4 de junho de 2026

Restauração controversa no Museu de Belas Artes


Quadro “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, teria sido danificado na restauração realizada em 2006
Foto: Divulgação / Arquivo O Globo

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Quadro “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, teria sido danificado na restauração realizada em 2006DIVULGAÇÃO / ARQUIVO O GLOBO

 

Críticos poderão ser expulsos do conselho consultivo

RIO – A diretora do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Mônica Xexéo, vai pedir ao conselho consultivo da instituição que expulse do grupo ainda este mês o restaurador Cláudio Valério Teixeira, atual secretário de Cultura de Niterói. É assim que o museu reagiu à denúncia feita por ele e pelo historiador Carlos Levy de que o quadro “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, teria sido danificado na restauração realizada em 2006, conforme publicou Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO de ontem.

Teixeira mantém-se firme. Diz que “a obra tem problemas”. E aponta quais são: faixas verticais na lateral da tela.

— Eles nunca falaram nada comigo sobre isso — diz Mônica. — É uma traição o fato de Valério nunca ter dito nada.

Teixeira se defende:

— Não falei nada porque nunca me perguntaram. E mais: O conselho é sobre programação.

Técnico afirma que houve erro em 2006

A polêmica em torno da tela “Primeira missa no Brasil” — que é alvo de reportagem da “Revista de História da da Biblioteca Nacional” deste mês — está em duas faixas de aproximadamente cinco centímetros de espessura, em tom ligeiramente mais claro, que podem ser vistas nas bordas direita e esquerda da pintura. A tela foi concluída em 1860 e retrata a missa encomendada por Pedro Álvares Cabral ao desembarcar na chamada Vera Cruz, em 1500.

Segundo Teixeira, que trabalhou na restauração de “Batalha dos Guararapes” (também de Victor Meirelles e também parte do acervo do MNBA), as faixas são prova de que houve erro no trabalho de restauro e chama a atenção de qualquer um que entende do assunto.

— Levei um choque assim que vi o quadro— lembra ele. — A obra tem problemas, não vou dizer que não.

Larissa Long, atual chefe do departamento de restauração do MNBA, discorda da crítica. Diz que as “faixas neutras” são fruto de uma descoberta feita com testes realizados com raios ultravioleta:

— O quadro de Meirelles passou por quatro restaurações: em 1878, nas décadas de 1960 e 1980 e, a mais recente, em 2006. Na última, vimos que o reentelamento (reforço) feito na primeira delas estava quebradiço e não sustentaria a tela — diz Larissa. — Removemos o tecido, colocamos outro, fizemos exames com raios ultravioletas e descobrimos que, nas bordas da pintura, havia uma massa que não era original. A equipe então se reuniu e decidiu retirá-la. Pusemos fim a um falso estético que havia sido criado para dar unidade à obra e completar a tela.

Larissa diz que, no processo de retirada da massa foram utilizados cotonetes e solvente, técnicas que, segundo ela, jamais provocaram divergências dentro do museu. Ela conta que o processo durou mais de um mês e foi realizado diante do público.

— Se houve debate, foi um debate velado entre os dois que agora nos criticam. Amanhã (hoje) toda a equipe que trabalhou na tela vai se reunir e produzir um abaixo-assinado em repúdio às declarações de Teixeira e Levy.

José Nascimento Júnior, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que financiou junto com o BNDES a restauração de 2006 afirmou ontem, de forma taxativa, que não houve problema algum.

— Gravamos um making of do trabalho e circulamos tanto com o vídeo quanto com a tela por muitos lugares desde 2006. Nos últimos anos, a “Primeira Missa” foi a Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Bélgica e Brasília. Se houvesse algum erro, ele teria aparecido antes.

Em entrevista ao GLOBO, Teixeira sustenta que as falhas na restauração da tela foram tema de “fortes discussões” no museu e que geraram desavenças.

— Uma técnica de restauração alertou a coordenadora da área sobre a falha e viveu um drama danado, teve uma enorme discussão profissional. Teria sido melhor que tivessem assumido o erro porque eles acontecem.

Em carta protocolada no MNBA em maio de 2010, no entanto, Teixeira elogia o trabalho realizado “em prol da restauração das obras de arte pertencentes ao acervo” do museu. Num parágrafo, diz que “baseado numa experiência de mais de trinta e cinco anos de ininterrupta atividade profissional como restaurador”, pode afirmar, com segurança, que nunca pode “observar as atividades de restauração do museu no nível em que se encontram agora”.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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