Eu sei que devia parar de ver comentários de notícias na internet e mesmo ignorar os compartilhamentos que aparecem de vez em sempre na minha timeline, mas acabo mantendo este hábito, por mais que só faça a minha decepção com as pessoas aumentar ainda mais. Recentemente um dos temas cobertos pela ignorância dos comentaristas e revoltados da internet foi o tal “Bolsa Crack”, mas quero falar de um ainda mais questionado: o Bolsa Família, a representação máxima dos programas de auxílio e distribuição de renda implantados pelo PT durante seu governo.
Apesar de se chamar Bolsa Família, muitos o chamam de “esmola”, “compra de voto” ou “dinheiro de graça pra vagabundo”. Logo se percebe que, quem diz isso, além de ignorância política, carrega grande fardo de preconceito. É um sentimento mais profundo que esse ódio em especial: o perigoso individualismo que tem ganhado cada vez mais força na opinião do cidadão e o transformou em cidadão-consumidor. Na cartilha de comportamento do cidadão-consumidor brasileiro está a justa crítica à ineficiência estatal aliada ao repúdio por tudo que é público, por todos os impostos e também pelo uso imoral do seu precioso dinheiro – uso imoral que pode ser tanto para a corrupção quanto para bolsas para pobres, o que pra algumas pessoas é a mesma coisa.
Não discordo do fato de o Estado brasileiro deixar muito, mas muito mesmo, a desejar. Por isso, não quero entrar no âmbito da eficiência dos programas sociais do governo ou do modo como são feitos, e sim contrariar a ideia de que estes programas, por si só, representam algo ruim, como uma medida comunista ou, como disse antes, esmola eleitoreira. No seu brilhante livro “Da divisão do trabalho social”, Émile Durkheim, ao analisar a sociedade, defende a ideia de que, ao contrário do que muitos pensam, ela não é construída para criar desigualdades, mas para atenuá-las. Segundo ele, a sociedade (que pode ser tomada como a organização social, ou seja, o governo) e suas leis têm o papel de colocar em pé de igualdade homens que, na natureza, teriam vantagens e habilidades desiguais na luta por alimento, segurança, saúde e etc.
Logo, não é difícil concluir que, se o papel da sociedade/governo é atenuar desigualdades naturais (ou históricas, como no caso do Brasil), os programas sociais não podem ser desacreditados a priori, como se não fossem uma opção válida para essa função. O debate pode ser feito se é ou não a melhor opção, mas mesmo assim existem bons argumentos que mostram que a alternativa é necessária por aqui. Claro, ninguém quer que as assistências sejam mantidas indefinidamente, mas em casos de extrema miséria o auxílio se faz urgente. Pode-se argumentar que seria melhor trazer desenvolvimento e empregos para as pessoas que dependem dele, mas aí configura-se, mais uma vez, ignorância sobre as dificuldades políticas para fazer isso e o tempo que levaria. Deste modo, uma solução paliativa se faz necessária, do mesmo modo que, em muitos casos, um médico tem de ministrar um remédio para atenuar os sintomas de um paciente que sofre para depois iniciar o tratamento da doença em sua raiz.
Mais uma vez: não discordo da ineficiência estatal ao distribuir os recursos, mas questiono os preconceitos que pipocam na internet e na vida em carne e osso por aí. Talvez a principal bolsa que precise ser distribuída seja uma Bolsa Ignorância, uma quantia em dinheiro para recompensar as pessoas que se dêem ao duro trabalho de pesquisar, ler e debater sobre um tema antes de vomitar besteiras. Poderia ser uma solução para aqueles que pensam que “os nordestinos fazem filhos pra ganhar mais dinheiro” ou que “os vagabundos preferem o dinheiro de graça a trabalhar”. Não duvido que existam indivíduos assim, mas é muita pretensão dizer que todos os 13 milhões de beneficiados pelo Bolsa Família se comportem desta maneira.
O Bolsa Ignorância poderia também fazer alguns procurarem na internet dados acerca do dinheiro usado no programa. Assim, eles saberiam que foram destinados 20 milhões de reais, ou absurdos 0,46% do PIB brasileiro, ao Bolsa Família em 2012. A única conclusão que se pode tirar destes dados é que este é, realmente, o maior problema do Brasil: o roubo do dinheiro do cidadão trabalhador para distribuição pra vagabundo.
Críticas são sempre bem-vindas, principalmente numa democracia, mas foquemos as nossas nas questões que realmente precisam – e o governo e os políticos em geral nos oferecem muitos motivos para criticá-los, logo, isso não falta por aqui.
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