4 de junho de 2026

Poema de Dom Luis de Góngora, 1580

Por Ivanisa Teitelroit Martins

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Por Sérgio Pachá

Depois da conferência “La Imagen Poética de Luis de Góngora”, de Federico
García Lorca, e dos estudos e análises que Dámaso Alonso consagrou à obra do
poeta cordobês, somente um ignaro ou um fátuo satisfeito insistirá em apodar
de gongórico o estro de Dom Luis. Eu tive a boa fortuna de, por dois
trimestres, participar, na Universidade da Califórnia, de um seminário sobre
este genial andaluz, ministrado por outro andaluz – este de Granada, como
García Lorca – meu saudoso amigo e mestre Enrique Martínez-López. E para
sempre me rendi ao Cordobês.

Aqui vai uma letrilha gongorina, ressumante de lirismo e lágrimas, que em
nada lembra a sombria carranca imortalizada em tela por Velázquez. Leiam-na:
nosso Luís – o de Camões – não a teria feito melhor.
S.P.

Dom Luis de Góngora

La más bella niña
de nuestro lugar,
hoy viuda y sola
y ayer por casar,
viendo que sus ojos
a la guerra van,
a su madre dice
que escucha su mal:
Dejadme llorar,
orillas del mar.

Pues me distes, madre,
en tan tierna edad
tan corto el placer,
tan largo el penar,
y me cautivastes
de quien hoy se va
y lleva las llaves
de mi libertad,
Dejadme llorar,
orillas del mar.

En llorar conviertan
mis ojos de hoy más
el sabroso oficio
del dulce mirar,
pues que no se pueden
mejor ocupar
yéndose a la guerra
quien era mi paz.
Dejadme llorar,
orillas del mar.

No me pongáis freno
ni queráis culpar,
que lo uno es justo,
lo otro por demás.
Si me queréis bien
no me hagáis mal;
harto peor fuera
morir y callar.
Dejadme llorar,
orillas del mar.

Dulce madre mía,
¿quién no llorará,
aunque tenga el pecho
como un pedernal
y no dará voces
viendo marchitar
los más verdes años
de mi mocedad?
Dejadme llorar,
orillas del mar.

Váyanse las noches,
pues ido se han
los ojos que hacían
los míos velar;
váyanse, y no vean
tanta soledad
después que en mi lecho
sobra la mitad.
Dejadme llorar,
orillas del mar.

(Dom Luis de Góngora)

A moça mais linda
do nosso lugar,
viúva hoje e só
e ontem por casar,
vendo que seus olhos
vão-se a guerrear,
diz para sua mãe 
que escuta seu mal:
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

Pois me destes, mãe,
menina ainda assaz,
tão curto o prazer,
tão longo o penar;
e me cativastes
a quem se hoje vai,
levando o segredo
do meu respirar,
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

Em chorar meus olhos
mudem mais e mais
o afazer suave,
de olhar seu olhar,
já que se não podem
melhor ocupar,
quando vai à guerra
quem era minha paz.
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

Não me ponhais freio
nem queirais culpar:
se uma coisa é justa,
a outra o é por demais. 

Se me quereis bem,
mal me não façais,
muito pior fora
morrer-me e calar.
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

Minha doce mãe,
quem não chorará,
tenha embora o peito
de pedra e de cal,
quem não dará brados,
vendo definhar
os melhores anos
do meu desbrochar?
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

Que se vão as noites,
pois não tenho mais
quem meus olhos tinha
nos seus, a velar.
Que se vão, nem vejam
desviver-me já
desde que, em meu leito,
só, me hei de deitar.
Deixai-me chorar,
ó praias do mar.

                       (Tradução de Sergio Pachá)

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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