4 de junho de 2026

O problema da violência em SP para além das estatísticas

Comentário ao post “Os resultados do vale-tudo na Segurança paulista

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Mauro Cesar e Claudio Augusto (nem sei por que me dou ao trabalho):

para além das estatísticas nuas e cruas, o problema é bem pior.

É certo que São Paulo, mesmo que se contem as estatísticas de roubo seguido de morte que, segundo se diz, falseiam e muito a violência no estado, provavelmente SP não é tão violenta quanto, por exemplo, Recife, Fortaleza, Salvador, talvez até o Rio.

O problema é o tipo da violência.

Nas capitais nordestinas, a violência é dispersa na forma de criminalidade de “baixo escalão” – trombadinhas e outros celerados com uma arma. Morre muita gente, mas é uma violência sem foco. Claro que para os mortos e famílias isso não serve de consolo. E há que se cobrar uma política de coibição desse tipo de violência das autoridades, sim.

Só que o que realmente envergonha São Paulo são outros fatores por trás dos números:

i. O fato de que a violência da capital paulista é organizada e tem alvo certo. Uma morte de PM semeia muito mais insegurança do que uma morte de um transeunte qualquer. Em Salvador e Fortaleza, não há operativos do PCC fuzilando policiais em delegacias, como aconteceu em 2006. Nem há toques de recolher – ou rumores suficientemente críveis para que os cidadãos se auto-imponham um, o que é tão grave quanto – em bairros de classe média e média baixa dessas cidades. Aliás, além de Rio e São Paulo, não consta que a criminalidades alhures no País já tenha chegado ao estágio proto-mafioso, como o PCC e as siglas delinqüenciais do Rio. Fora dessas duas cidades, a criminalidade mais organizada é a

ii. O fato de que o estado mais rico da nação só sabe usar uma repressão ineficaz e caolha para lidar com um problema que só pode ser combatido com sofisticação.

iii. A negação contínua, ou subestimação deliberada, da existência do PCC. E esta semana pelo menos uma reportagem mencionou a possibilidade de que algumas das mortes em São Paulo seja de gente ligada a policiais, e não dos próprios, suscitando a discussão, ainda abafada, de que na capital do estado dos bandeirantes já haja milícias, como no Rio.

iv. A insistência em agir sozinho do governador, e o aparelhamento político da PM paulista, com coronéis à frente de subprefeituras e a recusa em integrar os esforços preventivos e coercitivos com as autoridades federais.

O Mauro Cesar parece esperar ansiosamente pelo dia em que, acuados pelas UPPs, os traficantes e milicianos cariocas desencadearão uma onda de violência como a que se vê em São Paulo. Não vai acontecer: os criminosos paulistas não estão agindo como agem porque estão acuados. É o contrário: estão se sentindo confiantes o suficiente para intimidar os agentes de segurança do estado. Têm dinheiro, armas, coordenação tática e estratégia. Têm populações intimidadas para lhes dar guarida e territórios.

No Rio, o que vai acontecer é o que ocorre na Itália: o crime organizado vai deixar de ser violento e se sofisticar. Quando as UPPs atingirem a favela da Maré e começarem a se expandir pelas cercanias da capital, como Niterói, o que vai desaparecer é a figura do traficante com camisa enrolada na cabeça, empunhando um AR-15. E vai aparecer o bacaninha de terno, unhas bem feitas e um senador no bolso.

O crime não sumirá, mais vai pelo menos deixar de ser violento.

Em São Paulo, a não ser que as autoridades abandonem a atual estratégia e continuem a usar a tosca repressão desfocada que se vê, nem isso.

Dez policiais mortos a tiros sob encomenda em São Paulo são motivo de vexame maior do que os trinta cidadãos comuns mortos de Salvador, sim. Ao menos do ponto de vista institucional.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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