
do Justificando
Pode apagar o fogo, mané, eu não volto mais
por Roberto Tardelli
Assim termina um samba pouco conhecido do genial Adoniran Barbosa, o maior escrevinhador sobre o que é ser pobrenegro na metrópole. O imperdível Despejo na Favela deveria tocar todos os dias, ante de se iniciar o expediente das varas cíveis.
Acender o fogo. Sentar-se à beira do fogo. Quem, dentre os mortais, não quis, um dia, fazer amor, não por telepatia, mas ao pé de uma lareira acesa, que levante a primeira mentira. Uma vela acesa cria o clima, o vinho e o risoto e a paleta virão em complemento à vela, além de Cole Porter, é óbvio. Não sorrir diante de uma taça de vinho, numa iluminação de velas, é desafiar os sentidos do prazer, em sua mais lúdica presença.
Todavia, correr com o fogo já nos escapa um pouco à vã compreensão. Um fogo que sai de lá do fim do mundo e que deve vir aceso até o Rio de Janeiro, passando por uma caminho nada lógico, que une pontos distantes de tudo que se refira geometria.
A tocha olímpica. Dizem as más línguas que cada uma custará R$ 1.985,19, um valor quebrado, e que não estará nas boas lojas do ramo, seja lá qual for o ramo de quem vende tochas, mas só poderá ser adquirida por quem a carregar, uma espécie de mimo pelo inesquecível momento de mais de dez mil pessoas, número aproximado dos que terão a honra de a carregarem.
Como sempre, são os mesmo que beijam a mocinha no fim do filme, eles, os patrocinadores, que terão direito, através de seus CEOs mais proeminentes, a uma espécie de Tocha VIP, sem que ele precise suar a camisa para leva-la por alguns metros e dali a passa-la a outro emocionado corredor. Quem tem a grana, tem a tocha bacana, parece funcionar assim. Os dez mil se inscreveram (teve mais de dez mil? A cada dia, a gente se surpreende mais com a vida mundana que nos encana). Houve restrições: gente ligada ao poder político da cidade. Prefeitos e vereadores poderiam se aproveitar de carregar a tocha para distribuir santinhos ou um vale-alguma-coisa. Nope. Só gente do povo ou gente ligada ao esporte. Ex-atletas (vi um mais gordinho do que eu, a me dar a suspeita de quer ser ex-atleta é bem mais agradável do que ele próprio imaginava), pessoas conhecidas do chamado grande público, além dos estraga-prazeres de sempre, os vegetarianos do churrasco: os caras que se auto inscreveram para apagar a tocha. A turma da água no chope se movimenta para apagar a tocha.
Concordo, há coisas mais interessantes a se fazer na vida, mas cada um faz da vida o que bem entender e conheço um monte de gente que acha que ir pescar é a coisa mais emocionante do mundo. Conheço uns caras que assistem a jogo de golfe pela TV, novos ricos, que dúvida. Milhões de pessoas assassinam o domingo vendo o Faustão; portanto, correr para apagar a tocha é, na pior das hipóteses, uma excentricidade, uma das poucas a unir carnívoros e veganos, coxinhas e petralhas.
Apagar a tocha é crime? Por essa, o COI não esperava. Não é crime. Apagar tocha não é crime de dano, porque o dano pressupõe a destruição ou inutilização da coisa. Acendeu de novo, tá nova. Quebrar a tocha não tem graça, o gostoso é apagar a tocha, apagar o fogo, criar o anti-clímax, uma espécie de broxada olímpica, algo para sair no NYT, algo de fazer William Bonner franzir o cenho.
Não é crime de dano, juro pelas braçadas do profeta. Não é mesmo, embora queiram que seja; esse é o lado perrengue do direito criminal, ele estica sempre que precisamos agradar a pessoas importantes e mostrar que no Brasil o pau come para quem pisa na bola e para quem sopra na tocha alheia. O fato é desses que os penalistas chamavam de atípico, na época em que a tipicidade significava alguma coisa. Bons tempos aqueles.
