabilizou a industrialização e desdobrou-se em imensos benefícios sociais, criando na região as bases da sociedade moderna. Mas seus efeitos colaterais não têm sido avaliados com o mesmo rigor técnico das obras em si. Em especial, na construção da Imigrantes, várias objeções técnicas foram feitas em relação a opções possivelmente problemáticas, como a de sobrecarregar o mesmo maciço da Anchieta, ou o impacto das estradas de serviço na vulnerabilidade da Serra e a invasão de áreas pela população residual e descartada das obras e a consequente favelização da encosta. Uma combinação perversa de lucrativos propósitos econômicos, ótimos projetos de engenharia, péssimas avaliações ambientais, injustificáveis omissões sociais O absolutimo das diferentes áreas de conhecimento, a falta de diálogo entre as ciências, o que já não se justifica no estado atual do conhecimento científico, a prevalência do econômico sobre o ambiental e o social, tudo converge para propiciar a ocorrência dos desastres que regularmente nos dizem que a certeza do monumental e o fascínio do belo não são suficientes para ditar obras na Serra do Mar.
* Sociólogo. Professor Emérito
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Dentre outros livros, autor de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34).
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