CULTURA NEGRA… SEM NEGRO
A edição do Globo último domingo, 18 de novembro, publicou parte de uma declaração nossa sobre a chamada “perigosa racialização” da cultura, temida por conta de recentes medidas governamentais de apoio a iniciativas culturais capitaneadas por produtores afrodescendentes.
Como o texto foi naturalmente editado, oferecemos aos visitantes sua versão integral, que é a seguinte:
A circulação da Cultura, hoje, no Brasil, é uma das questões que mais expressam a exclusão de que nós afrodescendentes somos vítimas. E tudo começa lá atrás, com a possibilidade de acumulação de capital com que foram beneficiados os imigrantes aqui chegados desde a última década do século 19.
Com isso, a maioria dos descendentes desses trabalhadores que vieram substituir, nas frentes de trabalho, africanos e afrobrasileiros “beneficiados” por uma abolição irresponsável, puderam usufruir, gradativamente, de cada vez melhores condições, principalmente educacionais.
Notadamente nas grandes cidades, desde cedo essas pessoas foram tendo acesso às melhores escolas e ambientes sociais, neles tecendo redes de amizade e parcerias importantes para a vida adulta, e através delas foram chegando, em vários níveis, aos núcleos de influência, poder e decisão.
É bom saber que na década de 20 houve tentativas oficiais – políticas públicas mesmo – no sentido de descorar a face africana do Brasil, até mesmo do ponto de vista biológico: supunha-se que a mestiçagem levaria ao embranquecimento final. Daí, a ideologia do “Brasil mestiço”, até hoje promovida, no sentido de diluir a identidade da população negra.
Hoje, então, a exclusão do povo negro nos “arraiais” da Cultura é um fato incontestável. Quando nós aparecemos um pouquinho, é sempre como objetos e não como sujeitos da produção cultural. E isso se dá, principalmente, em razão daquilo que dissemos lá em cima: o “povo da cultura”, os que se beneficiam dos bons patrocínios e sabem dos famosos “editais”, são, de um modo geral, gente com boas relações familiares, que vêm de berço; e aí fica tudo mais fácil. Se você vai fazer um filme e o filho do dono do Banco estudou com você no colégio; ou a filha do grande empresário foi sua namorada, as possibilidades de suporte financeiro são milhões de vezes mais tranqüilas.
Daí, como tudo isso é sem dúvida resultado do que o Estado brasileiro arquitetou lá atrás, o Estado de agora tem obrigação de criar políticas públicas para corrigir essa distorção, que é histórica no Brasil – com políticas de ação afirmativa.
Os perigos da “racialização” são muito menores do que o racismo brasileiro, que – apesar de o conceito de “raça” estar ultrapassado – está aí, existe e “opera”.
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