4 de junho de 2026

As lições do debate presidencial norte-americano

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As lições do debate entre Barack Obama e Mitt Romney para as campanhas brasileiras

Ao oferecer ao cidadão brasileiro a oportunidade de assistir ao vivo, com tradução simultânea, ao debate entre Mitt Romney e Barack Obama, candidatos à Presidência dos Estados Unidos, os canais de TV paga permitiram uma dolorosa comparação. Na mesma semana, em várias capitais do país houve debates entre candidatos ao primeiro turno das eleições municipais, previstas para este domingo.

Em São Paulo, pela segunda vez, um encontro que poderia ter sido esclarecedor para expor diferenças entre candidatos embolados na reta final não ocorreu. Diante de uma decisão judicial que exigia a presença de todos os candidatos – mesmo aqueles com índices irrisórios nas pesquisas de intenção de voto a TV Globo, do mesmo grupo de comunicação que publica ÉPOCA, cancelou o debate, pois seria obrigada a abrigar mais de seis concorrentes, número máximo para garantir um intercâmbio minimamente produtivo para o telespectador.

Mesmo que o debate tivesse acontecido, porém, pode-se apostar que dificilmente teria o mesmo caráter do enfrentamento entre os pretendentes à Casa Branca. Os debates brasileiros são travados por uma legislação que amarra as discussões, impede o livre curso das ideias e não permite que o eleitor tenha acesso – mesmo na forma de um breve programa de TV – a traços da personalidade dos concorrentes, que podem ajudá-lo a decidir o voto.

Ao garantir a presença de todos os concorrentes aos encontros televisionados, a lei abre caminho para que candidatos de aluguel e oportunistas de todo tipo tenham direitos iguais aos de concorrentes com representação real na sociedade. Embora as campanhas eleitorais americanas também tenham seus nanicos – ecológicos, comunistas, fascistas e feministas -, só participam dos debates aqueles com um mínimo de 15% nas intenções de voto, comprovadas por um conjunto de institutos de pesquisa.

Outro problema de nossos debates está em seu conteúdo. Nos Estados Unidos, com o objetivo de informar o eleitor, eles são conduzidos por jornalistas, que têm liberdade para escolher temas, fazer perguntas, questionar e fazer réplicas. No Brasil, os políticos e a legislação eleitoral resistem a um formato mais aberto, com caráter informativo, capaz de estimular a reflexão. As leis se preocupam prioritariamente com o tempo de exposição de cada candidato. No fundo, elas supõem que os debates deveriam servir sobretudo de peça de propaganda, não de informação. Isso explica as regras, severas como uma camisa de força, as pegadinhas, as trocas de favor, os pronunciamentos de candidatos de segunda que se prestam ao papel de cabos eleitorais de concorrentes de primeira – e toda sorte de truque de que os marqueteiros lançam mão para vender seu produto eleitoral.

Apenas no segundo turno, quando apenas dois concorrentes se enfrentam, o eleitor brasileiro costuma ter acesso a debates em formato mais flexível, com um conteúdo informativo maior. Foi o caso das últimas eleições presidenciais. Em 2010, com José Serra e Dilma Rousseff, eleitores sorteados tiveram a oportunidade de fazer questões diretamente aos candidatos. É desejável que a legislação eleitoral seja aperfeiçoada para garantir a promoção de debates não apenas equilibrados, mas sobretudo informativos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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