4 de junho de 2026

Gerente que é bom vai ao cinema

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Gerente que é bom vai ao cinema

Por Noemi Jaffe | Para o Valor, de São Paulo

 

 

Divulgação“O Homem ao Lado”, de Gastón Duprat e Mariano Cohn: no pior capítulo, autores abordam de modo unilateral estratégias de negociação

 

Immanuel Kant, numa das mais precisas definições sobre a arte, diz que ela é a realização desinteressada do belo. A novidade kantiana está justamente na palavra “desinteressada” que, nesse caso, tem o mesmo significado de gratuita, sem finalidade. Produz-se arte, principalmente, pelo desejo e pela necessidade de produzir arte e deriva dessa liberdade o fato de ela ser tão misteriosamente prazerosa. Ou seja, a arte é uma das poucas práticas humanas que não apresenta uma função clara ou específica e tudo aquilo a que ela pode servir – amadurecimento, transformação e até ao mercado – é consequência do uso que se faz dela e não pertence intrinsecamente a ela, que, ao não servir para ninguém nem a nada, mantém sua autonomia.

Mas daí aparecem os gerentes. Que me desculpem os gerentes, mas por que nós, que não somos gerentes, ficamos com a impressão de que os gerentes passam a vida inteira a gerenciar? E, afinal, o que é gerenciar? O dicionário etimológico sugere muitas acepções, mas certamente a ideia convencional e contemporânea é a de “administrar”. Pois bem: aparentemente, os gerentes administram. Mas por que seria preciso administrar tudo na vida, do trabalho ao café da manhã, passando pelo choro dos bebês e pelo cinema?

É disso justamente que trata o livro “Os Filmes Que Todo Gerente Deve Ver”, recentemente publicado. Dividido em capítulos, com títulos que vão de “Motivação e satisfação no trabalho” a “Poder e ética nas organizações”, o livro apresenta cerca de 60 filmes, discutindo-os sempre do ponto de vista gerencial.

Por exemplo, o que se pode aprender, em termos de trabalho em equipe, com o filme “A Marcha dos Pinguins”? Ou então – e talvez esse seja o pior capítulo do livro – quais são as estratégias de negociação que o filme “O Homem ao Lado” tem a ensinar? De acordo com as lições expostas no livro, o remediado que quer a qualquer custo abrir uma janela em seu apartamento simples, que dá justamente de frente para a sala de uma casa projetada por Le Corbusier, em Buenos Aires, utiliza dez diferentes métodos de negociação para convencer seu vizinho rico a concordar com ele: “Se colar, colou”, “Chá de sumiço”, “Você é o máximo”, “Devo, não nego” e por aí vai.

O problema é que, em nenhuma das estratégias expostas, os autores do livro parecem desconfiar que é justamente o vizinho pobre quem está com a razão e não o vizinho rico, dono de uma casa toda de vidro, que não cogita sequer que o dono do pequeno apartamento possa desfrutar de um pouco mais de luz. Mas o problema vai além, é claro. Me pergunto por que assistir a filmes com um propósito gerencial; ou ainda: por que assistir a filmes com um propósito qualquer? Ir ao cinema para extrair lições do que se vê e não somente para ir ao cinema é como fazer sexo para conferir a anatomia do parceiro.

O mestre Antonio Candido já disse que quando se lê um livro em busca de uma interpretação qualquer, você a encontra. Se quiser encontrar questões sobre homossexualidade em “Pequeno Príncipe”, não se preocupe, você vai encontrar. Pois é justamente esse o problema. Vá em busca de arte com uma finalidade, uma função, um objetivo e você o obterá, porque a boa arte é livre. O homem – ou melhor, o gerente no homem – é que quer funcionalizá-la e administrá-lá.

Gerentes, faço um pedido: se quiserem administrar melhor seus negócios, por algum tempo não façam o que reza a etimologia da própria palavra. Não neguem o ócio. A arte é ociosa. Não a usem para motivo algum.

“Os Filmes Que Todo Gerente Deve Ver – Aprenda nos Cinemas o Que Você Precisa Saber Sobre Gestão”

Marco A. Oliveira e Pedro Grawunder. Editora Saraiva, 376 págs., R$ 49,90

Noemi Jaffe é doutora em literatura brasileira pela USP e autora de “Quando Nada Está Acontecendo” (Martins Editora), “A Verdadeira História do Alfabeto” (Companhia das Letras) e “O Que os Cegos Estão Sonhando?” (Editora 34)

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