6 de junho de 2026

Parque indigena do Xingu, mitos e verdades

Nassif, confrontar mitos. Contar historias do ponto de vista dos vencidos. Trazer à luz verdades que muitos desconhecem. Abrir os olhos dos mais jovens.

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É minha intenção neste texto.

A criação do PIX – Parque Indigena do Xingu – foi uma ousada combinação de zoologico humano com um tropical campo de refugiados.

Campo de refugiados? Zoologico humano no Brasil? Como?

vamos primeiro às definições: “… pessoas obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violencia generalizada e violações dos direitos humanos”; “… é um local especifico para se manter animais, selvagens ou domesticados, que podem ser exibidos ao publico…”

agora aos fatos:

Tudo começou quando a Expedição Roncador Xingu se deu conta que nos cerrados e nas florestas e margens dos rios do Centro Oeste, além de fabulosas onças, catitus, guaribas, antas, ariranhas e os bravos indios Xavantes (que ja tinham matado 6 da expedição) haviam outros milhares de habitantes indigenas dispostos a resistir para impedir o avanço dos brancos sobre seus vastos e, até então, sagrados territorios.

Tropas do Exército, com toda parafernália militar, digna de uma guerra, tomaram à frente da Expedição. A ordem superior era matar, matar quem encontrasse pela frente.

Do outro lado, defendendo seus territorios com arcos, flechas, bordunas e sarabatanas estavam os guerreiros Kreen Akarore, Kalapalo, Cuicuro, Kamaiurá, Yaualapitis, Kalapalos, Tapaiuns, Matipu, Uaurá,Juruna, Caiabi, Suaiá e outros.

Pela primeira vez estes indios da regiao central do Brasil sentiram na pele o que era um “pau de fogo”, que cuspia um mortal e invisível projétil muito superior às suas aerodinamicas flechas.

As indias conheceram a relação sexual violenta e a incapacidade de reagir ao uso de seus corpos por estranhos homens peludos, fedorentos, com pernas e braços amarradas ao chão, indefesas, como presas animais.

O conhecido Rio das Mortes, faz jus ao batismo do nome dado em homenagem aos centenas de corpos de indios tombados em suas margens.

A dimensão da carnificina e da barbara guerra desigual extrapolou o intransponível silêncio da mata.

Pesquisadores europeus chegavam ao Brasil trazendo na bagagem os primeiros ensinamentos da nova ciencia de estudos do homem, já testados na Africa, baseados no relativismo e diversidade cultural. Interviram, preocupados com o exterminio eminente. O desaparecimento de um fertil e desconhecido campo de estudos e pesquisa era inaceitável, seria uma perda irreparável para a o desenvolvimento da nova ciencia no Brasil. As denuncias chocavam a comunidade academica francesa.

Era urgente achar uma saída.

Na frente da expedição se encontrava três irmãos, jovens caipiras, com uma tragetoria de vida comum: depois de ficarem órfãos na grande metróple e a vida urbana se tornar a cada dia mais insurportável, partiram em busca de trabalho no interior. Encontraram a Fundação Brasil Central comandada por militares e financiada pela elite empresarial Paulistana, regimentando homens mateiros dispostos e capazes de desbravar o cerrado e a floresta. Era o caminho desejado para suas fugas existenciais.

Fantasiados de sertanejos e passando por rudes analfabetos foram admitidos na expedição.

Estavam no inicio de uma grande aventura rumo ao desconhecido.

Os pacatos e romanticos irmaos Vilas Boas, jamais imaginavam que iriam chefiar aquela expedição e encontrar no caminho do trabalho homens e mulheres nus como vieram à terra. Ficaram deslumbrados, como crianças rindo à toa diante de um espetaculo circense. Nunca tinham imaginado tanta beleza, alegria, e harmonia humana juntas.

Sensibilizados, mas impotentes para mudar o modus operantis da tropa. Econtraram um General, antropologo e medico, como aliados.

Eram os personagens perfeitos para servirem ao projeto militar de avançar a expedição. Seriam os inocentes úteis, encarregados de achar uma forma que tirassem os “obstáculos” inesperados no caminho da expedição. Com uma providencial máscara humanista e protetora. Simples.

“Os indios nao podem impedir o desenvolvimento do Brasil” afirmava o comandante militar da tropa. “Morrer se preciso for, matar nunca” contrapunha o marechal positivista.

Continuaram a marcha, os indios já considerados pelos militares como anti-símbolos do grande projeto de desenvolvimento. Teriam que serem afastados, a qualquer custo, do caminho do ” Brasil Grande”.