Não é perturbação de sossego, até porque correr sossegado é algo incompatível com correr. Correr é sempre a pressa, correr com a tocha é correr sob holofotes, câmeras, fotos, filmagens, ipads, iphones, ai de nós. Ele estava correndo sossegado, assistido por dez mil pessoas, filmado por moto-links de diversas cores, fotografado, família aplaudindo, cunhado chamando o cara de gordo, a amiga dizendo que ela não sai da academia e só por isso está musculosa e feia, gente das esquerda torcendo o nariz e gente das direitadizendo a bandeira é verde e amarela (o azul é a cor mais sem moral ideologicamente falando). Sossego, onde, criatura?
Nem multa, nem nada.
Bem ao gosto da polícia. Medalha de ouro em cassetete nas costas e cabeça, medalha de ouro em spray de pimenta, medalha de ouro em bala de borracha.
Esse pódio brasileiro ninguém tasca.
Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
zé lima
20 de julho de 2016 12:10 pmMas, na composição do Mestre
Mas, na composição do Mestre Adoniran, a culpa foi toda em função do “fogo” da Inês, que se mostrava muito além da chama do seu comanheiro, cujo consolo foi ir ao portão, lá pras tantas e, após, em total desespero, foi à Centrla do Brasil, ao Hospital e até no Xadrez. Andou a cidade inteira e não encontrou Inês. Só lhe restou o “papé” no chão, perto do fogão, com o fátídico ultimato: “pode apagar o “fogo”, Mané; eu não volto mais! Ingrata, Inês!
Belo texto!
Bela referência ao Mestre, Adoniran!
Mas, os tempor são outros, bem mais tristes do que aquele vivido pelo personagem, Mané!
Vergetti
20 de julho de 2016 12:35 pmO nome da musica
“Apaga o fogo mané” é a crônica do abandono do choroso Mané, pela amada Inês, que não volta mais a casa para passar o café…
“Despejo da favela” é outra crônica. Neste caso, sobre uma “ordem superior” de despejo levada pelo oficial de justiça e assinada pelo “Seu Dr.”
zanchetta
20 de julho de 2016 3:02 pmMiguxa da Dilma carregando a
Miguxa da Dilma carregando a tocha…
[video:https://www.youtube.com/watch?v=j5yjNvwvwT0%5D
Vânia
20 de julho de 2016 3:10 pmDespejo na favela
[video:https://www.youtube.com/watch?v=0NCvDg6E3JQ%5D
Quando o oficial de justiça chegou
Lá na favela
E, contra seu desejo
Entregou pra seu narciso
Um aviso, uma ordem de despejo
— Assinada, seu doutor
Assim dizia a ‘pedição’
“Dentro de dez dias
Quero a favela vazia
E os barracos todos no chão”
— É uma ordem superior
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
É uma ordem superior
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
É uma ordem superior
— Não tem nada não, seu doutor
Não tem nada não
Amanhã mesmo vou deixar meu barracão
Não tem nada não, seu doutor
Vou sair daqui
Pra não ouvir o ronco do trator
— Pra mim não tem ‘probrema’
Em qualquer canto eu me arrumo
De qualquer jeito eu me ajeito
Depois, o que eu tenho é tão pouco
Minha mudança é tão pequena
Que cabe no bolso de trás
…Mas essa gente aí, hein?
Como é que faz?
Mas essa gente aí, hein?
Com’é que faz?
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
Essa gente aí
Como é que faz?
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor!
Essa gente aí, hein?!
Como é que faz?
Vânia
20 de julho de 2016 3:13 pmApaga o fogo Mané
[video:https://www.youtube.com/watch?v=z_Gp_3YbcDU%5D
Inez saiu dizendo que ia comprar um pavio
pro lampião
Pode me esperar Mané
Que eu já volto já
Acendi o fogão, botei a água pra esquentar
E fui pro portão
Só pra ver Inez chegar
Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra rua feito louco
Pra saber o que aconteceu
Procurei na Central
Procurei no Hospital e no xadrez
Andei a cidade inteira
E não encontrei Inez
Voltei pra casa triste demais
O que Inez me fez não se faz
E no chão bem perto do fogão
Encontrei um papel
Escrito assim:
-Pode apagar o fogo Mané que eu não volto mais!
Ricardo Gonçalvesi
21 de julho de 2016 11:01 amConfundiu de cara duas
Confundiu de cara duas musicas????
Aí não dá, né?