5 de junho de 2026

Escola Sem Partido e aula marxista da CNI, por Jorge Souto Maior

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Jornal GGN – Em artigo publicado na Carta Maior, Jorge Luiz Souto Maior fala sobre as ameaças que a democracia brasileira vem sofrendo, citando o Projeto de Lei da Escola Sem Partido ,que pretende negar a liberdade de expressão dos professores e professoras, e “extirpar o conteúdo crítico das salas de aulas”. “O medo que se tem é que a educação sirva à formação do conhecimento, que permite compreender como funciona a sociedade capitalista e quais são, de fato, os obstáculos materiais à superação das desigualdades”, diz Souto Maior.

Ele também analisa a fala do presidente da CNI, Robson de Andrade, que disse que, para recuperar a competitividade das empresas seria necessário um aumento da jornada de trabalho para 80 horas semanais (quando na verdade seriam 60 horas). Para Souto Maior, Andrade dá uma aula de teoria marxista, da mais-valia absoluta. “O Presidente da CNI pode ser visto, inclusive, como um revolucionário”, diz o articulista, já que a exacerbação das formas de exploração do trabalho pode constituir, segundo Marx, um elemento da profusão da consciência de classe, “servindo de alimento à atitude revolucionária”. 

Para o colunista, se a Lei da Escola Sem Partido for levada a sério, a fala de Andrade não poderia ser reprozida em sala de aula, já que poderia se entendida como mais perigosa que a própria teoria marxista. “Afinal trata especificamente da realidade nacional contemporânea, bem mais fácil de ser assimilada.”

Leia a coluna completa abaixo:

Enviado por Webster Franklin

Da Carta Maior

 
por  Jorge Luiz Souto Maior
 
A última manifestação da CNI – Confederação Nacional da Indústria – foi uma autêntica aula de marxismo.

Por diversas maneiras a democracia, que ainda nem se conseguiu construir de verdade no Brasil, tem sido ameaçada, haja vista, por exemplo, a solicitação do Supremo Tribunal Federal à Polícia Federal para que investigue, com vistas à consequente responsabilização, quem idealizou e levou a uma manifestação de rua bonecos infláveis com as figuras do Presidente do STF, Ricardo Lewandowski, e do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, no último dia 19 de junho, na Avenida Paulista[1], o que valeu oportuno Editorial da Folha de S. Paulo[2].
 
No plano da educação destaca-se o Projeto de Lei n. 867/2015 – Programa Escola Sem Partido, que pretende incluir na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional uma negação à liberdade de expressão dos professores e professoras, nos moldes, inclusive, da Lei da “Escola Livre”, já aprovada no Estado de Alagoas.
 
Essas iniciativas no campo educacional vêm na linha do movimento reacionário que deu origem ao golpe de Estado em curso no país, favorecendo ao aprofundamento do Estado de exceção permanente, para a tentativa de impor retrocessos à racionalidade social.
 
Por elas, especificamente, pretende-se extirpar o conteúdo crítico das salas de aulas, servindo, inclusive, como aparelho repressivo, a exemplo do que se passou, recentemente, em uma escola pública no Paraná, quando, de forma atentatória aos mais rudimentares preceitos dos Direitos Humanos e do Direito do Trabalho, se afastou das atividades uma professora que teria realizado, segundo virou moda dizer, uma “doutrinação marxista” em sala de aula[3].

O medo que se tem é que a educação sirva à formação do conhecimento, que permite compreender como funciona a sociedade capitalista e quais são, de fato, os obstáculos materiais à superação das desigualdades e à consolidação da justiça social. Mas essa tentativa de negar a evolução do conhecimento humano é uma tarefa irrealizável, que nem mesmo a tortura foi capaz de concretizar e já se sabe disso desde os tempos de Giordano Bruno. No atual estágio da racionalidade humana, ainda que questões econômicas, sobretudo em momentos de crise, quando o individualismo, decorrente do estado de necessidade, fala mais alto, volta e meia façam reviver lógicas de intolerância, egoísmo e soberba, estimulando a barbárie e a bestialidade, representa uma autêntica ilusão considerar que é possível, pela força, impor retrocessos à compreensão humana e aos avanços sociais já verificados (embora ainda embrionários em muitas realidades) nas relações de trabalho e nas questões de gênero, de raça, de meio ambiente, de orientação sexual, e na própria forma de atuação da democracia.
 