” Nossa função era servir de intermediário entre essa coisa nova que chega para destruir a comunidade indigena, enquanto ela está despreparada para receber” explicava Orlando Villas Boas, o mais destacado dos 3 irmãos, sobre o inocente serviço prestado aos interesses de ocupação dos territorios tradicionais indigenas.

Na construção de um projeto de deslocamento dos indios, contaram com ajuda intelectual de um jovem antropólogo ( que veria ser o mais importante discipulo do francês, Claude Levi Strauss, no Brasil). Como “proteger” aqueles indios ameaçados? Era a pergunda que o jovem Darcy Ribeiro fazia.

Nasceu o Parque Nacional do Xingu, como resposta e como solução na liberação do vasto e cobiçado territorio ocupado por milhares de indios no Centro Oeste do Brasil.

O primeiro zoologico humano iria confinar, na mesma área 16 nações indigenas com historias, desenvolvimento e 4 linguas totalmente diferentes. Como se fossem selvagens porcos do mato, veados, jacarés, onças, teriam que conviver doravantes juntos.

Fantastica e oportuna propaganda criada em 61 na melhora da imagem exterminadora de indios que cobria a nova velha Ditadura que iria se instalar no Brasil tres anos após. A promessa era de que no Parque teriam proteção e garantias do Estado. A terra seria demarcada e suas culturas ficariam intactas.

“Se nao abandonassem suas terras tradicionais, estavam condenados a morrer” sentenciavam os novos sertanistas.

Prá concretizar tal façanha os ideólogos teriam, porém, que atentar contra o principio fundamental da antropologia: a alteridade. Acrescentada ao que de mais terrível pode acontecer à uma população indigena: arranca-lo, à força, de seu territorio tradicional onde através dos séculos desenvolveram todo um universo de mitologias e uma cosmologia que explicam a vida, a morte, o renascimento, que regem a delicada relação com todos os espiritos superiores da terra, da água e do espaço. Cada curva de rio, cemiterios, santuarios que so os que vivem em estreita relação com a natureza sabem da sua importancia, ficariam para trás, no esquecimento.

Tirar milhares de indios de suas terras, seu habitat natural e leva-lo a um outro espaço sem consultá-los está se criando um campo de refugiados.

O campo onde seria expostos a estudiosos, fotografos, artistas, cineastas, etc, etc, enfim um mosaico de uma variedade fantastica de etnias, línguas, costumes, “intactos”, confinados num mesmo espaço, cercados de rios e florestas. Lindo, maravilhoso, mas que nao deixa de ser campo de refugiados.

De sobra, os milicos, seus amigos e parentes, teriam um cenario exuberante para curtirem os feriados e fins de semana fora da entediada capital federal, transformando o sagrado ritual Kuarup, num banal divertimento turístico.

Chamavam isto de proteção à cultura indigena.

Durantes anos foram os indios mais expostos do planeta, os mais fotografados, os mais filmados, os que mais serviram como objetos de teses academicas, tornado-se os mais visitados de todos os indios do Brasil juntos.

Mas como toda vitrine, todo cenario, construido do nada, uma hora chega ao fim, o Parque Nacional do Xingu, depois de meio seculo, com a morte de seus criadores, é abandonado à propria sorte.

Novas gerações tinham chegado, queriam saber as historias dos seus antepasados.

Junto tbém chegaram estradas, que cortaram de leste a oeste e de norte a sul do Parque, seus rios eram represados para construção de hidreeletricas. Estava ameaçada definitivamente sua sustentabilidade.

Onde estava a proteção da terra prometida ? E sua cultura? A exposição ao publico seria a proteção?

Os novos ficaram sabendo que aquelas terras não eram suas terras. Aonde estavam entao as terras de seus ancestrais? Era a pergunta que os jovens “xinguanos” fazem, a si mesmo, por falta de interlocutores.

Sem resposta, organizaram uma comitiva com participação dos mais velhos e partiram na busca de territorios que seus ancestrais foram obrigados a abandonar.

Como todo povo refugiado que sonha um dia voltar ao seu Pais de origem.

Depois de longas caminhadas, chegaram.

Chocados, entenderam tudo. As terras de seus ancestrais tinham desaparecido. No lugar encontraram vastos pastos de gado e de soja e homens armados a defende-los.

Uma historia estava sepultada.

Crime de lesa humanidade? Nao. O etnocentrismo exarcebado é a caracterista maior de todo colonialista, sua filosofia de que “todo indio bom é indio morto” criou raizes na sociedade branca dominante em todos os níveis.

Um exemplo se viu no julgamento dos rapazes que assassinaram barbaramente em Brasilia o líder pataxó Galdino: ” o indio já está morto, estes rapazes tem tudo pela frente…” disse a juíza pra absolver os criminosos.

Tirem suas conclusões destes Tristes T(r)opicos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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