A humanidade, desde o Renascimento, vem em processo progressivo de superação do medo, em especial, do medo do conhecimento, e é cada vez menos possível barrar a capacidade de compreensão por meio da força e da brutalidade, ou pela imposição de medos, como se realizou, em nível mundial, na década de 30, na cruzada contra os “comunistas”, reproduzida no Brasil em vários momentos históricos (1935, 1964 e 2015…)[4].
 
A questão é que embora seja verdade que quanto mais se sabe mais se descobre que pouco se sabe, quanto mais se conhece mais se tem condições de conhecer, em virtude das correlações e das contradições reveladoras que vão sendo descortinadas.
 
Veja-se, por exemplo, o que se passou com a última manifestação da CNI – Confederação Nacional da Indústria, que foi uma autêntica aula de marxismo.
 
Disse o Presidente da CNI[5] que para recuperar a competitividade das empresas seria preciso aumentar o limite do trabalho de 44 para 80 horas semanais. Verdade que depois reconsiderou a fala para esclarecer que fazia menção ao limite de 60 horas semanais[6].
 
Ora, o que o Presidente da CNI fez foi demonstrar que domina muito bem o conceito básico do funcionamento do sistema capitalista, à luz da teoria marxista, da mais-valia absoluta, que representa estender a jornada de trabalho até o ponto em que o valor pago a título de remuneração não alcança a totalidade das horas trabalhadas, permitindo que o trabalhador produza capital excedente, o qual é apropriado pelo capitalista. A mais-valia existirá, por certo, na exploração do trabalho modo de produção capitalista, pois sem ela não se efetiva a mágica do capital de gerar capital, mas quanto menor a jornada menor o excedente, mesmo que com o incremento da mais-valia relativa, que é a intensificação do trabalho dentro da mesma jornada. O fato é que estender a jornada como meio de conferir maior benefício econômico para as empresas, partindo do pressuposto de que o salário não remunera a integralidade do capital gerado pelo trabalho, é um conceito marxista, que, como visto, é bem compreendido pelo Presidente da CNI.
 
Mas não para aí. O Presidente da CNI demonstra que conhece bem outra categoria básica do marxismo, que é o materialismo histórico dialético, afinal veio com essa proposta no momento preciso em que percebeu haver as condições materiais propícias, dadas as correlações de forças nos planos político e econômico, para conseguir impor uma perda à classe trabalhadora, travestida de colaboração, demonstrando, aliás, que domina também outro conceito importante, que é o da ideologia, consistente na utilização de argumentos falseados para fazer parecer que dizem respeito a todas as classes os interesses que pertencem apenas à classe dominante.
 
Dentro desse contexto, o Presidente da CNI pode ser visto, inclusive, como um revolucionário, afinal, como dizia Marx, a exacerbação das formas de exploração do trabalho pode constituir – não que deva assim ser projetado – elemento da profusão da consciência de classe, servindo de alimento à atitude revolucionária.
 
Assim, se pudesse ser levada a sério a tal Lei da Escola Sem Partido, a fala do Presidente da CNI não poderia ser produzida em sala de aula, vez que poderia ser considerada mais “perigosa” que a do próprio Marx, afinal trata especificamente da realidade nacional contemporânea, bem mais fácil de ser assimilada, portanto.
 
E se o espírito da lei fosse levado adiante, na lógica antidemocrática instaurada, o Presidente da CNI poderia até ser alvo de uma investigação da Polícia Federal, sendo que, na projeção do absurdo, haveria o risco de se ver instaurado um setor policial para apuração de condutas “antinacionais” ou “comunistas”, do qual ninguém escaparia, até porque se como diz o PL 867/15, o ensino deve ter por princípio a “neutralidade política, ideológica e religiosa”, o “pluralismo de ideias” e a “liberdade de consciência”; sendo “vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes”, as professoras e professores ao passarem aos alunos uma visão liberal de mundo estariam obrigados a explicar (e sem críticas destrutivas) a esses mesmos alunos a teoria marxista.

Lembre-se, ainda, que como dita o PL, o professor “não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária” e “não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas” e deverá respeitar “o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”, e muitos pais e mães são marxistas, humanistas ou democratas e poderiam se insurgir contra a recorrente “doutrinação liberal”, que, de fato, nem liberal é, repercutindo apenas valores conservadores, medievais, oligárquicos, racistas, machistas, homofóbicos, egoístas, individualistas, intolerantes e neoliberais. Mas não se imagina que o farão, ao menos por meio da utilização de uma lei autoritária e repressiva, práticas que não devem ser estimuladas sob qualquer pretexto.

De todo modo, de um jeito ou de outro, o conhecimento e o saber continuarão derrotando a brutalidade e bestialidade!

São Paulo, 11 de julho de 2016. 
 
[1]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/07/stf-quer-investigacao-da-pf-sobre-quem-inflou-boneco-de-lewandowski.html, acesso em 11/07/16.
[2]. http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/07/1789999-censura-ao-pixuleko.shtml, acesso em 11/07/16.
[3]. https://www.brasildefato.com.br/2016/07/08/professora-da-rede-publica-e-afastada-ao-abordar-marx-em-sala-de-aula/, acesso em 11/07/16.
[4]. Vide, a propósito, o excelente filme, Trumbo: Lista Negra, do diretor Jay Roach, lançado no Brasil em 2016.
[5]. http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/07/cni-elogia-meta-fiscal-de-2017-mas-se-diz-contra-aumento-impostos.html, acesso em 11/07/16.
[6]. http://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/em-nota-cni-tenta-corrigir-declaracao-de-presidente-sobre-80-horas-semanais-de-trabalho-70242/, acesso em 11/07/16.
 

Créditos da foto: Miguel Ângelo/ CNI

 

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6 Comentários
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  1. Andre Araujo

    12 de julho de 2016 12:52 pm

    REFORMA SINDICAL – Uma das

    REFORMA SINDICAL – Uma das medidas centrais para evitar a existencia desse tipo de liderança patronal seria a REFORMA SINDICAL. Hoje o sistema de piramide nos indicatos patronais e de empregados permite que nomes sem nenhuma expressão politica surjam como presidentes de Federações e Confederações em eleições de gaveta, conchavadas, sem nenhuma eleição verdadeira e democratica. O sistema todo é baseado no IMPOSTO SINDICAL tanto patronal (baseado no capital da empresa) e no dos trabalhadores, um dia de trabalho.

    As contribuições forçadas, obrigatorias mantem a estrutura viciada que leva ao topo das confederações nomes sem qualquer liderança verdadeira entre os empresarios, isso é coisa antiga mas está se agravando nos ultimos 20 anos.

    O presidente da Comfederação Nacional do Comercio, Antonio de Oliveira Santos, tem 35 anos no cargo, um presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Industria ficou 41 anos, Paulo Skaf esta na FIESP há 3 mandatos e Gouvea Vieira está na FIRJAN há 4 mandatos, Robson Andrade tem uma empresa ORTENG que tem fortes ligações e mercado em estatais de energia eletrica, a CNI raramente teve uma presidencia realmente interessada nos grandes problemas da economia e que tivesse o peso politico para enfrentar os erros da politica economica dos governos, ao contrario, a base operacional das confederações empresariais é FICAR BEM COM TODOS OS GOVERNOS.

  2. mcn

    12 de julho de 2016 1:07 pm

    Do Twitter

    O maravilhos mundo das pessoas, como o Presidente da CNI, que são proativas com o trabalho dos outros.

     https://goo.gl/kmqzLX

     

  3. maria rodrigues

    12 de julho de 2016 1:22 pm

    Temer não parece um ditador,

    Temer não parece um ditador, ele está se impondo como tal. Por ter sido pego de surpresa, considerando o pouco tempo em que foi ungido à sua ilegitimidade, não soube se preparar devidamente para a função. Teve que se acercar de neo-pentecostais; policial virulento, general, e outros tantos com ideias esdrúxulas para juntar ideologias antagônicas, e , numa salada, agradar a todos ao mesmo tempo. Ele age descaradamente como alguém que não poderia prescindir de dar esses mimos aos assessores, quem sabe até contrarimaente ao que desejava. Nos seus discursos destacam-se sempre as questões dinanceiras. Temos que gastar menos e arrecadar mais; temos que garantir o desenvolvimento das empresas e das indústrias; precisamos cortar cargos e ministérios; é hora de privatizar correios, bancos públicos, aeroportos, portos, estradas, etc., a questão do aumento dos impostos pode ser necessária,…

    Como diz Requião, é um governo voltado ao rentismo; aos bancos, aos grandes empresários e indistriais, ao capital.

    A pobreza, a miséria, educação e saúde, ou sequer são faladas, e quando muito, são tratadas de um jeito tal, que em suma não revela nenhum sentido de generosidade, mas de falta de amor pelos irmãos que padecem nos hospitais, e que carecem, mais que nunca de escolas bem estruturadas, com ideias progressistas, para que o Brasil possa competir com outras nações desenvolvidas. 

     

  4. Photios Andreas Assimakopoulos

    12 de julho de 2016 1:41 pm

    …presidencia capacitada…

    “…presidencia realmente interessada nos grandes problemas da economia e que tivesse o peso politico para enfrentar os erros da politica economica dos governos…”

    Eu substituiria presidencia interessada, por presidencia capacitada. Duas ocasiões mostraram-me isso. Recentemente assistindo uma palestra com um desses “líderes empresariais”, pude ver a falta de postura – reveladora de tantas coisas – quando começou, simplesmente do nada a fazer piadinhas na ocasião sobre presidente Lula. Ridículo.

     

    Outra ocasião um cliente, dono de uma gráfica de médio porte, recém vindo de uma feira em Dusseldorf, Alemanha. Considerava adquirir equipamento que produzisse o mesmo que tinha, com seus 250 funcionários. Seria necessária além do maquinário contratar 8 engenheiros especializados, treinamento feito na exterior, etc. O financiamento de tudo viria do próprio fabricante em condições MUITO melhores que qualquer BNDES. A idéia seria dobrar sua produção (não considerava dispensar ninguém) e trazer know-how. Ou seja, investimento, capacitação profissional isso sim produz competitividade. Só não investiu pelo fato de achar a economia muito instável para tal, o que não lhe permitia fazer um planejamento razoável de prazo mais longo.

    É de chorar, ver os tais pretensos líderes, com suas gravatas mal laceadas, e roupas amarrotadas falando tanta besteira. Insisto que não é falta de interesse, mas falta de capacidade mesmo.

  5. Juliano Santos

    12 de julho de 2016 4:05 pm

    Foi este indivíduo que disse

    Foi este indivíduo que disse que nos EUA, o operáio como um sanduba com a mão esquerda e aperta um parafuso com a direita? 

  6. jose antonio santosjj

    13 de julho de 2016 9:43 pm

    È só um ignorante

    Voces realmente acreditam que esse presidente da CNI algum dia leu um resumo do resumo do resumo sobre socialismo ou Marx.!!!

    Essa turma, que conheço bem, só sabe ler balanços e às vezes nem isso!

     

    O que eles querem é a exploração dos trabalhadores !

     

    Que falta faz um Rosbespierre!

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